Maringá — A busca por visualizações nas redes e por fórmulas milagrosas tem levado empresas e criadores de conteúdo a frustrações recorrentes no ambiente digital. A construção de uma presença online sustentável exige planejamento, disciplina e clareza sobre o papel de cada ferramenta. Essa foi a principal lição partilhada pelo jornalista, produtor audiovisual e diretor do VMark Estúdio, Valério Pereira, em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, do portal Maringá Post, conduzida pelo jornalista Ronaldo Nezo.
Com quase duas décadas de atuação na área da comunicação, Valério começou como locutor comercial e mestre de cerimônias até entrar na televisão em 2007, ao lado da apresentadora Cristina Calisto. Mais tarde, integrou durante uma década a equipa da Rede Massa (afiliada do SBT), onde trabalhou na direção de jornais e na produção diária. Durante anos, conciliou a rotina televisiva matinal com produções audiovisuais privadas no período da tarde e da noite.
O ponto de virada profissional ocorreu durante a pandemia, quando a procura por transmissões ao vivo e conteúdos institucionais cresceu exponencialmente. Apoiado pela família, Valério deixou a televisão para se dedicar exclusivamente à produtora, que evoluiu para a estrutura do VMark Estúdio, atualmente sediado no centro de Maringá.
A realidade do podcast: autoridade em vez de viralização
Ao analisar a febre dos podcasts no Brasil, Valério alertou para o perigo das falsas expectativas, sobretudo no interior do país, onde a dinâmica é diferente da dos grandes centros como São Paulo. Segundo o produtor, o formato deixou de ser uma via para obter números astronómicos imediatos ou receitas diretas e consolidou-se como um instrumento de posicionamento institucional.
“Para quem vinha buscar os podcasts com essa ideia de explodir, de viralizar, de estourar: isso não é impossível, mas na nossa realidade é pouco provável, e a gente tem que deixar isso bem claro. Hoje ninguém ganha dinheiro com podcast. Você ganha visibilidade, credibilidade, constrói sua autoridade e sua relevância dependendo dos seus assuntos. Se você quer se posicionar ou apresentar o seu serviço, é uma ferramenta sensacional, mas a venda se torna consequência”, explicou o diretor.
Valério destacou que a força do conteúdo longo reside na sua permanência no tempo. Uma conversa gravada em estúdio com qualidade técnica transforma-se num activo perene de marca, que continua acessível e relevante anos após a publicação, ao contrário de campanhas publicitárias tradicionais ou anúncios de curta duração.
“Vender sem vender”: o fim do panfletismo nas redes
Questionado sobre a postura comercial de empresas e profissionais liberais na internet, o comunicador criticou a insistência no modelo de “varejão” ou “porta de loja”, no qual o emissor apenas divulga preços e apela à compra direta.
“Para as redes sociais, você tem que agregar valor, encantar e despertar interesse. A segurança se dá através de uma comunicação séria, direta, onde você vende o produto sem vender. Em vez de falar o preço, mostre o que o produto faz, quais são os diferenciais e como ele facilita a vida da pessoa. A constância de estar toda semana falando sobre aquilo que você domina coloca no inconsciente do público que você tem qualidade e credibilidade”, afirmou.
Para atender à escassez de tempo de médicos, advogados, dentistas e empresários, a produtora estruturou um modelo de serviço “360 graus”. Nele, a equipa assume o planeamento estratégico, a escrita dos guiões, a gravação em lote de dezenas de temas num único dia, a edição e a própria programação das publicações, garantindo frequência sem sobrecarregar a rotina do cliente.
Viralização imprevisível e os limites da inteligência artificial
O diretor desmistificou ainda as promessas de “fórmulas mágicas” para vídeos virais vendidas por consultores digitais. Conforme explicou, a viralização de entretenimento raramente atrai o público certo e pode até desajustar a entrega algorítmica da página.
“A viralização é muito mais comportamento humano e sorte do que técnica fechada. Não existe fórmula do bolo. O que dá resultado sustentável para um negócio é a constância e a frequência voltadas para quem realmente precisa daquela solução”, pontuou.
Por fim, ao abordar o avanço da inteligência artificial no sector audiovisual, Valério sublinhou que os recursos automatizados são muito bem-vindos nos bastidores — para organizar ideias, estruturar guiões ou efetuar correções pontuais de imagem e som —, mas encontram barreiras quando tentam substituir o elemento humano.
“A promessa de criar clones digitais onde a pessoa não precisa gravar mais nada perde a essência da conexão. Hoje, o público já percebe de forma escancarada o que é feito por IA e o que é real, gerando desinteresse. A ferramenta ajuda nos processos, mas a credibilidade de um negócio continua a depender do olhar humano, da voz verdadeira e do olho no olho com o cliente”, concluiu o empresário.
Serviço
O episódio completo do podcast com Valério Pereira está disponível no canal do Youtube do jornal Maringá Post.






