Cidade ocupa a posição 5.513 entre os 5.570 municípios avaliados quando analisados os indicadores de “Inclusão Social”, que incluem quantidade de famílias em situação de rua e violência contra negros, mulheres e indígenas. Especialista diz que propaganda de qualidade de vida de Maringá atrai pessoas em busca de oportunidades e, quando não as encontram, acabam indo para as ruas.
O Índice de Progresso Social (IPS) 2026, mesmo ranking que colocou Maringá como a 14ª melhor cidade do Brasil em qualidade de vida, também aponta a Cidade Canção como uma das últimas colocadas do país quando o assunto é “Inclusão Social”. O eixo faz parte da própria avaliação do IPS e, apesar de ter saltado de 25º em 2025 para 14º em 2026 no ranking geral, o município atingiu nota de apenas 27,6, em uma escala que vai de 0 a 100, quando avaliados os índices sociais.
O índice de Inclusão leva em conta seis indicadores: Quantidade de famílias em situação de rua; paridade de negros na Câmara Municipal; paridade de mulheres na Câmara Municipal; violência contra negros; violência contra mulheres e violência contra indígenas. Conforme o IPS, Maringá ocupa a posição de 5.513 entre os 5.570 municípios do Brasil avaliados, quando olhados apenas esses indicadores. Os dados são disponíveis para consulta pública (clique aqui para acessar).
Conforme a metodologia do Índice, os números de Maringá sobre a quantidade de pessoas em situação de rua foram considerados “relativamente fracos”. A pesquisa utiliza dados do CadÚnico e do Censo Demográfico de 2022, quando a cidade tinha aproximadamente 900 pessoas em situaçãode rua. Na atual edição do IPS Brasil, a nota média dos municípios brasileiros em Inclusão Social não ultrapassou 46, na escala de 0 a 100.
Para a professora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e vice-coordenadora do Núcleo Maringaense do Observatório das Metrópoles, Celene Tonella, a metodologia desses rankings não permite uma leitura completa da realidade quando se fala em acesso a qualidade de vida.
“Considero esses ranqueamentos uma ilusão. É difícil você dizer que isso é um acesso democrático da plenitude da população, de 100% da população, ao bem-estar que aparece nesses indicadores. Então, todas as cidades, as cidades capitalistas, têm um desequilíbrio muito grande entre centro e periferia, os centros, os bairros do entorno dos centros urbanos muito bem dotados de equipamentos urbanos e sociais e uma periferia bastante carente onde a população trabalhadora se localiza. Maringá tem um agravante em que, como a terra em Maringá é muito cara, a população de menos poder positivo se instala em Paiçandu e Sarandi, que é a massa trabalhadora que faz o movimento pendular entre uma cidade e outra”, avalia.
Tonella também cita como a propaganda veiculada sobre Maringá ser uma das melhores cidades do Brasil afeta na questão da população em situação de rua. “Maringá tem os seus atrativos, inclusive por essa propaganda de cidade, maior cidade para se viver, uma das melhores cidades para se viver no Brasil, atrai pessoas em busca de oportunidades. Quando essas pessoas não encontram, elas vão para a rua, e vão para a rua por diferentes motivos, tem o aspecto da falta de renda, ela não consegue emprego formal, mas também tem muitas pessoas que são expulsas de casa por determinado comportamento, pela sua sexualidade, dos pais não aceitarem a opção sexual de adolescentes e tem esse aspecto que muitas vezes a menina grávida é expulsa de casa, entre outros exemplos. Então, se você pegar o ranking de motivos que as pessoas vão para a rua, ele é bastante grande”, afirma.
Ainda conforme a pesquisadora, a cidade ainda não conseguiu consolidar políticas públicas de acolhimento para este público. “Maringá trata essa população de rua na perspectiva da violência, (3:29) que são bandidos, contraventores, então um perigo para a sociedade. Você tem que ter políticas públicas para atender esse perfil de pessoa. Então, suporte assistencial, suporte no campo do trabalho em renda, suporte para reversão. Muitos chegam com problemas de drogas e a sociedade vai criminalizando essas pessoas ao invés de criar mecanismos de acolhimento. Falo de cecanismos concretos, verdadeiros, não paliativos”, finaliza.
