Depois de décadas de abandono, Painel do Café, símbolo de uma época, será tratado como arte

Américo Dias, que chegou pobre a Maringá e se tornou rico em poucos anos, quis retratar a importância da cafeicultura no surgimento das cidades do norte do Paraná

4 de agosto de 2021
entregar o Painel do Café
Obra de Waldemar Moral, o Painel do Café na época em que estava numa loja de artigos para casa

Uma das mais importantes obras de arte de Maringá, o Painel do Café, de Waldemar Moral, está sendo instalada no mezanino do Teatro Calil Haddad, onde já se encontra um mural elaborado por Poty Lazzarotto. Tombado pelo Patrimônio Histórico há 10 anos, o painel pintado há cerca de 70 anos, retrata o momento em que a economia de Maringá e região era impulsionada pela cafeicultura, que encontrou na terra roxa o solo ideal para fazer do Brasil o maior produtor de café do mundo e o norte do Paraná era onde mais se produzia café no Brasil.

O painel se reveste de importância histórica por vários motivos. Um deles é por ter sido pintado pelo artista plástico e arquiteto Waldemar Moral, que se consagrou nas décadas de 1950 e 1960 como artista especializado em fixar em telas e murais momentos que ficariam na história; segundo por retratar um momento importante da história de Maringá; e por ter sido encomendado por Américo Dias Ferraz, um homem que chegou à nascente Maringá ‘sem nada nas mãos e nos bolsos’, como dizia, e ficou rico justamente no negócio do café.
Depois de rico, o comprador de café, que tinha uma grande máquina de benefíciamento de café no Maringá Velho, montou o maior e mais requintado bar de Maringá da década de 1950, quando o Maringá Novo ganhava os contornos de cidade desenvolvimentista. O Bar Colúmbia, na Avenida Ipiranga, ponto mais central da nova cidade, fez história, era ponto de encontro dos fazendeiros, dos comerciantes e local dos grandes almoços de domingo das famílias.

Américo encomendou pessoalmente ao artista Waldemar Moral que fizesse um painel retratando a cafeicultura daquele momento. O mural de azulejos, medindo 2,4 metros de altura por 7,95 metros de largura, composto por 848 azulejos, foi instalado na parede ao fundo do Bar Colúmbia, visão obrigatória para quem entrasse ou estivesse sentado em qualquer ponto do estabelecimento. Podia ser visto da rua, principalmente por causa da iluminação especial ao seu redor.

No final da década de 1950, Américo Dias, que foi eleito prefeito de Maringá em 1956, começou seu período de derrocada: foi mal como político, seus negócios foram à bancarrota, o Colúmbia acabou e ele, Américo, deixou a cidade, não tão pobre quanto quando chegou, mas bem menos rico do que tinha sido pouco antes. Até a Avenida Ipiranga mudou de nome, passou a ser chamada de Getúlio Vargas, em homenagem ao presidente da República que morreu em 1954.

O prédio que foi o Bar Colúmbia foi de tudo nos anos seguintes. Na década de 1980 lá se instalou o Restaurante Pingo de Ouro, que antes fora a Lanchonete Pingo de Ouro, no Centro Comercial, e mais antes ainda a Frutaria Maringá, que, por ironia, funcionava na Estação Rodoviária Américo Dias Ferraz. Os irmãos Norio e Maria, que herdaram o negócio do pai e tocaram um dos melhores restaurantes de Maringá na época e sempre protegeram o painel.

Painel do Café
O painel em algum momento em que o prédio foi restaurante, possivelmente na época do Pingo de Ouro     Foto do arquivo Maringá Histórica

Depois que o Pingo de Ouro acabou, o prédio foi ocupado por vários negócios, geralmente lojas de tecidos ou de artigos para o lar. Aí, sim, o painel de Waldemar Moral viveu seu período de abandono total, geralmente com sua visão encoberta por armários, cortinas, baldes, vassouras…

Por volta de 2008 e 2009, o jornalista Fábio Massali, da Editoria de Cultura do jornal O Diário do Norte do Paraná, fez um trabalho de localização dos painéis e murais existentes em Maringá e de alguma forma esquecidos ou abandonados. E foi feita uma crítica pelo fato de o Painel do Café, que a cidade tinha esquecido que existiu um dia, estar abandonado e tendia a desaparecer porque os donos do imóvel pretendiam fazer uma reforna no prédio.

Com o assunto levantado e toda a imprensa cobrando a proteção da memória da cidade, o painel foi tombado pelo Patrimônio Histórico e depois retirado e guardado.

Agora, depois de passar por um processo de restauração, finalmente terá um lugar todo seu, um lugar onde devem ficar obras tombadas pelo Patrimônio Histórico, um lugar em que arte é respeitada como tal, o Teatro Calil Haddad.

“Trata-se de uma obra icônica que faz parte de nossa história. Devolver o painel do Café à população é um grande orgulho para nossa administração”, comenta o prefeito Ulisses Maia (PSD). O secretário de Cultura, Victor Simião, frisa que o painel é um dos símbolos da cidade. “A gestão municipal tem compromisso com o passado, compreendendo o presente e apontando para o futuro”.