Você certamente deve ter algum documento de identificação, nele está alguns detalhes sobre seu nascimento e filiação, esse documento indica quem você é para o mundo. Mas é claro que em situações mais específicas, a simples cédula de identidade, ou CNH, não é o suficiente. Em uma entrevista de emprego ou na abertura de uma conta em banco, mais informações são necessárias para que alguem, ou uma instituição, possam lhe ‘conhecer’ melhor. Resta evidente a importancia dos nossos documentos, mais interessante ainda quando pensamos que a simples noção de nome, filiação ou até mesmo a nossa impressão digital, por mais corriqueiras que pareçam, são definidoras e fazem parte da forma como nos vemos e nos comportamos no mundo.

Álbum Entren los que quieren,2010. Grupo Calle 13.

O grupo musical de Porto Rico, Calle 13, trata da identidade latinoamericana, dizem eles; Soy las muelas de mi boca mascando coca; El otoño con sus hojas desmalladas; Un cañaveral bajo el sol en cuba; Soy el mar caribe que vigila las casitas Haciendo rituales de agua bendita; El viento que peina mi cabelo ;Soy todos los santos que cuelgan de mi cuello.Estes versos mostram os costumes latino-americanos como integrantes da identidade dos povos do continente; Os dentes que mascam folhas de coca, Os canaviais cubanos, A brisa do mar nos rituais caribenhos, O vento penteando os cabelos dos andinos, Os santos que católicos pendurados no pescoço dos povos originários. A América latina é uma mistura de aspectos culturais, geográficos e religiosos. Mas não apenas isso.

E como andam as reflexões sobre a identidade brasileira? Nos deteremos nas observações de Gilberto Freyre que nos definiu mestiços, ou nas palavras de Sergio Buarque de Holanda, que nos chamou de cordiais? O compositor Fabio Brazza, na música “filhos da pátria” parece ter tentado responder a esta pergunta: “Eu sou caravelas em caravanas com caras maus; Caras-pálidas com carabinas trazendo caos; A senzala o quilombo e o palácio; Cabral, Dom Pedro e José Bonifácio Sou o senhor de engenho e a não reforma agrária; Aquilo que eu tenho na minha conta bancaria […] Garrincha entortando zagueiros dentro da área Um pedaço do tratado de Tordesilhas”.

Álbum Filho da Pátria, 2014. Fábio Brazza.

Ao evidenciar que somos um reflexo de toda essa história, relativamente recente, o compositor prossegue em seu refrão: “Eu sou o samba a mulata o quadril […] Eu sou aquele que mata de terno e gravata; E sem precisar de um  fuzil; Eu sou a educação por um fio, eu sou o inverno sem frio; Eu sou, eu sou brasileiro um povo herdeiro daquele 22 de abril”. Pelo que parece neste álbum de 2016, o Fabio Brazza chama atenção para o reconhecimento da identidade mista do país.

Nos últimos anos o país tem dito: “Eu sou Mariele”, Todos somos Moro”, Sou Bolsonaro”, “Somos Lula livreSó para dizer algumas manifestações. E se de fato, formos tudo isso? E se formos os que torcem para prisão de um, mas não de outro, embora ambos cometam o mesmo crime? Ao mesmo tempo em que somos Criolo, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Zilda Arns, Elis Regina, somos também os Guerrilheiros do Araguaia, somos as Diretas já e o senado que as negou por um voto em 1989. Assim como somos os que manifestaram pelo “ele não” e pelo “ele sim”. Em breve todos estes pedaços do que somos precisarão se unir, quando cada voz destas forem chamadas para que possamos entender em que lugar deste conflito entre o yin e yang realmente nos localizamos. Em breve a sua – e a minha – voz serão chamadas para ajudar o Brasil a responder à pergunta: “Quem é você?

 

Referências:

BAZZA, Fábio; DRUM. Filho da Pátria – Álbum Filho da Pátria, 2014.

CALLE 13. LatinoAmérica – Álbum Entren los que quieren, 2010.

Vanderson Souza
Graduado em Letras, acadêmico de história e professor nas horas vagas, escrevo porquê não tenho dinheiro pra análise. Vamos refletir e relembrar um pouco sobre Literatura, Música, Antropologia e História? Aqui no "Inter Ditos" você irá encontrar a articulação desses saberes, com os temas comuns à vida cotidiana e as últimas notícias.