Maternidade ‘solo’ vive o desafio de vencer tabus e criar os filhos com dignidade

Rotina de mães solteiras exige disciplina e organização para dar conta de um tempo, aparentemente, insuficiente.

  • Tempo estimado de leitura: 4 minutos

    Por Rafaela Coleone – Especial para o Maringá Post

    Ainda está escuro, quando Geovana, 29 anos, começa mais um dia. Antes mesmo de o filho mais novo acordar, ela já organizou parte da rotina. Mochila separada e tarefas antecipadas para tentar dar conta de um tempo que, aparentemente, é insuficiente.

    Mãe de dois filhos, ela vive uma maternidade dividida. O menino mais velho, cresce em outra cidade. O caçula depende, exclusivamente, dela.

    Geovana conta que o primogênito mora com o pai, após o fim do relacionamento. A decisão, explica, foi tomada pensando no bem-estar da criança.

    “Embora tenha sido difícil, foi necessário. A presença do pai é fundamental para o filho, especialmente homem. Não sinto culpa, porque sei que ele tem um ótimo pai. A saudade aperta todo dia, não tem um momento específico, mas como sei que ele está bem, está feliz, está sendo bem criado, bem tratado e educado, isso ressignifica a saudade e conforta o coração e a alma”, ressalta.

    Já o filho mais novo, de três anos, é criado apenas por ela, sem participação ativa do genitor. A rotina exige esforço contínuo, organização e resistência emocional.

    Ausência e sobrecarga

    Geovana administra todas as demandas do filho mais novo. Do cuidado diário com o pequeno à responsabilidade financeira.

    A ausência de um dos pais não representa apenas um vazio afetivo, mas uma sobrecarga prática. São tarefas acumuladas, preocupações constantes e pouco espaço para o descanso. Ainda assim, ela segue adaptando a rotina e encontrando formas de dar conta das exigências do dia a dia.

    Retrato de um País em transformação

    A história de Geovana reflete uma transformação maior no perfil das famílias brasileiras. Dados recentes do Censo Demográfico, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, em 2022, os casais com filhos deixaram de ser maioria no País. Hoje, representam 42% das famílias; uma queda significativa em relação aos 56,4%, registrados nos anos 2000.

    Ao mesmo tempo, outros formatos familiares cresceram. O número de lares com mulheres sem cônjuge e com filhos passou de 11,6% para 13,5%, o equivalente a 7,8 milhões de famílias. Já os homens em condição semelhante também aumentaram, mas ainda representam apenas 2%.

    Acúmulo de responsabilidade

    Outro dado que chama atenção é o avanço das mulheres como principais responsáveis pelos lares. Em pouco mais de duas décadas, o porcentual quase dobrou. Saltou de 22,2% para 48,8%.
    Na prática, isso significa que quase metade das famílias brasileiras hoje depende majoritariamente da renda e da organização de uma mulher. Para especialistas, essa mudança revela não apenas novas configurações familiares, mas um acúmulo de responsabilidades, especialmente para mães solo, que concentram funções de cuidado, sustento e gestão da casa.

    Julgamento social

    Apesar de mais comuns, as mães “solo” ainda enfrentam julgamentos e expectativas sociais. A cobrança para dar conta de tudo, muitas vezes, ocorre sem que existam condições reais para isso.
    “Existe um certo julgamento para mães como eu, solteiras, filhos de pais diferentes, mas nada que eu não possa lidar. Acredito, também, que muitas mulheres que vieram antes nessa mesma condição sofreram críticas e julgamentos muito mais duros e que, com o passar do tempo, foi se tornando mais comum e deixando de ser um tabu”, comenta Geovana.

    Comentários estão fechados.