“ […] Que quer dizer “cativar”?

O Pequeno Príncipe é uma fábula escrita por alguém que poderia estar delirando, o autor conversa e dá ouvidos a um jovenzinho, sem saber ao certo se ele era real, o que podemos aprender disso?

Este talvez seja um dos meus livros prediletos, e sei que para muitos também é. A Fábula narra a trajetória de um jovem que sai de seu planetinha em busca de conhecimento. Em determinado momento da jornada ele encontra uma raposa com quem quer fazer amizade, mas o bicho se mostra restrito a isso no começo. Vai entender, tem gente que é assim né?
Não se abre de uma vez.

“Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda”

Cativar é criar laços, isso envolve ter algum tipo de ligação que, com o tempo, faz uma pessoa se lembrar da outra, ainda que ambas estejam distantes. Sabe quando você começa a marcar alguém nos memes que olha nas redes sociais? (A raposa é mais poética, fala do trigo, dos cabelos do príncipe e etc). É exatamente disso que se trata a ideia de cativar!

É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa “criar laços…”
A obra parece ser infantil, mas tras reflexões atemporais.

Quando conhecemos alguém e criamos laços com esta pessoa, ela passa a fazer parte de nossa vida naturalmente. E cativar leva tempo, não é algo que se faz rápida ou compulsoriamente como comprar, “talvez os homens tenham se esquecido dessa verdade”, afirma a raposa.

Mas não seria demasiado forte a ideia de “tornar-se responsável”, por aquilo que se cativou? Teríamos realmente algum tipo de responsabilidade sobre pessoas que estão à nossa volta? Se sim, isso não nos deixaria sob uma certa compulsão, o que por sua vez nos tolheria a liberdade?

Talvez. Não quero entrar em subjetividades extremas neste texto, muito menos discorrer sobre a ideia de liberdade. Assunto lindo, complexo, metafísico que gastariam muitas páginas em abarcar os conceitos filosóficos mais relevantes sobre o tema. De qualquer modo, independente do referencial teórico ou filosófico em que você se baseie para definir a liberdade, ela sempre vai esbarrar em algum paradigma complexo, digo isso e provo.

Cativar é criar laços, fazemos isso por amor, e leva tempo.
Liberdade relativa

Você está com fome e decide comer em um fast food, verifica que tem dinheiro e os meios para se locomover até a lanchonete, e sua liberdade lhe permite escolher o lanche que desejar. Talvez raciocine que este pequeno ato reflita a sua liberdade, afinal você escolhe o que – e onde – comer. Mas aí está o problema. Fez tudo isso por que sentiu fome, por que foi conduzido escravo de si mesmo e de seu desejo.

 

A breve reflexão acima nos ajuda a entender que quando se trata de relacionamentos, a liberdade também não e absoluta, como não é em nenhum outro campo da vida. Sempre estamos presos ou ligados a vontades, quer sejam alheias ou as nossas, e são estas ligações que temos com os outros, em especial com as pessoas que amamos, que tornam os esforços da vida menos egoístas.

É pelo amor aos filhos que o pai trabalha, compra presentes e lhes dá educação, e ele está preso a isso. É por amor a esposa que o marido faz coisas semelhantes. É por amor aos amigos que uns pagam aquela cervejinha ao que está sempre duro no rolê. Enfim, exemplos vão ao infinito. Este amor é por si só escravizador, mas ao mesmo tempo não nos priva a liberdade nem nos torna menos livres em relação à vida. Fazemos certos esforços pelos outros, muitas vezes de modo consciente, simplesmente porque há laços, por que nos deixamos cativar e fomos cativados.

Em nenhum momento neste diálogo há a ideia de que as pessoas devem esperar algo de nós, ou nós delas. Mas o fato é que vivemos em grupos e nos aproximamos de quem nos apegamos, e este apego nos garante a sobrevivência. Por fim, é sempre importante reconhecer esta verdade vital, quando conseguimos cativar alguém, esta pessoa fica feliz quando ficamos felizes, e se entristece com nossos padecimentos.

Responsabilidades eternas sob quem cativamos

Não podemos fugir de tal responsabilidade adquirida de forma tão natural, mas indubitavelmente pesada; quem nos ama de verdade deseja nos ver feliz, e ficará triste quando algo nos fizer mal. Estas pessoas são livres e você deseja que sejam, mas elas têm vínculos com você, criaram laços, te cativaram.

O príncipe percebe esta verdade algum tempo depois, quando vai ver as rosas e percebe que são todas iguais. Lindas. Mas iguais a que ele tinha no seu planeta. Aí está o grande tesão desta reflexão; ele aprendeu que foi o tempo que passou com a rosa que fez com que um se tornasse único para o outro. Sabe, não é difícil você imaginar isso se pensar que as pessoas que você admira e ama, te fazem ter lembranças que te marcam, e justamente este tempo que passaram juntos os tornam únicos.

“Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…”

O que o seu namorado, ou melhor amigo tem de tão diferente que milhões de outas pessoas não tenham? O que seu professor predileto faz que outros não façam? O que sua banda predileta produz de diferente das outras? Você poderia dar respostas longas sobre cada uma dessas questões, mas a verdade e que há multa gente legal, que te compreenderia, que é bonita e inteligente, que você poderia ter amizade, ou ter um romance, assim como há muitos professores mais aplicados e com melhor didática que o seu, bem como muitos músicos talentosos por aí.

Em cada um desses casos, as pessoas em questão te tocam o coração e forma especial, ou simplesmente cruzaram seu caminho no momento certo, e com o tempo se acumulam lembranças, até que tais indivíduos passam a reconhecer-se únicos. Antes eram mais um entre cem mil outros, agora eles podem te deixar mais ou menos feliz de vez em quando.

“Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo […] Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa”.

“O essencial é invisível aos olhos”

Por fim, a raposa tem um último diálogo com o príncipe e lhe revela o que ela diz ser um segredo. Sussurrando aos seus ouvidos ela declara que “o essencial é invisível aos olhos e só se vem bem como coração”. Palavras muitos distribuídas em status e legendas nas redes sociais. No entanto, não poderia haver melhor conclusão para esta conversa do que a afirmação proposta.

Espero que tenha matado a charada. Posso ter, nestas palavras, te cativado ou não. Posso ter me tornado apenas um falastrão enrolador ou, bom, talvez eu seja aquele amigo de humanas que quer problematizar as coisas. Aquele que ainda acredita que as pessoas grandes precisam cativar mais e se deixar ser cativadas, aquela pessoa que ainda vibra no diálogo fantasioso de um pequeno príncipe e uma raposa.

“Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa”

REFERÊNCIAS:

Saint-Exupéry,Antoine De. O pequeno príncipe, Tradução de Denise Bauttman. Companhia das Letras.

 

Vanderson Souza
Graduado em Letras, acadêmico de história e professor nas horas vagas, escrevo porquê não tenho dinheiro pra análise. Vamos refletir e relembrar um pouco sobre Literatura, Música, Antropologia e História? Aqui no "Inter Ditos" você irá encontrar a articulação desses saberes, com os temas comuns à vida cotidiana e as últimas notícias.
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