Religião e diálogo

Do professor Luiz Alexandre Solano Rossi:

A diversidade religiosa e o pluralismo religioso se apresentam no mundo contemporâneo como um dos instrumentos mais belos e eficazes para o diálogo e a construção da paz. A pluralidade dos discursos das mais diversas religiões nos leva a perceber a multiplicidade de riqueza simbólica que muitas vezes não damos a devida importância. A abertura ao plural talvez seja um passo essencial para vencermos tantos séculos de dogmatismos e arrogâncias dos discursos pretensamente religiosos, mas que se apresentam como arautos de uma inquisição, ainda que sem fogueiras.
Sempre que negamos a pluralidade do olhar corremos o sério risco de cair num processo de colonização daquele que é diferente. Nesse sentido, a partir do momento que absolutizamos nossos espaços de verdade, simultaneamente, transformamos as demais formas de se expressar e viver a fé como errôneas. Fugir dessa síndrome é essencial.

Um possível caminho de superação dessa famigerada síndrome nos levaria aos seguintes pontos: 1) o caminho da prática do olhar e da escuta da alteridade. Levinas já dizia que o princípio da ética da alteridade é o respeito pelo diferente. Dessa forma, posso dizer que compreender o outro é uma arte que exige despojamento e sensibilidade hermenêutica. A maioria das vezes temos medo das diferentes expressões de religiosidade simplesmente porque não as conhecemos. E como conhecê-las se não nos aproximamos existencialmente delas com uma sensibilidade capaz de superar as resistências que construímos? Se do ponto de vista da própria identidade e vivência religiosa não consigo olhar para o outro e respeitá-lo como um ser humano que se apresenta a partir de sua própria identidade e vivência religiosa é porque algo em minha própria identidade está pessimamente fundamentada; a negação do diálogo é a própria negação do discurso religioso; 2) o caminho do reconhecimento da alteridade e do respeito à sua dignidade. É imprescindível que em meio à multiplicidade de expressões religiosas o relacionamento seja marcado por um profundo respeito às diversas convicções religiosas, evitando o proselitismo e a linguagem exclusivista ou ainda, e pior, preconceituosa; as palavras não são inocentes, ao contrário, recebem o valor que a ela damos e, conseqüentemente, ao invés de construir pontes podem construir muros que nos separam uns dos outros; 3) o cmainho da percepção do valor de um mundo plural e diversificado, ou seja, as religiões, genuinamente diferentes, são autenticamente preciosas. Dessa maneira, assegurar o respeito à diversidade é garantir a integridade das tradições religiosas e potencializar o diálogo. É importante superar o complexo de superioridade religiosa do qual quase todas as religiões do mundo sofrem, um complexo que as levou a se considerarem diretamente divinas ou como a única religião válida do mundo. Ora, diante da evidência de que todas as religiões são lâmpadas da riqueza infinita de Deus, o pluralismo religioso precisa ser visto como o mais intenso desejo de Deus em vez de ser um mal a ser combatido. Num ambiente tão inovador e desafiador como o que vivemos algumas práticas são eminentemente salutares: cultivar e aprofundar a própria identidade religiosa e respeitar/valorizar a identidade religiosa dos outros (não é preciso concordar, mas levar a sério o modo como as pessoas cultivam suas crenças).

Prof. Dr. Luiz Alexandre Solano Rossi

Angelo Rigon


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