Apesar de ser 13% da população brasileira, estudos apontam que eles ainda não recebem atenção suficiente da indústria da moda

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Rodolfo Milone

Envelhecer deixou de ser sinônimo de inatividade. No Brasil há cerca de 28 milhões de idosos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e dados do Banco Mundial demonstram que eles são responsáveis por injetar na economia do país cerca de R$ 28,5 bilhões todos os anos.

Apesar dessa participação intensa, com idas a restaurantes, bailes, viagens, centros sociais e academias, pesquisas como o Relatório de Inteligência, feito pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), ainda detectam falta de investimento do mercado quando o assunto são produtos voltados à terceira idade, e isso se reflete também na moda.

Todos os anos há divulgação de novas tendências para o verão, inverno, primavera, outono, moda praia, gestante, bebê, infantil, adolescente… Cada uma dessas categorias com suas variações que agradam os gostos de diferentes grupos de compradores. Mas ainda há dificuldade de encontrar marcas que se disponham a fazer coleções pensando especificamente nas preferências dos que têm mais de 60 anos.

Esse cenário é problemático, pois os idosos podem apresentar necessidades diferentes que abrangem também as vestimentas. Com o tempo, é comum que o corpo perca massa muscular, assim como a diminuição do equilíbrio e da precisão dos movimentos, o que pode dificultar o uso de diversas peças disponíveis no mercado.

O estudo “Idoso, moda e sedentarismo: possíveis relações”, realizado por Murilo Cabral Gomes e Silvia M. Agatti Lüdorf, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aborda essa temática e revela algumas preferências que os mais velhos dizem ter ao ir às compras, mas que nem sempre são facilmente encontradas.

As mulheres da terceira idade destacam a busca por calças e vestidos de tecidos mais leves, maleáveis e de cortes soltos do corpo, assim como calçados baixos e simples de vestir, como sandálias slip on. Já os homens afirmaram buscar por camisas de botão mais do que por camisetas fechadas – a motivação para ambas as escolhas foi a maior facilidade para se vestir e se movimentar com peças desse tipo, já que depois dos 60 anos as articulações se enrijecem e praticidade e conforto passam a ser essenciais.

Fashionista de 79 anos

Mas a expectativa é de mudanças, já que, além de participar de atividades no mundo real, eles também estão começando a marcar presença no universo digital e, consequentemente, ser mais vistos. De acordo com o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, 58% das pessoas com mais de 60 anos têm acesso à internet atualmente no Brasil.

Dentre eles há alguns que se destacam em meio aos influencers de moda, mesmo que a maioria dos criadores de conteúdo sobre roupas seja jovem. É o caso de Izaura Demari, ou Vovó Isaura, como é conhecida na internet. Ela tem 79 anos, mais de 80 mil seguidores no Instagram (@voizaurademari) e é considerada uma das maiores fashionistas da terceira idade.

Izaura cresceu com uma rotina bem diferente da que muitas crianças têm hoje em dia na era digital. Sua infância foi em um sítio, na zona rural de Londrina, no Paraná, onde algumas de suas ocupações eram o cuidado com os porcos, a coleta de lenha e a preparação das refeições. Nessa época, ela talvez nem imaginasse que futuramente percorreria o mundo mostrando seu estilo.

Três filhos, cinco netos e três bisnetos depois, Izaura é se tornou famosa por seus looks criativos, coloridos e extravagantes. As postagens começaram há dois anos e atualmente ela já contribuiu com a representatividade dos idosos sendo notícia em mais de 300 revistas e portais nacionais e 80 internacionais em países como Itália, França, Portugal, Polônia, Canadá, Índia, África, China, e EUA. Tudo isso além de ter desfilado no maior evento de moda do Brasil, o SPFW (Semana de Moda de São Paulo), onde entrou na passarela pelo Instituto Free Free.

A influenciadora conta que o assédio do público veio antes mesmo de sua atuação nas redes sociais. As pessoas a paravam para tirar fotos e conversas por onde ela fosse por conta de seus visuais mirabolantes e chapéus robustos. Percebendo esse interesse, ela e o filho começaram a mostrar ainda mais as roupas inspiradoras da paranaense, o que mudou sua vida: “Descobri meu amor pela moda com a ajuda do meu filho mais novo, Marcio Demari, após a morte do meu marido. Descobri vida, descobri como respirar novos ares, descobri o amor à moda de uma forma muito significativa na minha vida, que a transformou”.

Para Izaura, inspiração não é problema, e buscar combinações que a agradem se tornou uma atividade prazerosa, apesar de qualquer desafio. “Temos de fazer e trabalhar nosso estilo próprio e não depender da indústria da moda, mas, sim, faltam roupas mais coloridas e estilosas para nós da terceira idade. Para que ser careta? Temos de vestir o que nos deixa felizes e confortáveis, e por que não roupas excêntricas?”, questiona a fashionista.

“Boa parte das minhas roupas mando fazer e outras compro em viagens ou ganho de grandes marcas e do meu filho. Gostamos muito de garimpar para achar tecidos diferentes com cores vibrantes e acessórios variados […] Minha inspiração vem da alma e do coração. Adoro cores, brilho e tenho bastante criatividade para demonstrar na minha moda, na minha tendência, as minhas inspirações”, diz Izaura.

Além de modificar seu próprio estilo de vida, ela também se tornou inspiração para outras senhoras que desejam utilizar as roupas como forma não-verbal de expressão: “Recebo muitos e-mails e directs com histórias e pedidos de ajuda para autoestima”, afirma.

Para todos, o conselho da vovó estilosa e alto-astral é descobrir o que faz feliz em todas as áreas da vida: “Acho que o componente principal para me sentir bem é estar bem: bem de saúde, alimentação equilibrada, atividades físicas diárias, estar com pessoas que me façam sentir bem, e não me preocupar com o amanhã, viver o agora. E não esquecendo do principal: faça de sua vida algo excepcional. Pare de se lamentar. Viva o agora, pare de se preocupar com o amanhã, ou se lamentar com o ontem. Faça amizades, adote um animal, doe bondade, sorria mais, faça mais viagens, mais caminhadas, vá às compras e diga sim à vida”.

Jornalista e pós-graduanda em Marketing. No “E aí, tá pronta?” você encontra variedades nos seguimentos de moda, maquiagem, eventos e se diverte com muitas dicas voltadas principalmente para o mundo feminino. Instagram: @patiischmitt.