Infeliz Natal sem Jessica Daiane

Estampidos de seis tiros derradeiros talvez ecoarão para sempre na mente, na alma e na vida da filha e também nos familiares de Jessica Daiane, que não pode mais falar, não pode dar carinho e nem pode sequer denunciar o tamanho da injustiça que sofreu. Mais uma voz feminina calada, para sempre.

  • Por Wilame Prado
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    Um vazio assustador vai protagonizar a noite de Natal da família de Jessica Daiane, mais uma vítima de feminicídio em Maringá. E não terá presente de Papai Noel que poderá substituir a dor e o trauma da filha dela, uma garotinha de 7 anos que estava dentro de casa quando sua mãe foi executada com seis tiros por Gerson Rafael Geidelis.

    Jessica não enfrentará filas em busca de uma boneca, uma roupinha ou uma bicicleta para a filha, agora órfã de mãe. Ela não precisa mais pensar como será a ceia de Natal, ou quem sabe o churrasquinho no almoço do dia 25 de dezembro.

    A pequena garota de 7 anos não receberá um caloroso abraço, beijos e mais beijos no rosto e um animado “Feliz Natal, minha filha! Mamãe te ama muito, que Deus te proteja sempre” no momento em que o relógio marcar meia-noite entre a véspera do dia 24 e a magia de mais um Natal que deveria chegar com mensagens de esperança, bondade e paz.

    Estampidos de seis tiros derradeiros talvez ecoarão para sempre na mente, na alma e na vida da filha e também nos familiares de Jessica Daiane, que não pode mais falar, não pode dar carinho e nem pode sequer denunciar o tamanho da injustiça que sofreu. Mais uma voz feminina calada, para sempre. 

    Infeliz Natal no Jardim Madrid, em Maringá: apenas mais um bairro ou uma cidade que sofrem com a violência masculina contra mulheres. Poderia ser em qualquer lugar. Aliás, sempre acontece, em todos os lugares do País, as mulheres são silenciadas porque um homem se achou no direito de tirar a vida delas.

    Ele prometeu em áudios do WhatsApp: iria onde for em busca de um objetivo cruel e imperdoável: tirar a vida de uma mulher que um dia, pasmem, talvez fez o algoz muito feliz, com carinho, atenção e amor.

    A violência doméstica, o feminicídio e a infeliz sensação de pavor e medo pelo simples fato de ser mulher no Brasil são dos problemas mais graves de uma sociedade doente, composta por homens impunes, audaces e extremamente perigosos. A mulher perdeu um dos direitos fundamentais mais sagrados, que é poder ir e vir. 

    Pior: a mulher não pode ir e vir, sequer ficar. Pois é dentro de casa que mora o perigo. Onde isso vai parar? Existe uma clara epidemia de assassinatos e agressões contra mulheres brasileiras, mas ninguém parece fazer nada, parece não ser urgente pensar, discutir e criar resoluções para frear de vez tamanha covardia que arrebenta com as famílias e traumatiza gerações após gerações.

    Em mais um infeliz Natal, agradeça simplesmente por estar vivo. Comendo peru, frango ou marmita no dia 25 de dezembro, agradeça pelo ato de se alimentar. Se estiver reunido com familiares ou amigos, agradeça por mais uma celebração. Se as condições existenciais da vida levaram a um Natal solitário, apenas com sua televisão no mudo irradiando cores e um colchão de solteiro para repousar após uma champanhe, também agradeça pelo simples fato de estar vivo e de saber que o sol, amanhã, lhe trará novas chances para renascer. 

    A Jessica Daiane bem que poderia ser Jesus para prestigiar a ressurreição e quem sabe correr, correr e correr milhares de quilômetros bem longe do covarde Gerson Rafael Geidelis. Mas ela não é. Portanto, a dureza do silêncio será pesado para a família da mais nova vítima de feminicídio em Maringá. O silêncio será cruel, jamais ouvirão a voz dela, e como é triste isso para uma filha de 7 anos, como é triste.

    Será que vai ter ceia de Natal dentro da cadeia para mais um assassino que matou premeditadamente por saber que a justiça aparentemente o beneficia? Não sei o cardápio da penitenciária, mas é bastante injusto o fato de ele poder comer, tomar banho, pensar, respirar e poder saber que chegou o 25 de dezembro, enquanto Jessica não poderá. Infeliz Natal.

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