Maringá — A busca por visibilidade individual e o apelo a fórmulas prontas de liderança dominam o discurso corporativo nas redes sociais. No ambiente real dos negócios, contudo, a sustentabilidade de uma organização obedece a outra lógica: disciplina diária, governança rigorosa e capacidade de construir valor para o coletivo. Essa é a reflexão que guia a trajetória da advogada tributarista Noroara Moreira, atual presidente do ACIM Mulher, conselho que reúne mais de 60 empresárias na Associação Comercial e Empresarial de Maringá.
Em entrevista ao jornalista Ronaldo Nezo no podcast Ponto a Ponto, gravado no VMark Estúdio para o portal Maringá Post, Noroara detalhou os bastidores da gestão de empresas de serviços, analisou as barreiras estruturais e psicológicas enfrentadas por mulheres no comando corporativo e explicou por que a cultura de cooperação de Maringá desafia as regras tradicionais de mercado.
Liderar é servir: o fim do mito da liderança de palco
Para Noroara, a ideia de que indivíduos nascem pré-destinados ao comando não resiste à prática administrativa. A liderança é uma habilidade forjada na recorrência de processos simples e na atenção às pessoas.
“Ninguém nasce líder. Acredito na cadência, no esforço de todo dia. O extraordinário é feito no trabalho ordinário”, pontua a advogada. Ela rejeita o perfil do gestor que utiliza a função hierárquica para autopromoção ou marketing pessoal, sustentando que o papel do líder contemporâneo se define pela disposição de atuar nos bastidores em favor da equipe.
“Liderar é servir. Não é para você, é para os outros. A pessoa que está à frente precisa falar para que o grupo apareça. Quando dividimos as responsabilidades em projetos claros, com lideranças descentralizadas, cada integrante percebe a relevância do seu trabalho. Sem isso, a engrenagem fica manca”, afirma.
Essa mentalidade de serviço ancora-se em um dos pilares do escritório que fundou ao lado do sócio Vicente Suzuki: o princípio de “agradecer e retribuir”. Formada pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), Noroara encontrou no voluntariado institucional — com passagens pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e conselhos empresariais — a via prática para devolver à comunidade a capacitação adquirida na carreira jurídica.
Advocacia é empresa: gestão e antecipação estratégica
Com mais de duas décadas de prática na área tributária, Noroara observa que muitos profissionais liberais e prestadores de serviços falham por não encararem suas bancas como negócios formais. A ausência de educação financeira nas universidades, segundo ela, cobra um preço alto no início da atividade autônoma.
“Escritório de advocacia é empresa. É preciso aprender a gerir pessoas, separar o caixa da pessoa jurídica das contas pessoais e entender métricas financeiras. Do contrário, o negócio não tem longevidade”, adverte.
A advogada relata uma guinada estrutural implementada em sua própria sociedade em 2017. Diante da crescente automação judicial e da perda de margem no contencioso massificado — movimento acelerado mais tarde pela inteligência artificial —, os sócios decidiram abrir mão de carteiras volumosas para focar em advocacia preventiva e planejamento tributário por projetos.
A decisão exigiu coragem executiva. “Fizemos uma lista com 20 clientes ideais que sonhávamos em atender e redesenhamos a rota. Tivemos que ‘demitir’ clientes antigos, com o receio natural de dar errado, mas era um movimento inegociável”, explica. Anos depois, muitos dos nomes daquela lista original integraram a carteira da banca. A mesma antecipação de tendências levou a equipe a operar no modelo híbrido antes da pandemia, transformando 2020 em um dos anos mais produtivos da empresa.
As camadas da decisão: capacitação e medo de errar
À frente do ACIM Mulher, conselho com 40 anos de história que recentemente registrou mais de cem inscrições para apenas sete vagas em processo seletivo, Noroara destaca a complexidade do ecossistema do empreendedorismo feminino. O cenário é heterogêneo e exige abordagens sob medida.
De um lado está a mãe solo, impelida ao negócio pela necessidade urgente de garantir o sustento doméstico. De outro, encontram-se profissionais altamente qualificadas, graduadas e pós-graduadas, que ainda hesitam em assumir o leme de grandes decisões corporativas.
“Existe uma camada expressiva de mulheres bem formadas que não se reconhecem como líderes. Há um receio cultural do erro”, analisa Noroara. Para ela, a autonomia executiva nasce da disposição de enfrentar a incerteza do mercado: “É preciso virar essa chave e pensar: ‘Tudo bem se der errado; vou corrigir e fazer acontecer. Tenho a mesma capacidade técnica e vou liderar’. Não ficamos apenas no debate teórico; colocamos a mão na massa para fortalecer a gestão dessas empresas.”
O trabalho do conselho desdobra-se também em responsabilidade cívica. Diante dos índices alarmantes de violência doméstica, a entidade encampou de forma ostensiva a campanha institucional Até Quando. A mobilização distribui materiais com canais de denúncia e planos de emergência em espaços reservados de estabelecimentos comerciais, alcançando mulheres em situação de vulnerabilidade em locais onde o controle do agressor não chega.
O modelo associativista: por que concorrentes sentam na mesma mesa
A cultura de cooperação de Maringá — formalizada no título de Capital Nacional do Associativismo — permeou toda a conversa no Ponto a Ponto. Noroara aponta que o crescimento regional não depende exclusivamente de incentivos estatais, mas da maturidade de seus empreendedores.
Na ACIM, mais de 90 núcleos setoriais reúnem empresários do mesmo segmento econômico em torno de objetivos comuns. O que em outras praças seria visto com desconfiança, em Maringá opera como catalisador de inovação.
“Se pensássemos que o concorrente sentado à mesa vai roubar nosso cliente ou a nossa expertise, o associativismo local não existiria”, pondera a dirigente. “O mercado percebeu que sentar junto para debater gargalos tributários, capacitar equipes e defender bandeiras da cidade expande o tamanho do bolo para todos.”
Noroara rebate ainda o argumento de gestores que evitam a participação comunitária sob a justificativa de falta de tempo. Para a advogada, isolar-se na rotina operacional limita a visão de longo prazo: “Dedicar tempo à associação não é perder faturamento; é investimento estratégico. Estar em contato com quem já superou crises e construiu cases consistentes oxigena as ideias, antecipa tendências e evita erros que custariam caro ao negócio.”
A íntegra da entrevista com Noroara Moreira está disponível no canal do Maringá Post no YouTube. Os recortes e os bastidores da produção audiovisual no VMark Estúdio seguem em destaque ao longo da semana nas plataformas do jornal.





