Berkeley’s Sky: est aut perciperi aut percipi

 

Olá gente ahduvidense, como vocês estão? Espero que bem! Faz um tempinho que não escrevo para o blog mas espero que essa situação mude. Esse post é sobre o insight que tive ao entrar na Playstation Store semana passada.

Apesar de fazer quase 4 anos que não jogo mais vídeo game em razão do meu trabalho atarefado, sempre acompanho as notícias e hora ou outra paro para ver meu irmão jogar as novidades. Semana passada parei uns cinco minutos para pôr o The Division a atualizar a pedido do meu irmão – que estava trabalhando e desesperado em não perder um minuto da jogatina – e acabei me deparando com esse incrível novo conceito: clicando para ver os futuros lançamentos me deparei com “No Man’s Sky (tradução aprox. “O céu de ninguém”). Confesso que não conhecia o jogo mas me chamou muito a atenção o vídeo disponível e fui atrás para saber um pouco mais: terminei abismado com o que esse game representa!

Usando a técnica de geração procedural, No Man’s Sky criou um universo com de 18 quintilhões (1.8×1019) de planetas! Sim, é incrível, não é? E se eu disser que cada planeta desse tem o tamanho de um planeta real! E fauna e flora própria! E que tudo dentro desse universo obedece as leis físicas nele talhadas. Isso é tão absurdo que, em 2007, Seth Lloyd, Michio Kaku e outros cientistas começavam a arranhar a superfície das teorias do Universo ser uma grande simulação, a primeira imposição (e talvez a mais importante delas) era justamente o fato de que nenhum computador poderia criar algo com essa extensão. Mas, vejam só, menos de 10 anos depois essa “impossibilidade” já não existe mais e segundo Ray Kurzweil e sua lei dos retornos acelerados, em 2030 já teremos computadores capazes de simular a realidade no seu mais profundo detalhe. Dessa forma, se isso é possível e em um futuro próximo faremos essa façanha, quem garante que isso já não tenha sido feito antes e o resultado somos nós?

Berkeley e a geração procedural

Fiquei impressionado ao saber desses atributos do game e decidi ir atrás para saber como a geração procedural funcionava e como os servidores não explodiriam com tantos dados sendo gerados. Descobri que, em No Man’s Sky, tudo somente existe dentro da percepção do player, sendo que, enquanto o player não está sendo observando, nada existe senão o algoritmo. A partir da percepção do player, tudo é gerado: o algoritmo toma a forma de planetas, espaço, leis físicas, animais, enfim, tudo que existe só existe quando é percebido.

Essa circunstância me lembrou a filosofia de George Berkeley e o seu “ser é ser percebido”. George Berkeley foi um filosofo idealista, nascido na Irlanda no século XVII. Berkeley defendia a abordagem do “idealismo imaterialista” que, em resumo, significa que ele defendia que a única substância existe no Universo é a mente. Mentes que percebem ideias. A realidade nada mais seria do que isso para Berkeley. No Man’s Sky não é nada além disso! O algoritmo é um padrão matemático que serve como o gerador das ideias. A mente que percebe é o player. Quando o player não está percebendo, nada existe e o personagem do game, aquele que o player controla, se tivesse consciência, nunca saberia que era controlado ou que tudo que existe só existe até o limite da sua percepção.

Não é preciso ir muito longe para entrarmos na linha de raciocínio que, uma escala infinita de eventos poderia criar os universos dentro de universos: crio um universo, dentro desse universo seres se desenvolvem e criam um novo universo, que por sua vez terá outros seres que irão se desenvolver e criar um novo universo e assim por diante. A real “realidade” seria apenas aquela do primeiro criador, todas as demais seriam ilusões de simulações das primeiras realidades em um grau infinitesimal pequeno de imperfeição quando a geração do universo dentro das ilusões chegasse em seu ultimo estágio, já que seria impossível recriar a própria “realidade” sem nenhum resquício de erro. No final, o grau de aproximação da realidade seria a distância do ponto inicial gerado na real “realidade”  em que o universo simulado se encontraria, ou seja, em que ponto da escala estaria o universo, sendo que o primeiro universo simulado estaria no primeiro grau da escala.

