“Só Shakespeare salva”

O que se poderia refletir e aprender com uma peça shakespeariana em pleno século XXI?

Você sabia que Shakespeare é um dos autores ingleses mais importantes? Um grande crítico literário norte-americano chamado Harold Bloom comentou em seu livro O Cânone Ocidental sinaliza comenta: “Shakespeare escreve tudo da forma mais natural. E não basta uma vida para abarcar tudo o que o bardo ensina. Ele é o supremo artífice da sabedoria. Sempre descubro uma nova lição em poemas e aforismos embutidos em seu teatro. Só Shakespeare salva”. Você não precisa concordar com tudo isso para, ao menos, reconhecer a importância da obra Shakespeariana, sobretudo se tiver conhecimento da língua inglesa. Pois além de escrever peças incríveis no período da rainha Elizabeth I, Shakespeare também viveu em um tempo de reformulação de seu idioma.

A Obra Macbeth narra a história de um habilidoso e ambiciono General da Escócia que, ao voltar vitorioso de uma batalha encontra três bruxas que lhe faz uma curiosa profecia: Macbeth se tornaria Barão em reconhecimento de seus feitos e logo se tornaria Rei da Escócia, mas o seu amigo de nome Banquo – e também general – que lhe acompanhava na ocasião, seria o pai dos futuros reis. Naquele momento a Escócia já era governada pelo Rei Duncan. Como MacBeth se tornaria Rei? E como Banquo se tornaria pai de um futuro Rei?

No retorno da batalha o General Macbeth e sua esposa recebem os títulos de Barão e Baronesa e, em seguida Macbeth se lembra da profecia das bruxas, a partir daí ele e Lady macbeth começam a tramar a morte do Rei. O plano era simples; hospedar o Rei, oferecer um jantar e, quando o Monarca já estivesse dormindo em seus aposentos, ele e seus guardas seriam mortos, e os inimigos de guerra, incriminados. Macbeth por um momento hesita, sua esposa responde:

Atriz Vera Fischer interpretando Lady macBeth. Direção: Ulysses Cruz. Ano: 1992. Fonte: YouTube

 “Estava bêbada A esperança que antes te revestia? Ela adormeceu? […], É assim que também considero o teu amor. Temes ser o mesmo em teus atos e coragem, Como eras em desejos? Queres ter Aquilo que estimas como o ornamento da vida Ou viver como um covarde na tua própria estima, deixando o ‘eu posso’ sobrepujar-se ao ‘eu ouso’[…]?”

Porque Macbeth evitaria fazer algo, se antes já havia concebido o desejo para faze-lo? Aqui se anuncia uma premissa moderna; O homem se constrói a partir do que deseja. Portanto negar-se cumprir o que deseja não é o problema, desejar o que não se deveria, ah isso sim. Encontramos algo parecido na carta de Tiago que comenta “Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte.” (Tradução da Nova Versão internacional- PT/BR)

Talvez MacBeth converse conosco de forma pessoal e coletiva. Afinal estamos vendo um alto funcionário do Estado que atingiu notoriedade através de seu bom trabalho. Alguém que foi reconhecido pelo Rei e era acreditado pela maioria da Corte real. Mas este mesmo homem, tão nobre e justo, se deixou levar por suas ambições. O novo Rei se tornara um Tirano disfarçado, embora a maioria das pessoas seguissem acreditando e defendendo Macbeth, pois afinal seu histórico de batalhas a favor da Escócia, era quase ilibado.

Nos últimos anos tem sido cada vez mais comum que altos funcionários da nação se destaquem por seu bom trabalho, este reconhecimento se reflete no expressivo número de novos deputados, vereadores e ministros que advém dos mais variados serviços públicos; Juízes, Delegados, Médicos etc. Macbeth é apenas um personagem Shakespeariano, e mesmo assim consegue refletir dramas bastante comuns a nós, pessoas reais. Mas é claro que a vida sempre pode ser mais interessante. Na vida real poderia haver Juízes, ou procuradores ganhando destaque por seu bom trabalho, e ao mesmo tempo tramando ás ocultas meos de subverter a Lei, apenas para atraírem para sí maais poder.

Harold Bloom. Autor e Crítico Literário

No Ato IV, cena III um personagem secundário, ao descobrir o que está ocorrendo na Escócia, ao descobrir que aquele funcionário do Estado fez o que fez, exclama “Pobre pátria, revela medo até de conhecer-se […] nela sorri ainda quem ignora tudo; os gritos e suspiros […] as mais violentas dores assemelham-se a emoção cotidiana”. Se em algum momento, a partir das notícias que ouve e do que lê, você concorda com estas afirmações, talvez Harold Bloom, mencionado no início tenha razão, e talvez tenhamos que ler mais Shakespeare.

Referências:

ASCHER, Nelson. Harold Bloom esmiúça obra de 12 compatriotas em livro. Caderno Ilustrada – Jornal Folha de São Paulo. 2017. Acesso em 09 de Julho de 2019. Disponível em: <<https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/09/1922920-harold-bloom-esmiuca-obra-de-12-compatriotas-em-livro.shtml >>

BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental. 2014.

CRUZ, Ulysses (Diretor). Peça teatral “Macbeth”. Direção: Ulysses Cruz. Ano: 1992. Acesso em 03 de Julho de 2019. Disponível no Youtube <<https://www.youtube.com/watch?v=b98d0CqPSac&t=2540s>>

GIRON, Luís Antônio. Só Shakespeare salva. Revista Época. Acesso em 07 de Julho de 2019. Disponível em: <<http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR71808-6060,00.html>>

SHAKESPEARE, Willian. MacBeth. Companhia das Letras, edição de 2011.

 

Vanderson Souza
Graduado em Letras, acadêmico de história e professor nas horas vagas, escrevo porquê não tenho dinheiro pra análise. Vamos refletir e relembrar um pouco sobre Literatura, Música, Antropologia e História? Aqui no "Inter Ditos" você irá encontrar a articulação desses saberes, com os temas comuns à vida cotidiana e as últimas notícias.