Maringá: 1º de abril atrasado na Morangueira

Prefeito de Maringá: “Nossa gestão já começou a resolver, definitivamente, os pontos de alagamento da cidade. Na Avenida Morangueira, que era o pior e mais antigo desses locais, as obras continuam, mas o resultado ficou comprovado com a chuva de hoje.” SQN.

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    Por Clóvis Augusto Melo

    Em meados de fevereiro, Silvio Barros postou nas redes sobre as obras da prefeitura para acabar com os alagamentos na Avenida Morangueira.

    Disse o prefeito: “Nossa gestão já começou a resolver, definitivamente, os pontos de alagamento da cidade. Na Avenida Morangueira, que era o pior e mais antigo desses locais, as obras continuam, mas o resultado ficou comprovado com a chuva de hoje.”

    Moiô

    A “chuva de hoje” (18 de fevereiro) daquele dia foi amiga, a obra conseguiu conter. Mas a chuva de ontem (2 de abril), conforme registrado no vídeo publicado pelo repórter André Almenara, fez retornar o pesadelo das inundações e demoliu como um tsunami os conceitos de “definitivamente” e “comprovado”.

    Vídeo: Redes Sociais / André Almenara

    Ops…

    Na foto que ilustra essa coluna, uma nova postagem da página pessoal de Silvio, fazendo um @tbt com a obra, há duas semanas. O título? Zero alagamento. E a frase de efeito, qual foi? “A intervenção, integralmente realizada pela Prefeitura, está na segunda fase. E a realidade já é outra: zero alagamentos”.   E uma outra postagem, brincando com o dia da mentira e falando, novamente, da obra que “acabou” com o acúmulo de água.

    Eis que, um dia depois de 1º de abril, parece que a anedota se estendeu mais 24 horas.

    Calma, fi…

    Qual a lição disso? Para “gatos escaldados” do como-fazer-política-nas-redes, a pressa em afirmar que um problema está resolvido é engolida (ou lavada) pela realidade dos fatos.

    E eis que a atual administração municipal enfrenta a tal “primazia da realidade”, muito utilizada no direito do trabalho, mas que pode ser aplicada aqui com tranquilidade. Ela trata sobre a discordância entre o que está no papel (ou nas redes) em relação ao que acontece na prática no mundo real.

    Eu avisei!

    Escrevi sobre isso há algum tempo, quando falei dos desafios da 3ª gestão de Silvio à frente da prefeitura de Maringá. Lá se vão 12 anos da última vez que Silvio foi prefeito. O mundo mudou muito desde então, as redes sociais nem se fale. É preciso cuidado com as postagens cheias de ufanismo paroquial sobre problemas que, pela própria maneira de ser das coisas, não estão definitivamente resolvidos.

    Quem acreditou ficou com a leve (porém, incômoda) sensação de ter sido enganado.

    Escolhas, escolhas…

    Tivesse a postagem um outro discurso – algo como “olha pessoal, iniciamos as obras, vai levar um tempo, mas estamos começando a resolver” – sem problema. Mas o tal do “Zero alagamento” não resistiu a uma chuva mais forte. E encharcou a credibilidade do alcaide, que já não anda muito bem depois de viagem à Europa, conceitos equivocados sobre os investimentos da Maringá Previdência, o silêncio gritante sobre as duas novas UPAs prometidas na campanha e o tal data center que sumiu das falas da administração.

    Motivação

    O que leva um gestor a cometer esse erro tão primário? Uma das hipóteses é que, pressionado já nos primeiros momentos de administração, a tentativa de trazer boas notícias e lustrar a imagem perante o eleitorado (agora, população atendida), desviando o foco das cobranças, vira um desespero de marketing com consequências óbvias.

    Barranco abaixo

    É nessas e outras que a lua de mel com a população vai findando e as críticas se tornam mais frequentes e pesadas. Não basta comunicar, é preciso comunicar bem e com honestidade.

    Matagal

    Querem outro exemplo? Após três meses de administração e 5 meses da transição, após espalhar pelas redes e imprensa os notáveis esforços para agilizar e ampliar as roçadas, agora a administração pretende fazer uma contratação emergencial para tentar dar fim no abundante e resiliente mato que cobre toda a cidade.

    RPN

    Isso traz de volta a eterna pergunta: para que a transição serviu? Tem-se a impressão que todo aquele tempo despendido em conversas e solicitações de dados e documentos não foi nada mais que RPN (reunião de porcaria nenhuma). Pois, não houve um comunicado sequer relativo às coisas da administração até 1º de janeiro. E depois disso, um equívoco comunicacional após o outro.

    Tirando da reta

    Assumida a gestão, a cada problema se segue uma reação de surpresa e a consequente culpabilização da gestão anterior.

    Na verdade, a única transição que tenho visto é a transferência da culpa para a administração passada. Mas mesmo essa estratégia tem data de validade – no caso do matagal, já venceu há, pelo menos, dois meses.

    Geração espontânea

    Também é preciso ter coerência. Depois de várias afirmações alertando que a prefeitura não tem recursos (o que não é verdade), que é preciso contingenciar despesas, fazer menos viagens (eita!), surge uma dispensa de licitação para roçada, ainda sem valores definidos.

    De onde saiu o dinheiro? Criou-se na cidade junto com o mato? Alguma secretaria teve recursos retirados para suplementação na Selurb e Seinfra? Projetos nessas secretarias foram suspensos? Ou tem dinheiro e o que houve foi um equívoco contábil? Questões, questões…

    Bola de cristal

    E são apenas 90 dias de administração. O que mais ainda está por vir?

    OPINIÃO – Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Maringá Post.

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