Durante muitos anos as escadarias da Catedral Basília de Nossa Senhora da Glória, em Maringá, foram um dos grandes atrativos turísticos regionais. Embora muitos não saibam, o templo religioso é o mais alto da América Latina e o décimo mais alto do mundo, com 124 metros de altura divididos em 17 andares.
A atração está fechada ao público desde abril de 2010, após uma determinação do pároco da época, Virgílio Cabral dos Santos, para adequações estruturais visando aumentar a segurança dos visitantes. Desde então, os andares superiores passam por reformas, que se intensificaram a partir de 2018, com a instalação dos elevadores. Em 2022, houve a instalação dos sinos no mirante da Catedral e, desde 2024, as obras visam revitalizar o Cemitério Vertical São José, localizado no 10º andar e que tem 1.500 gavetários.
Embora não trabalhe com prazos, a Arquidiocese de Maringá planeja reabrir novamente as escadarias e o mirante para visitação do público quando as obras estruturais forem concluídas. Na última quinta-feira (8), a reportagem do Maringá Post encarou os 578 degraus da escadaria para mostrar ao público o que há no interior do templo religioso, bem como é a vista da cidade lá de cima.
A inspiração dos foguetes soviéticos para o formato cônico
Com a construção iniciada em 15 de agosto de 1958, o projeto do arquiteto José Augusto Belucci teve inspirações da corrida espacial iniciada nos anos 1950, rivalizada entre Estados Unidos e União Soviética. Conforme o historiador Miguel Fernando, registro da época mostram que o formato da construção, feito a partir de rabiscos do bispo Dom Jaime Luiz Coelho, buscava reproduzir um foguete.
“A gente vivia no mundo aquela segunda metade da década de 1950 com a Guerra Fria, uma disputa tecnológica para ver qual nação tinha condições de alcançar o espaço, chegar até o espaço. Essa disputa era entre a União Soviética e os Estados Unidos, quem chega primeiro, tecnologicamente falando, foi a União Soviética. E como estava acontecendo a Guerra Fria, era muito comum os veículos de comunicação impressos divulgarem os projetos dos foguetes. E o Dom Jaime, ao ver um destes projetos, ele, segundo ele mesmo diz, desenhou uma cruz no topo e imaginou que aquela poderia ser a Catedral de Maringá, com um formato cônico bastante diferente do que nós temos espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Para isso, ele contrata o José Augusto Belucci, arquiteto que já havia desenvolvido alguns projetos em Maringá, como o Maringá Clube e o então Grande Hotel Maringá, um arquiteto paulista, e concebe, então, a proposta para executar a obra”, explica Miguel.

A obra que quase não terminou
Na segunda metade da década de 1960, quando parte da estrutura já estava de pé, a construção da Catedral Basílica chegou a ser temporariamente paralisada em razão da falta de recursos. O templo era um projeto bastante ambicioso para a época. Para garantir a continuidade do projeto, