Auxílio do Governo Bolsonaro tem perdido valor de compra por causa da inflação

O processo inflacionário brasileiro tem promovido um golpe na vitrine social do presidente Jair Bolsonaro para as eleições deste ano: o Auxílio Brasil. Na sua implementação, o benefício dobrou a capacidade das famílias na aquisição da cesta básica, mas esse poder de compra vem caindo rapidamente.  O fenômeno ameaça um dos pilares da estratégia adotada pelo chefe do Executivo para enfrentar nas urnas o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O Auxílio Brasil substituiu o Bolsa Família criado pelo PT e, em dezembro do ano passado, teve o piso elevado para R$ 400 e o público ampliado para 18 milhões de famílias. Antes, o valor médio era de R$ 191, para 13,6 milhões de famílias. Ao ser criado, o programa foi visto como uma “boia de salvação” para os planos eleitorais do presidente e comemorado por aliados.

Segundo cálculos do economista-sênior da LCA Consultores, Bráulio Borges, o Auxílio Brasil foi bem-sucedido em um primeiro momento, dobrando o poder de compra dos beneficiários na aquisição da cesta básica, que carrega insumos essenciais, mas essa capacidade vem sendo corroída rapidamente e tende a continuar, segundo as perspectivas para a inflação de alimentos.

Em dezembro, primeiro mês do novo benefício, o valor médio recebido pelas famílias representava 57,9% do custo da cesta básica em São Paulo (R$ 690,51) – um salto sobre o Bolsa Família, que comprava logo antes 27,7% desse conjunto de produtos, considerando os números do Dieese.

Desde janeiro, tal poder de compra tem caído rapidamente e alcançou, em abril, 50,1% do valor da cesta (R$ 803,99). O porcentual é similar ao período às vésperas da reeleição da ex-presidente Dilma Roussef, em 2014 (51,1%).

“O aumento do benefício praticamente retomou o poder de compra do Bolsa Família que havia sido corroído de 2015 a 2021, sem reajuste automático. Ainda é alto comparado com os anos anteriores, sem o auxílio emergencial, mas vem sendo corroído rapidamente”, destacou Borges. “Se o presidente pensou no aumento do benefício como um grande impulsionador nas eleições, pode dar com os burros n’água. Até porque a mudança ocorreu no fim do ano passado e não provocou mudança significativa no índice de desaprovação do governo”, completou.

Borges opta por medir o poder de compra do programa em cestas básicas, porque a política é voltada à extrema pobreza e índices de inflação tradicionais, como o IPCA e o INPC, acabam não refletindo os padrões de consumo desse público. “São pessoas que passam fome mesmo.”

Para Felipe Nunes, cientista político e diretor da Quaest, a inflação é a responsável pelo fato de o Auxílio Brasil ter tido efeito limitado nas mais recentes pesquisas de intenção de voto. “As pessoas de baixíssima renda não conseguiram ver o efeito positivo do aumento de seu poder de compra em função do Auxílio Brasil”, afirma. De acordo com pesquisa Genial/Quast, 51% dos eleitores que recebem o Auxílio avaliam negativamente o governo federal.

Contraponto

Deflacionando o valor médio do benefício por família pelo IPCA até abril, o economista Rodolfo Margato, da XP Investimentos, calcula redução de R$ 426,40 em dezembro para R$ 409,80 em abril Mas pondera que o poder de compra é ainda um dos maiores desde a criação do Bolsa Família, em 2004. Essa avaliação desconsidera o período do “coronavoucher”, em que o valor médio do benefício social chegou ao pico de R$ 1.288.

Em outubro, o valor médio da política atual deve valer R$ 396,50, com base nas projeções da XP para o IPCA – alta de 34,3% ante outubro de 2021, mas queda de 7% frente a dezembro.

O IPCA subiu 1,06% em abril, acumulando alta de 12,13% em 12 meses. O índice de maio (0,47%) foi divulgado na manhã da quinta-feira, 9, com desaceleração a 11,73% em 12 meses. No Boletim Focus do Banco Central, o mercado financeiro aponta inflação oficial em 2022 de 8,89%, sem considerar o pacote de combustíveis discutido atualmente no Congresso.

Conteúdo Estadão por Eduardo Gayer 

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