A impressionante Inteligência Artificial não me impressiona, afinal, não há nada de novo

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Por Fernando Rodrigues de Almeida

Recentemente Bill Gates, notório magnata da tecnologia da informação, em entrevista, relatou aparvalhado e atônito como as novas tecnologias de Inteligência Artificial e modelos algorítmicos vem o impressionando. Conta como essas tecnologias progrediram muito mais rápido do que ele imaginaria e pensou que não seria possível determinar seus impactos na nossa sociedade.

Bem, não há como fazer juízo de valor de saberes, mas talvez possamos dizer que nesse ponto específico a filosofia tem alguma vantagem sobre as ciências da tecnologia. Não digo quanto ao resultado, mas quanto a reflexão.

Afinal, não há nada de impressionante nessas novas tecnologias, fora sua forma, estética e novidades aparentes à empiria. E não impressionam justamente porque fora o aparente, essencialmente não de novo.

Provavelmente, só nesses breves parágrafos, os animados fãs de Elon Musk e companhia e os predicadores do progresso já estão apopléticos em relação a essas minhas profanações à técnica. Mas peço calma, porque vou me justificar.

Pelo jeito, quem acompanha essa coluna já entendeu que vou falar (de novo) de Progresso.

Inteligências artificiais vêm dominando a opinião pública, e, obviamente, geradores inteligentes de imagem, texto, vídeo, voz, geraram uma repercussão crescente em um breve espaço de tempo.

Olhar a capacidade dessas estruturas tecnológicas em um primeiro momento pode, de fato, ser tentador ao espanto, porém se olharmos mais de perto percebemos que, como disse Miguel Nicolélis, essa técnica não é nem tão inteligente, nem tão artificial, afinal esse modelo – palavra importante aqui – são programadas por alguém, e se baseia em informações e coleta de dados de “aprendizagem” de outros alguéns.

E justamente por serem modelos, não são neutras quanto às intenções políticas da formação cultural de uma sociedade em sua média, ou seja, seus padrões são regulados pela média massiva do que se espera do conhecimento.

Isso já vem sendo discutido em termos da relação das IAs com o racismo, machismo, xenofobia, questões relacionadas à comunidade LGBTQIAP+, inclusive a tendências morais da sociedade em relação sua utilidade política.

Mas tem um ponto para mim que é ainda menos novo, um elemento que qualquer tecnologia acompanha na história das civilizações modernas, que é a autoregulação do capital e a precarização do trabalho.

Uma pergunta constante em relação as IAs é se elas substituirão os trabalhos atuais, e a resposta disso tem duas possibilidades. A primeira vi ontem mesmo, em uma daquelas clássicas reportagens de TV aberto sobre prognósticos de futuro.

Nessa reportagem que vi, que não deve ser muito diferente de outras, dizia que, de fato, muitos trabalhos serão substituídos, afinal a IA produz mais rápido que uma pessoa, mas, em toda a positividade própria do liberalismo, os tais especialistas diziam que outras oportunidades surgiriam e que, com isso, os trabalhadores teriam que se reinventar e investir em novos saberes para ocupar o mercado de trabalho do futuro. Ora, ora, ora, de novo isso?

Veja, você com menos de 20 anos já deve ter ouvido esse mesmo discurso em relação a redes sociais. Você com menos de 30 anos, já deve ter ouvido esse discurso sobre a internet banda larga e da internet móvel. Você com menos de 40 anos deve ter ouvido falar isso sobre o advento dos telefones móveis. Você com menos de 50 anos deve ter ouvido falar isso sobre o computador. Você com mais de 50 anos deve ter ouvido falar sobre isso quando do advento da automação robótica.

Todos, de qualquer forma, já ouviram esse mesmo discurso, seja quando a TV substituiu o rádio, seja quando o maquinário industrial se modernizou, seja quando os hipermercados e as comidas processadas se popularizaram, seja quando o pix foi criado e “acabou” com a moeda corrente, seja quando o chatGPT fez o trabalho de escola do seu filho (ou o seu).

Interessante, o mesmo discurso para coisas tão diversas. Aí que está o ponto, não são nada diversas. Aí vem a segunda resposta: sim elas substituirão, afinal são mais baratas e produzem mais por não terem “problemas” humanos.

Bem, mas e as novas oportunidades? De fato, todas elas surgiram. Mas vou exemplificar com a reportagem que eu falava: lá mostrava um sujeito, graduado na USP, especializações diversas em tecnologia, com mestrado na França e doutorado em qualquer outro lugar europeu, com inúmeras pós graduações, que, segundo o narrador, conseguiu pegar o timing e investir nos saberes tecnológicos relacionados as IAs. Ora, ora, ora, isso não te diz nada?

O novo espaço de mercado, acompanha a tecnologia baseado no elitismo. Não é qualquer um que vai ocupar esse espaço, quem vai ocupar é justamente o aristocrata da tecnologia, o protagonista do progresso.

Aí que está o ponto, não há nada de novo. O que há, na verdade, é um desenvolvimento ainda maior da precarização, é uma aristocracia dominadora do espaço formal de trabalho e a abolição da forma para o resto.

Resto aqui usado de forma bem intencional, afinal, o que sobra é o resto. O exercito de reserva de desempregado aumenta, os empregos de subsistência, sob precarização, desformalizados, sem garantias básicas de dignidade, restam para o resto.

Enquanto o liberalismo progressista insiste na ideia das liberdades, da vontade e do contrato, esses elementos são cada vez menos liberais e cada vez mais oligárquicos. Muito pelo contrário, na história do progresso o que vemos é a destituição da forma, do contrato, pelo trabalho precário, limitador da liberdade e pária da vontade, afinal, não há filtro para a potência, apenas o próprio instinto de sobrevivência.

As IAs não são nada novas, não são de se impressionar, seu conteúdo pouco importa, mas sua forma que deve chamar atenção: sob a estética do progresso, mantém e desenvolve a miséria. O que resta na história do progresso são os destroços, não por conta do que é novo, mas do que sempre existiu.

Em derradeiro, chamo a atenção para um pequeno fragmento de Walter Benjamin, que analisa um quadro chamado Angelus Novus, de Paul Klee, e analisa a representação de um anjo que parece querer se afastar de algo que ele encara fixamente enquanto caminha na direção oposta, com seu rosto virado para trás, embasbacado.

Na análise de Benjamin, esse anjo dirige seu rosto para o passado, o que ele vê nesse passado é “uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés”, do presente sopra uma tempestade, na alegoria da obra de arte analisada, essa que impele de forma não forte para o futuro que o anjo vira as costas que impede que ele vá em outra direção, nesse interim, “o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.

Imagem: Freepik / Foto criada por @pikisuperstar


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