Primo relata como família encarou morte de Clodimar Pedro Lô, menino que virou santo popular em Maringá: ‘ninguém mais passava perto do cadeião’

Submetido a sessões de tortura na antiga Cadeia Pública de Maringá durante a ditadura militar, acusado de um crime que não cometeu, túmulo do então funcionário do Palace Hotel segue sendo o mais visitado do Cemitério de Maringá até os dias atuais.
Tempo de leitura: 6 min

No Cemitério Municipal de Maringá um túmulo em especial chama a atenção dos visitantes logo na entrada. Localizada na quadra 7, bem próxima ao portão principal, a sepultura de Clodimar Pedrosa Lô mais uma vez será a mais visitada do espaço neste Dia de Finados. Mais de 90 mil pessoas devem passar pelo Cemitério nesta segunda-feira (2).

Mesmo com apenas um familiar ainda vivo em Maringá, o túmulo já está todo arrumado, limpo e com arranjos florais novos. O local, que recebe manutenção de voluntários e também de um padre da cidade, ganhou um simbolismo especial após o garoto, morto há quase seis décadas acusado de um crime que não cometeu, ser alçado a uma espécie de santo popular. Desde a década de 1980, centenas de pessoas passam pela sepultura de Clodimar para agradecer por milagres alcançados e que são atribuídos ao garoto, embora seu suposto poder divino não seja oficialmente reconhecido pela Igreja Católica.

Clodimar morreu na noite do dia 23 de novembro de 1967. Na época com 15 anos, ele foi submetido a sessões de tortura na antiga Cadeia Pública de Maringá, que ficava localizada na Avenida Paraná, onde hoje encontra-se o 5º Grupamento de Bombeiros. Acusado injustamente de ter furtado dinheiro de um hóspede do Palace Hotel, local onde trabalhava como auxiliar de serviços gerais, as agressões cometidas por dois policiais visavam forçar o menino a confessar o crime, o que não ocorreu. A morte gerou revolta e comoção em Maringá e se tornou um dos episódios mais marcantes da história da cidade.

O adolescente, que veio de Parambu, no Ceará, até Maringá escondido dos pais, tinha o sonho de dar uma vida melhor para a família de origem simples que ficou no nordeste do Brasil. Após percorrer mais de 3 mil quilômetros, Clodimar chegou na Cidade Canção e buscou moradia na casa de um tio, que já vivia por aqui. Após realizar uma série de trabalhos informais, como pedreiro e engraxatre, foi com a ajuda dos tios que o jovem chegou até o Palace Hotel, empreendimento de propriedade de Atíllio Farris que ficava localizado na Avenida Brasil.

Na época com oito anos de idade, Amilkar de Souza Pedrosa, primo de Clodimar, lembra que a convivência de ambos era quase como de irmãos.

“Minha mãe era muito bem envolvida com o hotel, porque meu tio era tintureiro de lá, então minha mãe ficou confiante que o hotel era seguro para um menino de 14 anos e colocou ele lá. Eu até me lembro dela falar para o Attílio (dono do hotel) ‘eu tenho quatro filhos, mas esse aqui é meu quinto filho, é meu sobrinho, mas eu quero que cuide dele, qualquer coisa que houver aqui ele mora comigo’. Assim ele começou a trabalhar lá no hotel como maleiro, pegando malas dos viajantes e levando para os quartos, e como eu era muito próximo dele, quase um irmão do Clodimar, eu pegava minhas caixinhas, aquelas caixinhas triangulares que colocavam no pescoço, caixinha de sapato, e ia engaixar sapato lá na frente, com oito anos ali engraxando sapato dos viajantes e sempre quando dava, eu estava lá na frente do hotel, junto com o Clodimar trabalhando”, relatou, em entrevista ao Maringá Post.

Na tarde de 23 de novembro de 1967, um dos hóspedes alegou o sumiço de uma quantia que, nas cifras atuais, seria algo em torno de R$ 300. Pressionado pelo cliente e após um outro funcionário alegar ter visto Clodimar deixando o quarto minutos antes, Attílio chamou a Polícia. Por ter vindo da Itália e ainda desacostumado com a forma de atuar dos policiais brasileiros, o proprietário esperava que o garoto apenas daria um depoimento e que o processo, se provado, seguiria o rito normal da lei. Seria a última vez que qualquer um veria o adolescente com vida.

A ‘sala dos suplícios

De acordo com o historiador Miguel Fernando, autor do livro ‘Sala dos Suplícios: o dossiê do Caso Clodimar Pedrosa Lô’, lançado em 2010 e que relata detalhes do crime, o ápice da Ditadura Militar institucionalizou a truculência policial na cidade. Um dos carros utilizados pelos agentes da força de segurança da época até ganhou fama: o popular ‘Jeep 28’, em que os visitantes que entravam, supostamente, não eram mais vistos.

