Exilados do lar

Asilo São Vicente de Paulo
Idosos recebem atenção e respeito nos asilos. As instituições fazem o papel da família, embora não a substitua. O texto é de Valdemir Barbosa, acadêmico de jornalismo e escritor:
A população brasileira envelhece, mas como anda a relação sociedade e idoso, será que pessoas de mais idade têm sido tratadas de forma correta? Muitos deles vivem distantes do aconchego de um lar, em abrigos e asilos, às vezes, esquecidos pelos parentes. Nestas entidades de amparo à terceira idade, eles encontram apoio, atenção, afago e se sentem valorizados.
Em Maringá, o Asilo São Vicente de Paulo, localizado na Avenida Alziro Zarur, 976, Vila Vardelina, há 28 anos tem se dedicado ao bem estar da pessoa idosa.


A instituição foi fundada pelos Vicentinos, em 11 de fevereiro de 1984. “Na época tinham a intenção inicial de recolher pessoas da rua para abrigá-las, o que deu origem ao asilo”, explica Lucimara Moreno, coordenadora de projetos.
Atualmente com 86 internos, a instituição depende de doações da sociedade.
“O asilo tem uma transparência muito boa, da aposentadoria dos internos, 70% destina-se a manutenção da instituição e 30% fica com eles. O idoso, hoje, tem um custo de R$1.300,00, com medicação, alimentação, médicos e enfermeiros,” diz a coordenadora.
A moradora mais idosa é Estela Pereira, de 104 anos, carinhosamente chamada por todos de Estelinha, ela chegou ao asilo em setembro de 2000. E Manoel José é o que está há mais tempo, conta com 20 anos na instituição.
“O que os traz para um asilo, é a ausência da família ou a ausência deles em relação a ela. Existem fatos em que os familiares dizem que vão fazer um tratamento e os trazem para a instituição e os abandonam, alguns nunca mais retornam. Há casos de 30 anos que a família não mantém contato e apenas 10% por cento recebem visitas. Cada um tem uma história. O sentimento em relação aos familiares, é de saudade constante, como a carência e a falta de afetividade por parte dos parentes”, avalia Lucimara Moreno.
A velhice entre as famílias tradicionais italianas sempre foi respeitada. É o caso de muitos imigrantes italianos que nas colônias, fazendas e nos centros urbanos, conservam os mais velhos no seio familiar. Porém, a velhice quando chega para os nossos pais, muito antes dela vir, já estamos com os pensamentos e sentimentos mais velhos ainda. Porque a idéia arcaica que se desenvolve a respeito deles, não permite que se leve em consideração os longos anos de dedicação daqueles que trabalharam e viveram por nós.
Quando se é pai ou mãe, deixa-se, de certa forma, de viver para o “eu”, e passa-se a viver em função dos filhos.
Contudo, nem sempre os filhos viverão em função dos pais.
Alguns até preferem morar num asilo a ter de conviver com a idéia de que em casa representam um peso para a família, que estão sobrando. Embora amparados nos asilos do mundo, eles sentem a falta dos filhos, que durante anos nunca os visitaram.
Estes, pode-se dizer que são os exilados do lar. Neste exílio percebe-se que as instituições fazem o papel da família, embora não a substitua. E por outro lado, eles dispõem de companheiros na mesma faixa etária com os quais possam conversar e trocar experiências de vida, uma forma de amenizar a saudade e passar o tempo.
Muito embora recebam a visita de estranhos, estes mesmos estranhos são assíduos visitantes que se tornam seus filhos, quando se é relegado ao abandono, adota-se os de fora da família para serem filhos do coração.
Entretanto, há um outro ângulo a examinar: nem sempre os filhos podem lhes dar a devida atenção como merecem, principalmente, quando precisam trabalhar fora e o idoso tem problemas de saúde.
O que fazer nessas circunstâncias? Contratar alguém para assisti-lo em período integral ou interná-lo numa casa assistencial, onde possa receber os cuidados necessários? Mas isso não significa que o tenha abandonado. No primeiro caso é preciso que haja condições financeiras para as despesas com um ou mais Cuidadores de idosos, e essa possibilidade esbarra na realidade econômica da maioria dos lares brasileiros, sendo a segunda a mais acessível a esta realidade social.
É o caso típico de uma senhora que foi internada numa entidade de assistência à terceira idade, era somente ela e o filho, ele por sua vez, precisava trabalhar, não podia ficar em casa cuidando da mãe. Ela estava com a saúde fragilizada e como ele poderia pagar alguém para cuidar dela em período integral?
A solução foi hospedá-la num lar para pessoas idosas nem por isso a abandonara. Ele, o filho, visitava-a todos os fins de semana e via-se em suas atitudes todo carinho que tinha por ela.
No entanto, existem aqueles que exilam os idosos do ambiente familiar para que não incomodem mais, livram-se deles como quem dispensa um objeto sem mais utilidade. Eles se esquecem que os idosos quando tinham a idade deles, fizeram de tudo para que jamais lhes faltasse algo, para que não ficassem desamparados.
Paulo Dias
Paulo Dias, um dos moradores do asilo

Angelo Rigon


3 pitacos em “Exilados do lar

  1. Maria Celia Zanatta diz:

    O Asilo São Vicente de Paulo foi fundado e mantido por pessoas sérias, dedicadas e caridosas. O diferencial entre uma instituição e as ações desenvolvidas pelo estado é que naquela predomina a caridade, virtude do coração e não das mãos. A longevidade dos acolhidos é resultado do amor e da atenção que recebem. Quem ama cuida.Parabéns aos Vicentinos, coluntários e colaboradores.

  2. Parabéns, Valdemir, pela abordagem deste assunto. Sempre que posso passo algumas horas por lá, inclusive, existe lá um Senhor, que é Maestro e Profesor de Mísica e segundo ele seu irmão, tirou tudo que ele tinha, principalmente seu caminhão de trabalho, que terminara de pagar com dias e noites na estrada. Segundo ele , seu irmão é um político e já ocupou cargo importante em Maringá e mesmo assim, ele encontra-se lá. Interesante é seu piano, que com certeza é uma relíquia. Passe lá e tenha bons momentos com ele.

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