Denúncia de suposto assédio em ônibus de Maringá na rede social tem reação enérgica do prefeito. Caso não teve B.O.

14 de fevereiro de 2019
Caso envolvendo motorista de ônibus ganhou repercussão nas redes sociais / TCCC

A denúncia de suposto assédio em ônibus do transporte coletivo em Maringá feita por meio do Twitter na terça-feira (12/2) chegou até o prefeito Ulisses Maia (PDT). Ativo na rede social, o prefeito foi cobrado pelos internautas e respondeu que poderia fazer algo para resolver a situação. “Podemos inclusive mandar ele para a cadeia”, tuitou energicamente.

Reprodução dos depoimentos feitos no Twitter

Para o Maringá Post, o prefeito Ulisses Maia disse que acionou a gerente do transporte coletivo da Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) para que o caso fosse comunicado à empresa. Na visão dele, as redes sociais tiveram papel importante para que a denúncia fosse feita.

“Muitos assuntos chegam até mim pela rede social e esse caso em especial é gravíssimo. Não fosse pela rede social, talvez ela não teria como denunciar o caso e fazer a denúncia chegar até a mim”, afirmou.

Porém, a Delegacia da Mulher de Maringá não registrou o Boletim de Ocorrência (B.O) do caso. Segundo a delegada Magda Hofstaetter, a passageira afirmou na delegacia que não houve nenhum tipo de toque ou ato libidinoso. De acordo com Magda, o B.O não pode ser registrado porque “não houve crime”.

A passageira, que pediu para não ser identificada, contou que o caso ocorreu na segunda-feira (11/2), por volta das 19h, na linha 324 (Conjunto Thais – Porto Seguro). Ela queria ir até o terminal, mas pegou o ônibus no sentido bairro. Quando entrou no veículo, sentou no banco atrás do motorista e o passageiro que estava ao lado disse que o ônibus voltaria ao terminal.

Quando chegou no ponto final, o motorista informou que aquela era a última volta do ônibus e que o veículo seria levado até a garagem. A passageira desceu e foi caminhando para outro ponto, na tentativa de esperar outro ônibus.

No caminho, o motorista passou e ofereceu carona até a garagem. Ela aceitou e dentro do ônibus, ele teria dito que morava perto do bairro onde vive a passageira e que poderia dar uma carona no carro dele após deixar o ônibus na garagem.

Antes de chegar no destino final do ônibus, a passageira contou que o motorista pediu para que ela descesse em um posto de combustível, na Avenida Morangueira, até ele guardar o veículo, já que não poderia ser visto com ela dentro do ônibus.

“Ele insistiu em me levar para casa. Eu falei para ele que ia pedir um Uber, mas ele falou: “espera eu pegar meu carro”. Acho que ele me disse isso umas três vezes”, contou.

No posto de gasolina, a passageira disse que pediu para o frentista pedir um carro do aplicativo, já que o celular dela estava sem bateria. Ela contou que em nenhum momento o motorista tentou agarrá-la ou disse algo, mas que percebeu olhares diferentes por parte dele.

No dia seguinte, ela decidiu procurar ajuda e foi até a Secretaria da Mulher. Lá, ela foi orientada a registrar Boletim de Ocorrência. “Na Secretaria da Mulher eles me deram a maior força, só que na Delegacia da Mulher eles não me deram muita atenção. Depois que eu contei o que aconteceu, veio uma mulher que estava no escritório atrás e disse que não teria como registrar B.O. por uma suposição minha”.

Delegada cobra consciência nas redes sociais

Para a delegada da Delegacia da Mulher, Magda Hofstaetter, não houve crime para que se pudesse registrar o B.O. Ela também disse que a passageira não estava em situação de perigo. “Pelo o que ela falou para nós, o motorista é quem quis evitar que ela estivesse em uma situação de perigo”, afirmou.

Magda disse que pelos relatos da passageira, ficou confirmado que o motorista não praticou nenhum ato libidinoso, tocou ou falou algo que pudesse ser considerado crime.

A delegacia orientou para que a passageira informasse o caso para a empresa responsável pelo transporte coletivo. “Aqui a gente tem fatos mais graves para apurar do que registrar o que poderia ter ocorrido”.

A delegada também declarou estar surpresa com proporção que o fato está tomando nas redes sociais. Segundo ela, é preciso ter consciência das postagens que são feitas no ambiente virtual. “É muito fácil passar pelas redes sociais criticando as autoridades, mas tem que alertar essas pessoas que Facebook não é brincadeira e que dependo do que for feito pode ter consequências graves”.

Coordenadora do Cram diz que B.O deveria ter sido registrado

A Coordenadora do Centro de Referência à Mulher (Cram) Maria Mariá, Renata Muraro, confirmou que atendeu a passageira e pediu para que ela procurasse a Delegacia da Mulher. Ao ser informada que o boletim não foi registrado, Renata disse estar chocada.

“Foi uma situação de risco que ela correu e o boletim de ocorrência é um instrumento a favor da vítima, independente de ter acontecido [o fato] ou não”.

Na visão de Renata, o fato do motorista oferecer uma carona com o próprio carro não pode ser tratado como algo normal da atividade profissional. “Acho que é um desvio de conduta profissional. Enquanto motorista, ele deveria fazer a rota dele e deixar ela em uma posição tranquila”, afirmou.

A Secretaria da Mulher realiza uma campanha de conscientização sobre assédio sexual nos ônibus. Chamada de “Busão sem Abuso”, a campanha visa a encorajar as mulheres que utilizam o transporte público coletivo a denunciar qualquer ato abusivo ocorrido no ônibus. Porém, como mostrou reportagem do Maringá Post no ano passado, por insegurança, poucas pessoas denunciam.

A empresa Transporte Coletivo Cidade Canção (TCCC), que administra o transporte coletivo em Maringá, disse ter sido informada pela Sebom, lamentou o episódio e informou que trabalha para esclarecer os fatos. A empresa também informou que há onze ônibus que fazem a linha 324 no começo das noites e vai precisar de mais detalhes para conseguir identificar qual era o motorista.