Conversas sobre a morte da mãe

Os filhos adultos não querem dar trabalho para mães que colecionam aqueles bons anos de vida, décadas de existência. Mas é que a vida é como no videogame: as fases vão ficando cada vez mais difíceis de superar. Então, como num bom conto de fadas, a gente seleciona apenas as boas notícias.

  • Por Wilame Prado
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    Há um momento em que é necessário falar sobre aquilo que não queremos ouvir: a morte da mãe. Seria bem melhor o silêncio. A idade dela avança e as preocupações sucessórias começam a despertar questões até então distantes daquele simples café preto compartilhado na mesa da cozinha, o filho, ela e aquele prazer em servi-lo. Tarde quente, moscas à espreita e o silêncio esmagador daquele céu azul da minúscula cidade paranaense.

    A mãe começa a associar hipertensão, artrose e queda repentina da vitamina D ao dia derradeiro, nunca antes sequer comentado. Mães morrem mesmo? Pergunto-me. Logo elas que são parecidas com rocha, que não perdem tempo em chorar porque estão ocupadas demais em secar as lágrimas dos filhos, tão perdidos, tão dependentes daquela fortaleza materna. Aposentadoria merecida, mas que permite pensar demais. E então ela se dá conta das questões existenciais, inevitáveis.

    Evito emprestar Camus naquele momento para a mãe, que busca agora alternativas para além da Netflix: fico feliz com a vontade repentina de reler García Márquez, e talvez eu nunca tenha contado que o nosso Gabriel é uma homenagem ao escritor que abriu tantas gavetas imaginárias em nossas mentes. A Macondo que nos faz sonhar em realidades mágicas, e milagres do cotidiano. É possível, Gabo, uma fantástica história do filho que nunca perde uma mãe, sem necessariamente precisar morrer antes dela?

    Afasto as moscas, termino o café preto e penso no egoísmo natural de todos os filhos. Um dia, a nossa mãe também perdeu a mãe dela. Lembro bem da avó que, anos atrás, sentava naquela mesma cozinha para repetir histórias que a gente ouvia várias vezes porque isso fazia bem para ela. A mãe às vezes repete algumas histórias e parece diminuir de tamanho com o passar dos anos. Vai ficando meio cacunda, igualzinha às tias e à sua mãe. E uma simples caminhada matutina já apresenta seus perigos: dia desses torceu o tornozelo e só foi descobrir a fratura no osso semanas após o incidente. 

    Os filhos adultos não querem dar trabalho para mães que colecionam aqueles bons anos de vida, décadas de existência. Mas é que a vida é como no videogame: as fases vão ficando cada vez mais difíceis de superar. Então, como num bom conto de fadas, a gente seleciona apenas as boas notícias. O emprego novo, uma conquista material que pode até ser estúpida, mas que para a mãe é sinônimo de prosperidade. Uma nova tentativa de fazer alguma atividade física. Evitar salame e miojo. 

    Conversas sobre a morte da mãe. Esse momento sempre chegará, mas pode ser algo estúpido porque a gente acaba sendo muito corajoso para certas coisas. Rodovia, trânsito, aventuras e um desenfreado estresse misturado com depressão e ansiedade. Somos uma bomba-relógio. A morte sempre estará à espreita de todos, e tem tanta gente jovem morrendo. Talvez devemos também falar sobre a morte dos filhos, afinal. 

    Os velórios se tornam frequentes. A lista de falecimentos já normalizou o passamento dos 60+. E a mãe começa a se ver ali, começa a pensar coisas que nunca havia pensado. Mas ela é rocha, sempre soube. Os netos têm dado mais orgulho que os próprios filhos, penso eu. Conversar faz bem, inclusive sobre a morte. E que sigamos apenas nas conjecturas.

    Uma mosca pousa no braço da mãe, e ela demora mais do que o normal para espantá-la dali. E reclama do calor que tem feito, cada vez mais insuportável.

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