Milagres acontecem todos os dias, especialmente no Natal

“Milagres de Natal nem sempre são vultosos, noticiados pela mídia ou destacados em mil alto-falantes. A bem da verdade, milagres acontecem todos os dias, e não apenas em 25 de dezembro. Só que sem alarde, sem cartaz, sem publicidade ou propaganda. Eles se encaixam melhor assim, pois não se pode banalizar as coisas do divino, e nem misturar o sobrenatural com os interesses mundanos que infelizmente envolvem pecúlios e pecados.”

  • Por Wilame Prado
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    Após sobreviver naquele dia de muita festa, família reunida, brincadeiras, comilança, sorrisos largos e abraços acompanhados de um “Feliz Natal”, um homem agradeceu internamente por finalmente ter se encontrado com o colchão, com o repouso e com a sua própria solidão. 

    Agora ele podia chorar em paz, como segue fazendo em tantas noites e madrugadas. E fez isso por mais de uma hora. Ninguém entenderia tamanha tristeza, por isso o segredo lacrimal, e ele bem que conseguiu segurar as suas angústias durante toda a ceia natalina, sorrindo para as piadas e sendo simpático com quem lhe entregava afetos: mas a tristeza não tinha lugar naquela mesa.

    No mesmo 25 de dezembro, só que em outro lar, uma jovem mulher fazia de tudo para que seu pai tivesse uma noite feliz. Calçou os chinelos nos pés dele após o banho antes da ceia, abraçou aquele abraço de filha capaz de derreter e desmontar qualquer brutamontes, rememorou o codinome “papai” que ela tanto repetiu na infância e adolescência àquela referência paterna que garantiu tudo para o desenvolvimento da filha nas diferentes fases da vida, e, finalmente, disse um “eu te amo muito, pai”. 

    O tom era de despedida. Remorsos da filha à parte, aquele bom senhor deveria se despedir em breve, o maldito câncer e aquela hora marcada que médicos determinam como se morrer fosse apenas mais uma nova consulta para levar exames de rotina feitos após um punhado de horas em jejum. 

    Na noite de Natal, a filha soube que perderia o pai e sonhou, talvez acordada, com abraços de parentes em consolo por saber que a despedida é crua: a morte arranca da vida dos que ficaram o som da voz de quem se foi, o carinho, simples gestos, como encontrar os óculos para enxergar as letrinhas do celular, o cheiro, ou poder calçar chinelos confortáveis depois de um banho merecido.

    Em um outro lar, um jovem rapaz sentiu sede na madrugada. Já era tarde, todos dormiam após a fartura da ceia e o excesso de afetos. Seria a primeira noite de noite naquela casa desconhecida, acompanhava a namorada na cidade do interior onde moram parentes dela. Só que ele preferiu não ter ido até a cozinha buscar água do filtro para beber. 

    Um vulto, um segundo apenas, um grande susto na noite escura, e então uma vida inteira de saudades retornava em seus pensamentos. Sentiu uma imensa vontade de dar “Feliz Natal” para o pai que teve a vida arrancada pela violência da cidade grande há mais de duas décadas. Quanta saudade ele sentiu. 

    Milagres de Natal nem sempre são vultosos, noticiados pela mídia ou destacados em mil alto-falantes. A bem da verdade, milagres acontecem todos os dias, e não apenas em 25 de dezembro. Só que sem alarde, sem cartaz, sem publicidade ou propaganda. Eles se encaixam melhor assim, pois não se pode banalizar as coisas do divino, e nem misturar o sobrenatural com os interesses mundanos que infelizmente envolvem pecúlios e pecados.

    O homem que se acostumou a forjar insônias para chorar na mais completa solidão notou o esgotamento de suas lágrimas porque finalmente teve a visão completamente límpida ao ver seu filho representando o futuro e a esperança de dias melhores sem rejeição, medo ou solidão. O garotinho era forte e feliz, um ser humano do bem. Havia esperança. O milagre natalino secou as lágrimas dele, que representavam um passado que precisava – e foi – enterrado naquele Natal.

    A jovem mulher encontrou respostas metafísicas para aceitar o destino de um pai que viveu intensamente mais de sete décadas, até se deparar com a doença que ninguém deseja para o pior inimigo. Seria o último capítulo daquela biografia honrada e que gerou grandes frutos para uma família estruturada, digna, honrada e feliz. Ela dirigiu sozinha por alguns quilômetros até se reencontrar com o verde da plantação, o vermelho escuro da terra e o azul claríssimo do céu. Retornou para casa diferente, serena e forte, acreditando em milagres de Natal, e repetiu o gesto honroso de arrumar os chinelos do pai para ele calçar. E disse novamente um “eu te amo”.

    Aquele jovem rapaz que pensou ter visto um espírito numa cozinha escura, de uma casa desconhecida, acordou no dia seguinte extremamente feliz porque estava ao lado de uma namorada linda e amorosa. Notou que o amor pode ser hereditário: todos da família dela procuravam demonstrar amor, ainda que de formas rústicas, simples, até caipiras. 

    Só que, em determinado momento do almoço em família, precisou se ausentar. Encontrou um lugar agradável no quintal, uma sombra, flores ao redor, um momento só para ele. Não sabia rezar, mas resolveu pensar no seu pai de uma maneira muito bonita, em tom de agradecimento e de fé. O jovem chorou. E foi tão bom. 

    Milagres acontecem todos os dias, especialmente no Natal. Só que a gente nem vê. E isso é maravilhoso. 

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