O cinema de Jesus Cristo: sua vida em cartaz

Jesus Cristo segue intacto, com uma expressão como que chamando você para um fortíssimo abraço apertado. E então você diz, inundado de lágrimas, sofrimento e tremores: “Pai, eu errei tanto, e mesmo assim você me acolhe!”

  • Por Wilame Prado
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    Um mendigo contou num cair de tarde quente, era verão e a noite começava a cair no céu. Dizia o homem simples e sujo, para três adultos de meia idade, desesperançosos e derrotados em cadeiras de plástico, divindo uma mesa de bar, latas de cervejas e amendoins esparramados, que Jesus Cristo tem um cinema só para Ele. E que o grande protagonista do filme seria cada um de nós, no devido momento da vida, da pós-vida ou da morte. Aqueles sujeitos tristes e mundanos resolveram escutar aquela história, não sem antes darem risadas e evocarem certo desdém para quem desprovia de posses, higiene pessoal e rumo.

    Dizia o mendigo, com total convicção e se esquivando de quinquilharias dos ouvintes, que o título do filme em cartaz seria o nome completo de cada um, finalmente de frente com Ele. Não haveria julgamento, castigo ou prestação de contas. Os créditos finais seria a lista dos nomes de cada pessoa que cruzara a vida do personagem principal daquela obra cinematográfica. E uma bondade seria emanada pelo ar, o semblante d´Ele exalando paz absoluta, empatia e amor, independentemente das cenas de um filme que começaria logo mais.

    Apenas você sentado em meio a centenas de poltronas confortáveis. Pipoca e refrigerante à vontade. Chocolates para quem gosta de doce. Conforto absoluto para o protagonista que estaria se vendo pela primeira na grande tela de um cinema. Jesus permaneceria em pé, sorriso no rosto, como que revendo um filme repetido, do qual sempre se orgulhara, como um Pai observando o filho andando de bicicleta pela primeira vez sem as rodinhas, orgulhoso, sereno e pacato. Consciente de que o ser humano erra, peca, chora e sorri.

    O filme tinha um roteiro bem simples e previsível, como assim haveria de notar o único telespectador: a obra de cinema da sua vida logicamente seria iniciada com um choro de bebê, ao sair da barriga de uma mãe. Elas, mães, jamais deixarão de pertencer a esta história, o primeiro amor, a primeira pele, o primeiro cheiro e aquele acolhimento absoluto para alguém que acabara de chegar em um mundo tão estranho.

    As cenas vão se passando, e Jesus permanece intacto ao seu semblante de entidade máxima, confiante e acolhedor. E você tem dificuldade em disfarças lágrimas de emoção ao ver a quantidade de carinho que recebeu na vida quando era um bebê difícil, incapaz de se virar sozinho e sobrevivendo graças ao amor de uma família.

    O filme fica tão belo na infância daquele protagonista. As brincadeiras, o sorriso largo e a felicidade genuína demonstram que a inocência talvez seja a grande dávida da vida. Nas cenas do filme, você se lembrou que sentia uma alegria estonteante pelo simples fato de comprar novos materiais escolares, ou então de ter podido dar uma voltinha na motocicleta daquele herói chamado pai.

    Você brigava contra o sono porque queria brincar muito mais, com seus pais, irmãos, amigos, familiares, babás ou pelo menos imaginar só mais uma vez que você, sim, era o Homem-Aranha naquela fantasia fantástica que ganhara de presente, ou então que era a mamãe daquela boneca linda em meio aos afazeres dentro da casinha.

    No decorrer do filme, a adolescência começa a trazer para o protagonista algumas dúvidas sobre qual caminho seguir, e uma necessidade de opinar sobre o porquê da briga entre as pessoas, pai e mãe exaltando a voz, vizinhos incomodando, irmãos invadindo a sua privacidade e, num piscar de olhos, um desejo de isolamento e uma tentativa ingrata de tentar entender aquele cérebro tão agitado, cheio de pensamentos e dúvidas. As lágrimas, agora, traduziam as dificuldades de se fazer entendido e de perceber, porém, que agiu com imaturidade e de maneira desagradável para com quem só queria o seu bem.

    O clímax do filme na telona do cinema de Jesus Cristo revive a fase adulta e a infinidade de cenas incríveis, quando cada é por si e talvez “Deus seja por todos”. O primeiro emprego, a faculdade, os relacionamentos amorosos, o desafio do “game” que é precisar ganhar dinheiro para sobreviver, a descoberta do amor maior do mundo chamado filhos e, finalmente, as frustrações.

    Durante décadas você não foi capaz de perceber, mesmo em frente ao espelho, a sua cara de preocupação, o estresse contaminando o corpo e alma e tantos erros cometidos pela imaturidade, pela ausência de um conselho a mais, pelo egoísmo e pelo medo da solidão.

    Cenas finais deste filme que, para a maioria das pessoas, classifica-se mais como um drama do que uma comédia, sufocam o seu peito, a pipoca entala na garganta e você já desistiu de esconder as lágrimas no rosto. A velhice acomete a sua existência como um nocaute, você vai à lona, parece não ter treinado para esta luta.

    Talvez, nunca quis acreditar na derrota, nas limitações físicas, na coleção de traumas que inundam sua mente, no escape psicológico apoiando-se em rituais bobos e infantis. Ninguém quer ser velho. A solidão chega como um tapa na cara, mesmo no meio da multidão. E então você começa a pensar naquilo que poderia ter sido, e que não foi.

    O filme está prestes a acabar. Falhas, pecados, fraquezas e atitudes errôneas jogam em você uma overdose de ressentimento, mas também de imensa lucidez. “Eu não deveria ter julgado o próximo, pois eu também errei”, pensa você, enquanto os créditos finais denunciam o término daquela experiência mediúnica.

    Jesus segue intacto, com uma expressão como que chamando você para um fortíssimo abraço apertado. E então você diz, inundado de lágrimas, sofrimento e tremores: “Pai, eu errei tanto, e mesmo assim você me acolhe!”

    Jesus disse: “sim, meu filho. Eu amo você.”

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