A tragédia de Niterói – o incêndio do Gran Circus Norte-Americano

O Gran Circus Norte-Americano dizia ser o maior e mais completo da América Latina na época. Ao todo eram mais de 80 funcionários, 60 artistas e 20 empregados, além de cerca de 150 animais.

A estreia na cidade carioca de Niterói estava marcada para o dia 15 de dezembro de 1961. Como toda montagem de circo requer muita mão de obra e tempo, Danilo Stevanovich e sua equipe chegaram uma semana mais cedo. Mesmo assim, precisaram contratar mais 50 pessoas para ajudar na montagem.

Um desses 50 contratados era Adilson Marcelino Alves, conhecido como Dequinha. Ele tinha antecedentes criminais e também problemas mentais. Não apresentou bom trabalho e foi demitido logo em seguida.

Dequinha não ficou nada feliz com isso e passou a rondar o circo.

No dia da estreia, tudo corria para o sucesso da apresentação. Era um domingo quente, as férias de fim de ano estavam no começo e a tenda nova davam um charme diferente. Era tanta gente que Stevanovich teve de suspender a venda de ingressos. Dequinha tentou entrar sem pagar, mas foi barrado por um funcionário. Os dois acabaram brigando.

Essa tentativa de entrar sem pagar se repetiu nas sessões seguintes, todas sem sucesso. Em uma delas, Dequinha brigou com outro funcionário e disse que se vingaria da demissão e das pessoas do circo.

Foi aí que ele resolveu elaborar um plano. Chamou dois comparsas: José dos Santos, o Pardal, e Walter Rosa dos Santos, o Bigode. Ainda que os dois tentassem dissuadir Dequinha da ideia, ele seguia irredutível.

Veio a apresentação do dia 17 de dezembro. O circo, mais uma vez, estava lotado. Quase 3000 pessoas assistiam ao espetáculo que estava no fim. Muitas pessoas já estavam de pé prontas para ir embora, quando a trapezista Nena notou o fogo que se alastrou rapidamente pela nova lona, de material extremamente inflamável e que havia recebido uma camada de parafina impermeabilizante.

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O Gran Circo Norte-Americano não tinha saídas de emergência. Além da saída para os artistas, tapada por uma cortina, havia apenas mais uma área de escape, que estava obstruída por grades de ferro. Normalmente, as grades seriam retiradas perto do fim do espetáculo, mas quando o fogo começou, elas ainda estavam lá, impedindo a passagem.

Em pouco minutos, o circo derreteu sobre o público. Muitos conseguiram escapar, mas não foi o caso de 372 pessoas que morreram no local. Grande parte dos sobreviventes agradeceu a elefanta Semba que, no desespero, arrebentou a lona, criando uma saída e abrindo caminho para muitas fugas. Infelizmente, nesse caminho, ela pisoteou e atropelou muitos.

Por ironia do destino, os médicos do Rio de Janeiro estavam em greve. O maior hospital de Niterói estava fechado. No desespero, a população arrombou a porta. Médicos foram convocados pelo rádio. Clínicas privadas também passaram a atender os feridos. Cidades vizinhas também convocaram seus médicos para ajudar no socorro. Cinemas e teatros da região interromperam suas sessões para ver se não tinham médicos na plateia para ajudar.

Eram tantos mortos que as agencias funerárias não tinham caixões suficientes para todas as vítimas, tanto que o estádio Caio Martins foi improvisado como uma oficina para a construção de novos caixões. O cemitério de Niterói também não tinha espaço.  Um pedaço de terra em São Gonçalo foi usado para enterrar o restante dos corpos.

A explicação oficial para o incêndio tem um culpado: Adilson Marcelino Alves, o Dequinha. Sua mãe uma vez disse que ele tinha mania de assumir a culpa por crimes inventados. Ele foi preso em 22 de dezembro de 1961. Peritos e imprensa, na época, alertaram para a precariedade das instalações elétricas.

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De acordo com o professor da Universidade Federal Fluminense, o Corpo de Bombeiros e o diretor do Serviço de Censura do Estado do Rio de Janeiro enfatizaram as boas condições de funcionamento do circo.

Assim, o próprio governador interrogou os suspeitos.

Dequinha confessou o crime. Um de seus comparsas, o Bigode, se declarou inocente mesmo com testemunhos de que ele havia comprado a gasolina. Mais tarde, em seu depoimento, Bigode confessou sua participação ainda que houvesse duvidas já que, para a opinião pública, o circo operava sem condições adequadas – faltavam saídas de emergência e extintores de incêndio.

Em 24 de outubro de 1962, Dequinha foi condenado a 16 anos de prisão e a mais 6 anos de internação em manicômio judiciário, como medida de segurança. Em 1973, menos de um mês depois de fugir da prisão, foi assassinado. Bigode recebeu 16 anos de condenação, e mais 1 ano em colônia agrícola. Finalmente, Pardal foi condenado a 14 anos de prisão, e mais 2 anos em colônia agrícola.

Um mês após fugir da prisão, em 1973, Dequinha foi assassinado.

Os números oficiais são de 503 mortos dos quais 70% eram crianças e mais de 800 feridos. Mas há famílias que dizem nunca ter encontrado seus parentes.

Demorou mais de 10 anos para a cidade de Niterói ter outra atração circense. Até hoje, quem conta a história se emociona.

Há uma reportagem aqui.

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