“Quando eu fiz a pesquisa para o livro, nós lançamos a primeira edição em 2010, depois lançamos mais duas edições, nós descobrimos nos documentos que havia um espaço institucionalizado para tortura, dentro da delegacia que ficava na Avenida Paraná, era chamado de sala dos suplícios. A gente ainda não vivia o ápice dos anos de chumbo, porque o ato institucional número 5 (AI-5) viria em 1968, mas no interior do Brasil a polícia, em certa medida, agia com bastante truculência, sobretudo por esse amparo institucional que acabou sendo proporcionado por meio da instauração da ditadura civil militar no país”, disse Miguel.

  Antiga Cadeia Pública de Maringá, na Avenida Paraná, onde Clodimar foi torturado | Foto: Acervo/Maringá Histórica

Após perder a consciência, Clodimar foi levado pelos agentes até um hospital de Mandaguari, já sem vida. A versão oficial dada aos médicos foi de que o menino teria caído do veículo e sido atropelado ao tentar fugir dos agentes, narrativa que não convence os presentes. Após as pessoas e a imprensa tomarem conhecimento do caso, os policiais envolvidos nas agressões fogem e a Justiça determina que o corpo seja levado para uma autópsia em Curitiba, que comprova as sessões de tortura.

“Eu me lembro de meu pai ter ido até a delegacia a noite, já era perto de meia noite. Nós fomos a pé, morávamos ali perto e um dos presentes terem relatado que o Clodimar teria sido levado ao hospital porque havia passado mal, mas que estava tudo bem e que logo ele voltaria para casa. Meu pai, na inocência, voltou para casa e o meu primo não. Enquanto a gente tava lá, conversando, tentando entender o que aconteceu, meu primo estava sendo torturado. […] Quando o corpo chegou, o caixão estava em casa e meu pai fez questão de deixar a camisa do Clodimar aberta, para as pessoas verem. Dava pra ver na cabeça os ‘furinhos’ na lateral, dele ter tomado choque. Estava com a cara toda roxa de ter apanhado, no peito dele tinha certinho a pegada de uma bota, de um pisão que havia tomado”, relembra Amilkar.

Após a família vir do Ceará até Maringá, logo após tomar conhecimento do ocorrido, iniciou-se a luta por Justiça. Sebastião Pedrosa, pai de Clodimar, passou três anos planejando uma vingança. Em 1970, ele assassina Attílio Farris com tiros a queima roupa na região central da cidade, pouco depois do antigo proprietário do hotel retornar da Itália, para onde fugiu quando o caso ganhou repercussão. Mesmo com testemunhas, Sebastião foi absolvido em três juris populares através da tese da Legítima Defesa da Honra.

O sentimento de vingança não foi capaz de devolver a paz para família, apesar de todos os esforços para recomeçar. “Destruiu a nossa família, sem dúvidas. Eu era muito próximo do Clodimar. Ninguém mais passava perto do cadeião, porque todo mundo tinha medo de ser acusado de alguma coisa, todo mundo ficou sabendo o que aconteceu na época. Minha tia (mãe do Clodimar), que já não estava bem, ficou ainda pior depois que o filho dela morreu. Teve um dia que ela veio escondida do Ceará para Maringá, ninguém sabia que ela viria. Ela descascou uma árvore todinha só com uma faquinha de mesa, de tão mal que estava psicologicamente. No dia seguinte, quando os fiscais da Prefeitura vieram multar meu pai pelo crime ambiental, ele até falou ‘isso aí é culpa de vocês, culpa do Estado que matou o filho dela'”, descreve Amilkar.

O ‘santo popular’

A partir dos anos 1980, com Attílio já morto e os policiais condenados em júri, uma peregrinação de pessoas que passam a reconhecer supostos poderes sobrenaturais de Clodimar toma conta do Cemitério de Maringá. Atualmente, mais de 150 placas de agradecimentos por milagres alcançados estão instaladas na sepultura do jovem. Algumas, instaladas mais recentemente, citam graças das mais variadas, como a conquista de um emprego ou a recuperação de um problema de saúde.

Fotografia de Clodimar, tirada meses antes do crime. Foi instalada na lápide tempos depois, a pedido de populares | Foto: Acervo/Maringá Histórica

A Igreja, por sua vez, nunca reconheceu Clodimar como um santo.

“Desde o enterro dele isso já mobiliza centenas e milhares de pessoas, mas ali naquele momento, no final dos anos 1980, começa uma espécie de uma peregrinação efetiva, que é quando a gente vai constatar dezenas ou centenas de placas com graças alcançadas de pessoas que conquistaram algum tipo de milagre e atribuem isso à intervenção de Clodimar Pedrosa Lô. Ele não é um santo reconhecido pela Igreja, nem um santo popular, na historiografia, na história das religiões, a gente talvez qualifique ele como santo de cemitério, que a população o reconhece como tal, a Igreja Católica, não”, finaliza Miguel Fernando.