Zé Leôncio de ‘Pantanal’, Marcos Palmeira investe em fazenda orgânica

Sentado ao lado do pai, Joventino fala sobre extremos climáticos, sustentabilidade e que chegou a hora de levar para a fazenda o sistema de produção em agroflorestas. Zé Leôncio responde que isso é um enrosco maior do que um Leôncio pode lidar. “E dois Leôncios?”, brinca o filho.

Além de diálogos como esse, a novela Pantanal usou imagens reais de incêndios no bioma. Os 32 anos que separam a versão original, na TV Manchete, e o remake, na Globo, revelam o avanço do debate ambiental no Brasil.

“A diferença é perceptível da primeira temporada para essa. Era uma época de cheias. Agora está numa época de mais de dois anos de seca constante, com queimadas violentas todos os anos. É muito clara a presença do homem e a sua interferência empobrecendo o bioma”, disse ao Estadão o ator Marcos Palmeira. Na produção original, de 1990, ele era Tadeu, filho de Zé Leôncio, agora é o próprio protagonista. Dez anos antes da primeira exibição da novela, Palmeira já havia passado dois meses na aldeia Xavante de São Pedro (MT), onde recebeu o de Tsiwari, ou “o Filho Valente”.

Dois anos depois, se aventurou por 30 dias entre os Arara, no Pará, ao lado do fotógrafo Luís Carlos Saldanha, que fazia um documentário. Na viagem, se descobriu ator. A experiência, conta Palmeira trouxe “o entendimento da importância que as comunidades indígenas têm no Brasil como um todo, e que valorizamos pouco”.

Vinte e cinco anos depois, Palmeira retornou a Mato Grosso para o documentário Expedição A’Uwe – A volta de Tsiwari. Àquela altura, em 2004, já era também agricultor, dono de uma fazenda de 200 hectares em Teresópolis, Região Serrana do Rio. Comprada em meados dos anos 1990, a propriedade é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e também produtora orgânica certificada de queijo, iogurte, laticínios, mel, chocolate, café e hortaliças. Tudo com uma marca que leva seu sobrenome e seu rosto.

PRODUTOR

“Como produtor rural, quando fui trabalhar com a agricultura orgânica, entendi o que significa a palavra sustentabilidade, agrofloresta, biodinâmica, permacultura”, conta Palmeira, hoje com 58 anos. “Foi aí que entendi esse maravilhoso mundo dos orgânicos, da minha experiência com a fazenda, de uma situação muito simples, quando descobri que um funcionário não comia aquilo que ele estava plantando. Aí as fichas todas caíram e entendi o que era aquele agrotóxico.”

Na semana em que as cenas de incêndios reais no Pantanal foram ao ar, os 29 pontos de audiência da novela equivalem a dizer que a mensagem atingiu mais de 20 milhões de pessoas, ou quase 10% da população brasileira. Fora o alcance na internet. Em tempos de streaming e mudanças nos hábitos de consumo de teledramaturgia, a produção repetiu o fenômeno de outras novelas que marcaram época ao influenciar a opinião pública e refletir sobre a realidade.

Desse processo, chamado de merchandising social, já lançaram mão autores como Manoel Carlos e Glória Perez. Na década de 1990, com depoimentos reais, Explode Coração, por exemplo, levou para a TV o drama das mães de filhos desaparecidos.

Pesquisadora de teledramaturgia e doutora em Comunicação, Adriana Coca reflete sobre o alcance e o poder dessas mensagens. “A telenovela é uma matriz cultural da América Latina, a TV dialoga com muita gente”, afirma. “Imagine o impulso que a questão das crianças desaparecidas teve depois da novela da Glória Perez.” Para o biólogo e diretor do Instituto SOS Pantanal, Gustavo Figueiroa, o merchandising social da novela tem resultados imediatos. Quanto a nascer daí uma mudança, ele é menos confiante. “Temos visto problemas em nível federal e estadual que afetam o Pantanal. Acredito em mudanças, mas não por enquanto”.

Estadão Conteúdo