“Até dia cinco de novembro eu estava como menino ainda”, relata Gabriela Martins

Gabriela Martins, de 26 anos, é recepcionista em um shopping de Maringá, mas só está assim após um longo processo de sexualidade que resultou na transição de gênero. Hoje ela ressalta: “Nunca é tarde para sermos nós mesmas!”

Desde os seis anos, Martins, acreditava ser diferente dos outros meninos com que convivia. Mas ela explica que não poderia colocar isso para fora.

“No meu pensamento, por conta da religião, por conta das pessoas, por conta da minha família, por conta dos amigos. Eu tinha medo de decepcioná-los, desapontá-los”.

Com esse sentimento, a jovem relata que manteve padrões heteronormativos, expressão utilizada para descrever uma suposta norma social relacionada ao comportamento padronizado heterossexual, por boa parte da vida.

“Eu preferi continuar seguindo a minha vida dentro da igreja, tentado construir uma família hétero, com outra mulher. Tive a minha primeira namoradinha com 15 anos, depois eu namorei outra menina, e noivei com outra menina.”

Martins complementa a história. “Eu não queria entender, não queria até me aceitar, porque pra mim eu não podia, jamais! Jamais eu poderia me identificar ou como menino gay ou como menina trans, até porque eu não tinha o conhecimento disso”.

Foi com 22 anos, quando chegou ao ponto de pensar em tirar a própria vida devido aos conflitos internos e externos que vivia, Martins procurou se entender e se identificar com ajuda de terapia, documentários e canais de meninas trans no Youtube, pois apresentava disforia de gênero, desconforto causado pela discordância entre a identidade de gênero e o sexo biológico, ao ver o próprio corpo e as roupas que usava.

Há dois anos, começaram os preparativos para a transição e para arcar com os custos da mamoplastia, cirurgia estética nos seios, e colocação de mega hair. Martins arrumou dois empregos em lugares distintos e cumpriu com horários além do determinado.

Em agosto de 2020, também deu o inicio ao processo de partilha sobre a transição com familiares, amigos e em um dos empregos que permaneceu.

“Faz um ano e um mês que estou lá. Eu cheguei na minha coordenadora, há exatamente uns cinco meses e contei para ela sobre a minha transição, que eu estava nessa transição. Foi incrível a nossa conversa […]e ela [coordenadora] falou: “eu estou com você, a gente vai lutar juntas e você pode lutar comigo”, e ela levou para os superiores dela.”

Gabriela Martins conta que, por ser o primeiro caso de mulher transexual na empresa em que trabalha, o processo de aprendizado vai além dela, e acomete todos os funcionários da empresa que atua na administração de 31 shopping centers do Brasil.

“A administração preparou todos os setores doa shoppings, falou sobre diversidade, e falou que teríamos ali um caso de transgênero”, lembra Gabriela. A jovem complementa que foi muito melhor do que esperava. “Foi muito positivo a aceitação, o respeito, principalmente, das pessoas dentro da administração e de todos os setores do shopping.”

Um ponto negativo, no entanto, é que Gabriela acabou perdendo o contato com a família ao contar sobre a transição em agosto deste ano. Ela explica que é um processo, que respeita este momento de “luto” e que sente falta do apoio da família.

No inicio de mês de novembro, Martins realizou a cirurgia de implante de silicone, “até dia cinco de novembro eu estava como menino ainda. Fui para São Paulo, fiz minha cirurgia, e voltei dia 13 de São Paulo como Gabriela”.

A jovem transexual que retornou ao trabalho na terça-feira (24/11), sonha em cursar direito, se tornar juíza, e acredita que Maringá precisa de mudanças em relação aos conceitos, principalmente, à associação que é feita entre os transgêneros e a prostituição.

“A sociedade julga, a sociedade, quando você fala em travesti, em transgênero, elas assimilam como garota de programa, prostitutas, mulheres da vida. Então, infelizmente, ainda tem muita coisa a ser mudada, principalmente, aqui em Maringá. A gente precisa de respeito, só isso!”

Durante as eleições, Jéssica Magno, uma mulher transexual, candidata à vereadora, precisou registrar queixa na polícia devido às ameaças e ataques recebido nas redes sociais.

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