O Rei que não gostava de governar.

Machado de Assis escreveu sobre um Rei que não tinha apreço pelo papel de governar, o que nós, em pleno século XXI, e com uma amadurecida democracia podemos aprender com isso?

Hoje gostaria de falar sobre Machado de Assis, perceberão que vez por outra trarei à baila alguma citação deste que eu considero o maior escritor brasileiro até agora. Em 11 de março de 1894, Machado publicava esta crônica intitulada “Devaneios de um rei” no jornal carioca “Gazeta de Notícias”. A atemporalidade mesclada com a ironia – marca do estilho machadiano – realmente são dignas de tornar este texto um clássico.

No início ele comenta sobre a Ilha de Trinidade, hoje ilha de Trindade, que embora houvesse disso descoberta em 1501, pelos portugueses, em 1899, portanto quatro anos antes, havia sido começada a ser habitada por poucos exploradores ingleses. Para além de comentar sobre isso, O escritor ensaia filosófica e ironicamente, como ele reagiria se tivesse a oportunidade de habitar esta ilha, sua resposta é interessante: Se faria um Rei.

“Rei sem súditos! Oh! sonho sublime! imaginação única! Rei sem ter a quem governar, nem a quem ouvir, nem petições, nem aborrecimentos. Não haveria partido que me atacasse, que me espiasse, que me caluniasse, nem partido que me bajulasse, que me beijasse os pés, que me chamasse sol radiante, leão indômito, cofre de virtudes, o ar e a vida do universo.”

Essa leitura me faz pensar se há algum sentido no quadro mental pintado por Assis; será que algum governante realmente gostaria de não ter que governar? Será que haveria algum governante que não gostaria de ouvir petições, ou aborrecimentos? Sabemos que de fato nenhum governante tem predileções por ataques e calúnias partidárias, mas parece que Machado vai além quando ilustra isso da seguinte forma:

“Quando me nascesse uma espinha na cara, não haveria uma corte inteira para me dizer que era uma flor, uma açucena, que todas as pessoas bem constituídas usavam por enfeite”

Será que haveria um governante que nem mesmo gostasse que os seus assessores – sua corte – lhe dissessem como andam sua imagem? Seria possível haver algum governante que se irritasse com a forma com que sua imagem é vista pelos demais? Bom, à luz do que se publicam aí em redes sociais globais como o twitter, parece que Machado de Assis emitira quase uma profecia. Mas como este Rei faria para que seu plano se colocasse em pratica.

Machado continua: “Entretanto, para que a mentira não se pudesse supor exilada do meu reino, eu ensinaria à rainha e ao cozinheiro uma geografia nova; dir-lhes-ia que a terra era um pão de açúcar, ou uma pirâmide, para ser mais egípcio, e que a minha ilha era o cume da pirâmide. Tudo mais estava abaixo. O sol não era propriamente um sol, mas um mensageiro que me traria todos os dias as saudações da parte inferior da terra. As estrelas, suas filhas, incumbidas de velar-me à noite, eram as aias destinadas unicamente ao rei da Trindade.”

Não me deterei a comentar sobre termos rebuscados do século XIX, mas acredito que seja possível entender o recado. O colunista indica que a primeira coisa a ser alterada seria a percepção que as pessoas têm da realidade, por meio da educação. Uma educação que não apenas trouxesse novas informações, mas uma nova ideologia, uma nova crença, uma forma de ver e interpretar os fatos de modo a apoiar o domínio de um monarca tão excêntrico. Novamente, me pego a perguntar, será que algum governo poderia tentar usar de mecanismos para disfarçar a realidade, trazer novas interpretações e narrativas, para que estas pudessem apoiar seus atos? O que você, leitor, pensa sobre isso?

Estas perguntas são pertinentes, não são? Para finalizar, gostaria apenas de emitir uma – quase ignorante – opinião. Se você estivesse na ilha de Trinidade, e visse um homem dessa forma se alçar rei. Como se sentiria? Faço o exercício quase filosó

fico, de imaginar se algum país, talvez com uma democracia, talvez sendo a oitava potência econômica mundial – apenas a título de exemplo. Enfim, como um país assim reagiria, caso tivesse um governante que não saiba governar?

Vanderson Souza
Graduado em Letras, acadêmico de história e professor nas horas vagas, escrevo porquê não tenho dinheiro pra análise. Vamos refletir e relembrar um pouco sobre Literatura, Música, Antropologia e História? Aqui no "Inter Ditos" você irá encontrar a articulação desses saberes, com os temas comuns à vida cotidiana e as últimas notícias.
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