A ‘invenção’ do Negro

Até o século XVI, o mundo não sabia da existência dos Negros, nem mesmo os povos que viviam no continente Africano. O que isso significa? E como a "Invenção do Negro" se tornou algo que ainda precisa ser desconstruído?

Até o século XVI, os povos da Nigéria não se referiam aos da Guiné como negros, a Tanzânia não reconhecia os Moçambicanos como negros, nem a Angola se referia assim em relação a Namíbia ou aos de Cabo Verde dizendo, que estes eram negros. Todas estas nações pertenciam a um entroncamento linguístico semelhante e compartilhavam a mesma origem mitológica. Assim como os Judeus e mesopotâmios, ou como os gregos e romanos, estes povos originários do continente Africano guerreavam, se matavam e escravizavam, vendiam-se, exploravam-se, mas não viam em seus vizinhos um traço que os marcasse e definisse pela cor de sua pele.

Os europeus os ensinaram que eram negros, e entenderam que estes africanos eram mais fortes e afeitos ao trabalho braçal que aqueles povos originários americanos. Para justificar o motivo de valer-se exclusivamente desta mão de obra precificada em ouro, também disseram que estes negros eram desalmados e, não só eles, como seus filhos e netos. Tratados não apenas como mão de obra, mas como propriedade e, além de tudo, adoradores de deuses iguais a eles – negros. E como se não bastasse a igreja, também europeia, na aversão a tais deuses pretos, os chamou de demônios.

Por mais de 300 anos foi assim, foi “normal” haver negros sem alma, inferiores, adoradores de demônios. Seria de se esperar que no decorrer destes séculos, até mesmo os descendentes destes africanos desejassem desvincular-se de tal identidade, já que ela trazia em si mesma tanta hostilidade e sem qualquer previsão de terminar. O século XX chegou, e neste momento a grande maioria destes “negros” já não vivia mais sob a égide escravagista imposta pelos Estados cristãos e imperialistas que os haviam distinguido assim.

Já estamos no século XXI, os brancos Europeus ainda ocupam lugar privilegiado nas tomadas de decisão do mundo. Mesmo assim ainda há negros e seus descendentes. Na África há negros, que por muito tempo foram dominados por brancos em suas próprias terras, nas Américas há negros e mestiços que, apesar de ser maioria em número, não ocupam a maioria dos postos destacados como gestores, professores, banqueiros, políticos e artistas. Há negros que, curiosamente, ainda realizam a maioria dos serviços braçais e que dispõem de menos recursos financeiros que os brancos, estes negros quase sempre possuem acesso mais dificultado às universidades, no entanto ocupam a maioria das vagas nos presídios, e morrem em maior número pela violência.

Ao refletir brevemente sobre esta ‘historia do negro’, fica claro que não foram os negros que se inventaram assim, muito menos os africanos que inventaram os negros. Quando os europeus – brancos – trouxeram aqueles mais de 4 milhões de escravos africanos para trabalhar na América (esta é a estimativa aproximada para o Brasil, o país que mais recebeu escravos africanos) era necessário uma explicação, algo que validasse a moral ocidental que se construía, chama-los de negros era apenas uma formalidade desse sistema.

Estes negros chegaram aqui e se uniram, mesclaram sua fé, criaram estilos musicais, adaptaram orações, fizeram de suas crenças não apenas um conjunto de atividades religiosas, mas tudo o que elas vieram passou a ser um traço de resistência, apenas para poder manter a própria existência.

Estes seres humanos admitiram que eram negros, embora sem entender e concordar com isso inicialmente. Vivem as palavras da poetisa Peruana Victória Santa Cruz: “Negra soy!”, e através desse reconhecimento, os filhos dos Orixás, os netos de Zumbi e Dandara, os sobrinhos de Cruz e Souza e Machado de Assis, os alunos de Milton Santos, podem orgulhar-se de sua identidade, embora esta não tenha sido construída por eles mesmos. Enquanto ainda disserem que são negros, e os tratarem como negros, como diferentes, eles terão orgulho de dizer “Somos negros”, e lutar para desfazer, ou desconstruir, as diferenças impostas por aqueles que, pela primeira vez, disseram aos seus antepassados que eles eram negros.

Segue o Poema, em espanhol, de Victória Santa Cruz:

Me Gritaron Negra – Victoria Santa Cruz

 

Tenía siete años apenas,
apenas siete años,
¡Que siete años!
¡No llegaba a cinco siquiera!

Victória de Santa Cruz, 1969

De pronto unas voces en la calle

me gritaron ¡Negra!

¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!

“¿Soy acaso negra?” – me dije ¡SÍ!
“¿Qué cosa es ser negra?” ¡Negra!
Y yo no sabía la triste verdad que aquello escondía. Negra!
Y me sentí negra, ¡Negra! 
Como ellos decían ¡Negra! 
Y retrocedí ¡Negra!
Como ellos querían ¡Negra!
Y odié mis cabellos y mis labios gruesos
y miré apenada mi carne tostada
Y retrocedí ¡Negra!
Y retrocedí…
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Neeegra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!

Y pasaba el tiempo,
y siempre amargada
Seguía llevando a mi espalda
mi pesada carga

¡Y cómo pesaba! …
Me alacié el cabello,
me polveé la cara,
y entre mis cabellos siempre resonaba
la misma palabra
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Neeegra! 
Hasta que un día que retrocedía,
retrocedía y que iba a caer
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! ¡Negra!
¡Negra! ¡Negra! ¡Negra! 
¿Y qué?

¿Y qué? ¡Negra! 
Sí ¡Negra! 
Soy ¡Negra!
Negra ¡Negra! 
Negra soy

¡Negra! Sí
¡Negra! Soy
¡Negra! Negra
¡Negra! Negra soy
De hoy en adelante no quiero
laciar mi cabello
No quiero
Y voy a reírme de aquellos,
que por evitar – según ellos –
que por evitarnos algún sinsabor
Llaman a los negros gente de color
¡Y de qué color! NEGRO
¡Y qué lindo suena! NEGRO 
¡Y qué ritmo tiene! 
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO 
Al fin
Al fin comprendí AL FIN 
Ya no retrocedo AL FIN 
Y avanzo segura AL FIN 
Avanzo y espero AL FIN
Y bendigo al cielo porque quiso Dios
que negro azabache fuese mi color
Y ya comprendí AL FIN 
Ya tengo la llave 
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO 
¡Negra soy!

 

Vanderson Souza
Graduado em Letras, acadêmico de história e professor nas horas vagas, escrevo porquê não tenho dinheiro pra análise. Vamos refletir e relembrar um pouco sobre Literatura, Música, Antropologia e História? Aqui no "Inter Ditos" você irá encontrar a articulação desses saberes, com os temas comuns à vida cotidiana e as últimas notícias.
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