Ele é sapateiro há 50 anos no centro de Maringá. Conheça a história do amante da música, Rebite

Por: - 21 de março de 2019
O dia a dia em meio aos sapatos / Rafael Silva

O endereço é Rua Joubert de Carvalho, 934. Para algumas pessoas, lá é possível encontrar apenas uma sapataria e arrumar o sapato gasto pelo tempo. Os mais jovens dizem: “O que é uma sapataria mesmo?”. Mas ali mora um pouco da história da cidade. Atrás do balcão está um maringaense e típico brasileiro amante da música, do futebol e da caipirinha, porque como ele diz: “ninguém é de ferro”.

A Rua Joubert de Carvalho, que abriga alguns comércios peculiares e prédios antigos, é o endereço de Wanderley Guilherme da Silva há 50 anos. Ele acompanhou o crescimento da cidade e as mudanças políticas e sociais enquanto arruma bolsas, sapatos e outros itens. No entanto, o nome Wanderley Guilherme da Silva só é usado quando aparece alguma bronca. Todos o conhecem por Rebite.

Nascido e criado em Maringá, ele conta que o apelido Rebite veio muito antes da sapataria. O pai dele, conhecido popularmente como parafuso, decidiu que se nascesse uma filha mulher ela seria apelidada de arruela. No entanto, ele nasceu primeiro e o apelido de Rebite pegou. A única mulher, entre os 11 irmãos, veio depois, mas o apelido não caiu tão bem assim.

O sapateiro e também cantor, de 66 anos, chegou na Joubert de Carvalho ainda menino, aos 16 anos. Pode parecer ironia do destino, mas o que levou Rebite para a rua batizada com o nome do médico e compositor da canção “Maringá” foi o amor pela música. Para ficar mais próximo de um amigo que era músico, ele começou a ir até a sapataria em que o amigo era proprietário.

Com sorriso fácil, Rebite melhora o atração do dia dos clientes / Rafael Silva

Aos poucos ele foi cuidando do estabelecimento, começou a trabalhar no local e até que em 1981 decidiu abrir a própria sapataria na mesma rua, fazendo concorrência ao amigo. Rebite se considera um “pardal urbano”, ele diz não não deixa o centro por nada. Por isso, também decidiu morar na mesma rua da sapataria, a menos de meia quadra do estabelecimento.

A sapataria só abre para o público às 8h, mas bem antes disso Rebite já está lá terminando algum trabalho ou como ele prefere dizer, “preparando a sala para as visitas”. É assim que ele entende a relação com os clientes e considera todos amigos. Até porque, com 50 anos de trabalho, boa parte da clientela é filho ou neto de antigos clientes. “O dia deles sendo bom, o meu também vai ser”, diz.

Rebite garante que sapateiro não é uma profissão em extinção e que, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o trabalho aumentou e os itens consertados também mudaram com o tempo. “A gente conserta muita bolsa. Essas bolsas sintéticas a gente troca o zíper e faz um monte de serviço. Em proporção, concertamos hoje mais bolsas do que sapato”.

Rebite e as aventuras na música

Na batida dos consertos e da música, Rebite não perde a alegria / Rafael Silva

Apesar da sapataria, a música não saiu da vida de Rebite. Ele se aventurou como vocalista por algumas bandas e grupos musicais e, atualmente, na companhia de um amigo tecladista, ele diverte e se diverte em qualquer tipo de ocasião. “Eu canto em festa de casamento, batizado e até em divórcio, porque com certeza alguém vai sair feliz”.

Durante o dia a dia na sapataria, ele não deixa o rádio ficar desligado.”Tem que ter música para o ambiente ficar mais alegre”, afirma. Rebite gosta de samba, música romântica e outros estilos, mas como a música é responsável por tocar emoções, os estilos no rádio da sapataria variam conforme o sentimento do sapateiro naquele dia.

Algumas vezes o sobrinho, que auxilia Rebite na sapataria e, assim como ele começou a trabalhar na área ainda criança, coloca sertanejo universitário. Rebite, mesmo contrariado, escuta a música, mas nada que abale a relação dos dois.

A verdade é que ninguém separa Rebite do palco e nem da riqueza das amizades construídas em um dia comum na sapataria.

“Eu quero um dia morrer no palco. E a sapataria, ah o balcão ensina muita coisa para a gente. Se o cara chega e fala: ‘bom dia só se for o seu, porque o meu não é’ e eu falo: ‘pois a partir de agora vai ser’, ele já abre um sorriso e o dia melhora”.

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