O Deus algoritmo

Alguns elementos desse universo seriam diferentes daquilo que conceituamos. O “Deus” de um universo desse tipo de Universo seria o algoritmo central. Fazendo uma comparação boba com a nossa “realidade”, muitas religiões defendem que Deus “está em tudo”, “é onipresente”, “é onisciente”, tal como o algoritmo central em um universo simulado. No próprio cristianismo gnóstico, nos apócrifos de Judas e Tomé temos os relatos de Yeshua falando sobre “Deus não está separado e sim, Deus sendo parte de nós e de tudo que existe” e que a única coisa que diferencia ele (Yeshua) dos demais é o grau de consciência.

Indo além, na Alquimia primordial, é dito que “palavras tem poder” porque a natureza do Universo pode ser manipuladas por ela. Considerando que “palavras ditas” são sons e sons são ondas mecânicas e ondas mecânicas são pertubações que se propagam em meios materiais e que nisso existe o transporte de energia e que todo Universo nada mais é do que energia, se observamos pela visão do universo simulado, o algoritmo é o que gera a Energia e seria possível por meio de palavras mudar o alcançar a manipulação do algoritmo central.

Anomalias da geração procedural

Outro ponto interessante que percebi nesse game foi os indícios que já foram apontados em alguns fóruns dos gamers que tiveram a oportunidade de testar o game. Não demorou para que aparecesse o primeiro relato de algo estranho no game. O relato dizia que havia um animal único em um planeta que o player estava explorando, que além de ser único, não se comportava como um animal do game, vindo a parecer estar curioso com a presença do jogador.

Quem jogou Minecraft deve lembrar da história do Herobrine, o tal personagem que ganhou consciência no game. Essas anomalias, por mais improváveis que sejam, podem ser possíveis se pensarmos que a geração procedural faz infinitas combinações constantemente a ponto que, uma anomalia nesse processo poderia gerar uma operação consciente, algo que reconheceria, armazenaria e concatenaria padrões para formação de novos padrões até o momento em que isso se tornaria um raciocínio.

Bom, melhor encerrarmos o assunto por aqui, mas quem puder contribuir, deixe seu comentário…

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  • Jason

    Muito bom o texto! Essa divagação filosófica sobre existência e o universo é muito legal! Gostaria que, se possível, você fizesse a continuação desse post, que é excelente também! Abraço!
    http://ahduvido.com.br/10-divagacoes-sobre-o-que-seria-o-universo-parte-1

    • Oi pessoal! Para esclarecer porque não houve continuação do post das divagações: ele iria entrar em caráter religioso e nós já tivemos péssimas experiências aqui no ah duvido colocando posts desse caráter. O leitor se sente ofendido por ver uma visão diferente da normal que desafia seus conceitos e geralmente tenta retaliar de alguma forma o site. Por isso, o post não teve sua continuação.

      • Jason

        Puxa, é sério mesmo isso? São leitores que não aceitam uma opinião diferente, isso é péssimo! O post das divagações teve muita gente que gostou e pediu continuação. Bom, eu amo essas divagações, adoraria ver a continuação do post, caso você volte atrás e resolva continua-lo sugiro colocar algum aviso inicial para os mais “fanáticos” não levarem tão a sério hehe. Abraços!

    • André

      Excelente post.
      🙂
      Vou pesquisar mais sobre o jogo.

  • Walfrido Janson Monteiro

    Interessantíssima postagem! Reforço a solicitação do Jason sobre a continuação da publicação das “Divagações sobre o que seria o Universo”.
    Abraços!

  • THom

    Muito bom! Já tinha lido sobre esse jogo e estou ansioso para ver como seria. Excelente post! Pensar nesse horizonte “infinito” de possibilidades nos faz viajar demais.