Maringá trabalha abordagem social e ampliação de programas de habitação para mitigar população em situação de rua
Procurada pelo Maringá Post para comentar a avaliação do IPS sobre os indicadores sociais, a Prefeitura de Maringá afirmou que certos desafios impactam as grandes cidades de forma mais direta do que municípios menores. O Executivo também citou mudanças na metodologia do ranking para justificar o impacto direto na nota do município.
Por meio de nota, a Prefeitura também listou as ações executadas pelo poder público nas áreas de acolhimento e ampliação dos programas habitacionais para mitigar os problemas com a população em situação de rua. Leia a nota na íntegra:
“Municípios de médio porte (entre 100 mil e 500 mil habitantes – conforme classificação do IBGE) enfrentam desafios de escala que não afetam da mesma forma as cidades menores do seu grupo de PIB. O avanço social no município foi acompanhado por um crescimento econômico robusto. A população municipal saltou de 409.657 habitantes (Censo 2022) para uma estimativa de 429.660 em 2025. O reflexo mais contundente da força econômica local está no PIB Per Capita, que após registrar R$ 55.710,33 (dados de 2024) e sofrer uma retração para R$ 53.575,21 (dados de 2025), disparou para o recorde de R$ 64.742,69 no relatório de 2026 do IPS Brasil.
Em relação à Inclusão Social, em 2024 Maringá já registrava uma nota baixa nesse componente, com 29,86 pontos e uma colocação menos favorável no ranking nacional. Em 2025, houve uma atualização metodológica, o que impactou negativamente a pontuação de diversos municípios, incluindo Maringá. Nesse contexto, a nota da cidade caiu para 25,10 pontos. Já em 2026, Maringá apresentou uma leve recuperação na pontuação absoluta do componente, subindo para 27,60 pontos.
Houve mudanças nos indicadores e tratamentos estatísticos ao longo das três edições do IPS, como a adição “Famílias em Situação de Rua” e a exclusão do indicador de “Trabalho Infantil”, por exemplo. Essa mudança na “receita” do índice impacta a nota final de todos os municípios, incluindo Maringá. Desta forma destaca-se a necessidade de avaliação dos indicadores ano a ano.
Para entender a nota de Maringá no ranking nacional com relação à Inclusão Social, é preciso olhar para as variáveis que o IPS Brasil utiliza. O índice avalia o grau de acolhimento, equidade e proteção a grupos minoritários ou vulneráveis através de indicadores como:
– Famílias em Situação de Rua, que mensura a proporção dessas famílias em relação ao total de inscritos no Cadastro Único (CadÚnico).
– Paridade de Gênero e a Paridade de Negros na Câmara Municipal, indicadores que avaliam a representatividade política no legislativo local por meio de uma medida matemática normalizada que cruza o número de cadeiras ocupadas por mulheres, pretos e pardos com a real proporção desses grupos na população.- Violência Contra Indígenas, Mulheres e Negros, que medem a incidência de notificações registradas nos sistemas de saúde por fator populacional, cruzando os bancos de dados do Ministério da Saúde e as estimativas do IBGE.
Por ser uma metrópole regional com excelentes serviços públicos de saúde, alta oferta de emprego e forte infraestrutura em Moradia e Saneamento (onde Maringá é líder), a cidade naturalmente atrai correntes migratórias de outras regiões do país e do estado. Muitas dessas pessoas chegam sem rede de apoio ou qualificação imediata, aumentando temporariamente os cadastros de vulnerabilidade social (CadÚnico) e o acolhimento institucional até que ocorra a inserção no mercado formal.
Para mitigar esses gargalos, a administração mantém um plano contínuo de políticas públicas focadas na infraestrutura social do território. As ações voltadas à população em situação de rua contemplam o fortalecimento das equipes de abordagem social, a ampliação das vagas em acolhimento institucional e o desenvolvimento de programas de habitação de interesse social e de inclusão produtiva no mercado de trabalho. Paralelamente, o combate às violências de gênero e raça é enfrentado por meio da expansão de políticas transversais, que englobam campanhas preventivas permanentes, o fortalecimento dos conselhos municipais e a consolidação de mecanismos que promovem a emancipação financeira e o amparo jurídico das vítimas.
Com a consolidação das redes de proteção, a descentralização dos serviços socioassistenciais e a modernização do monitoramento de vulnerabilidades por dados implementadas do ano passado em diante, Maringá pode reverter esse quadro e ganhar posições significativas nas próximas edições do ranking.”























