Um apelo à liberdade Feminina através de Lima Barreto

Cem anos nos separam da obra de Lima Barreto. O que mudou? O que permanece Igual? E quais reflexões ainda são pertinentes? O conto Lívia é um convite a estas reflexões.

Você já ouviu falar de Lima Barreto? Ele é um desses gênios incompreendidos que surgem de tempos em tempos, vão contra tudo e todos, mas nem sempre ganham o destaque merecido durante sua vida. Felizmente em anos recentes sua obra tem sido redescoberta e relida cada vez mais.

O livro intitulado LIMA BARRETO – TRISTE VISIONÁRIO escrito por Lilia Moritz Schwarcz, e distribuído pela Companhia das Letras, é uma excelente indicação para quem deseja conhecer melhor a vida e o trabalho de Lima Barreto. Esta obra investiga a biografia do escritor sob a ótica racial na cidade do Rio de Janeiro no primeiro período republicano. Na introdução do livro, Schwarcz faz a seguinte proposição sobre Lima Barreto:

Lilia Moritz Schwarcz, escritora, historiadora e antropóloga. Foto de El país.

“Afrodescendente por origem, opção e forma literária, Lima Barreto combateu todas as formas de racismo, aqui e nos Estados Unidos — país que costumava hostilizar em seus escritos, pois julgava que por lá seus “irmãos de cor” eram tratados muito mal —, e desenhou seus personagens com particular ternura.”

Por estas razões ler Lima Barreto é uma experiencia atemporal pois os debates sobre o racismo, e até mesmo a escravidão, ainda são necessários no Brasil. Ao passear pela obra de Barreto, me deparei com um conto sobre outro tema, igualmente, atual e necessário.

Lívia.

O conto narra os pensamentos e angústias de uma moça que mora com os pais, a irmã e seu cunhado. Por ser solteira vivendo entre a primeira e a segunda década do século XX, Lívia sente-se presa, sonha com a liberdade de sair de casa e deixar sua condição de submissão e subserviência ao seu pai e cunhado.

Entre as lembranças dos ex-namorados, Lívia passa a indagar a si mesma se havia amado alguém de verdade em sua vida. Lívia também reflete se os gestos de carinho e intimidade compartilhados com este ou aquele namorado teriam valido a pena, afinal ela seguia ali, solteira.

Por fim, as reflexões de Lívia são interrompidas por sua mãe que a cobra o motivo de estar parada na janela e não ter ido varrer a casa. “Obedecendo chamado de sua mãe, Lívia foi mais uma vez retomar a dura tarefa, da qual, ao seu julgar, só um casamento havia de livra-la para sempre.” Ao finalizar o conto dessa forma, o desfecho mostra que a narrativa volta ao seu estado inicial, pelo menos na visão da personagem.

O que isso tem a ver?

Lima Barreto Triste visionário, pela Companhia das letras.

Lívia representa muitas mulheres que eram totalmente submissas à ordem familiar sob a égide de um homem, seja ele Pai, cunhado ou marido. Esta mulher deseja viajar, estudar e realizar seus sonhos, mas por não estar casada sente-se presa. Neste momento, caso tivesse a ‘sorte’ de ter um bom casamento, Lívia pensa que poderia viver as coisas que – ao seu ver – lhe faria feliz.

Lima Barreto retrata mais do que o dilema de uma moça que deseja se casar. O conto não retrata apenas a carência de uma jovem, afinal Lívia é fruto de seu tempo; uma mulher submissa que não consegue enxergar outra forma de viver feliz, sem estar atrelada a um homem. Desde os tempos em que este conto foi escrito até hoje, muitos passos foram dados na busca da igualdade dos direitos femininos. Cem anos separam as mulheres atuais de Lívia, mas fica pergunta; estaria a realidade narrada por Lima Barreto tão distante assim da realidade feminina atual?

Caso deseje ler o conto na íntegra clique AQUI.

Referências:

BARRETO, Lima. Contos completos. São Paulo: Companhia ads Letras, 2010, pág 226-229.

NATAL, Caion Meneguello. O triste visionário: Lima Barreto e seu tempo. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 68, p. 235-240, dez. 2017

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Cia. das Letras, 2017.

NATAL, Caion Meneguello. O triste visionário: Lima Barreto e seu tempo. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 68, p. 235-240, dez. 2017

Vanderson Souza
Graduado em Letras, acadêmico de história e professor nas horas vagas, escrevo porquê não tenho dinheiro pra análise. Vamos refletir e relembrar um pouco sobre Literatura, Música, Antropologia e História? Aqui no "Inter Ditos" você irá encontrar a articulação desses saberes, com os temas comuns à vida cotidiana e as últimas notícias.
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