A “Revolução Brasileira” – Entre a volta da monarquia e o fim da escravidão

A falta de uma educação emancipadora e libertadora contribuiu para que o Povo não soubesse de sua história, tornando mais fácil sua dominação por aquela nobreza mencionada. Por que esse tema ainda é tão importante?

Não estamos falando de um Reino qualquer. Estas terras pertenciam a outras nações, que aos poucos foram dizimadas pelas armas, pelos germes e pela dominação cultural dos ocidentais. Concomitante ao avanço dos conquistadores europeus, uma nação oriunda dos humanos africanos e escravizados se constituía no seio do território, os quilombos. Estes foram destruídos e, somado ao genocídio dos povos originários são grandes problemas até hoje mal resolvidos.

Mesmo depois da independência o Brasil seguia sendo uma monarquia de modelo europeu, mas os grandes latifundiários – que já eram os donos do poder econômico – se aliaram aos militares para impor o golpe da república. Foi somente na Constituição Federal de 1988 que temas ancestrais foram tratados seriamente. Ainda assim, parece que as instituições do império permaneceram vivas.

Este grande reino é formado por uma aristocracia administrativa (cargos de elite do Estado e a classe politica) que trabalha para o Rei e a Nobreza. A nobreza de sangue azul é uma elite composta de famílias tradicionais detentoras de rendas, e altas personas do sistema financeiro e do agronegócio. Eles se valem do aparelho estatal para manter seu status, com razoável distancia dos escravos. Tudo isso é amplamente explicado em A elite do Atraso de Jessé de Souza.

De um lado a Monarquia.

O rei é um velho aristocrata que recentemente foi submetido ao voto, e venceu a submissão após seu concorrente ser preso. Há também a igreja, que reorganiza seu apoio ao redor da figura do Rei, para ungi-lo a autoridade do poder divino e, claro, assegurar a sua dominação ideológica aos não conversos.

O atual monarca representou os anseios dos grupos que melhor souberam expressar o que queriam [e o que não queriam] durante o pleito no meio desta revolução. Por ser um aristocrata de longa data no reino, ele soube sintetizar os interesses de vários grupos, através de discursos inflamados contra o antigo reinado, usando sua passagem pelo exército para unir vozes aos seus gritos de patriotismo.

O arquétipo comportamental do rei é semelhante ao do retratado por Hans Christian Andersen em A nova roupa do Rei. Sim, este rei gosta de elogios e não sabe lidar muito bem com os que apontam sua nudez. Há também neste monarca a presença do reizinho mandão do conto de Rut Rocha, que segundo a autora “(no fundo era um menino mal-educado e mimado) mandava todo mundo calar a boca. De medo, as pessoas calavam”. Além disso, o comportamento deste rei é semelhante ao de Aerys II Targaryen – o “rei louco” de Game Of Trhones.

Do outro lado a escravidão.

E agora tem o povo! A porção mais plural, mista e poderosa neste contexto. A falta de uma educação emancipadora e libertadora contribuiu para que o Povo não soubesse de sua história, tornando mais fácil sua dominação por aquela nobreza mencionada. Por que esse tema ainda é tão importante?

Em entrevista a Revista Cult, o sociólogo Jessé de Souza afirma que quando uma sociedade consegue romper o ciclo de mentalidade escravocrata, mesmo havendo desigualdade a pessoa ainda é tratada como ser humano, não como coisa. Jessé completa que “as lutas sociais pela igualdade são produzidas por processos coletivos de aprendizado, na qual a dor e o sofrimento do outro podem ser revividos em cada um”.

Sim, a escravidão ainda continua. Aqueles “seguranças” que torturaram e filmaram o rapaz preto, pobre, filho de pais separados e dependente químico, apenas fizeram o que lhes cabia como feitores ou capitães do mato. A verdade é que bateram naquele rapaz, mais de 500 anos de história, atrelados aos milhões de africanos trazidos para a Terra de Vera Cruz. Eles bateram naquele rapaz por que tudo o que ele representa, todos os adjetivos citados pra definir o trombadinha de chocolate, não se aplicam a humanos.

Você pode discordar deste cronista. Mas quando parecer um exagero, leia sobre a população carcerária no país ou sobre o número de mortos em operações policiais. Depois associe estas informações colhidas com quantos gerentes de banco, empresários, políticos, banqueiros, jornalistas, apresentadores e professores pretos você sem lembra. Por fim pergunte, “o que tudo isso tem a ver”?

Há um tempo eu escrevi We are Brasil, e afirmei “Em breve todos estes pedaços do que somos [dentro da nação brasileira] precisarão se unir, quando cada uma destas vozes [ainda que conflitantes] ecoarem no mesmo dia”. Como diz o samba enredo da Mangueira de 2019, nesta história que a história não conta, “Tem sangue retinto pisado, atrás do herói emoldurado. Mulheres, tamoios, mulatos” e todo um país que “não está no retrato” poderá escolher entre manter a monarquia, ou livrar-se da escravidão.

Ah… não esquece de mandar aquele Abraço!

Vanderson Souza
Graduado em Letras, acadêmico de história e professor nas horas vagas, escrevo porquê não tenho dinheiro pra análise. Vamos refletir e relembrar um pouco sobre Literatura, Música, Antropologia e História? Aqui no "Inter Ditos" você irá encontrar a articulação desses saberes, com os temas comuns à vida cotidiana e as últimas notícias.
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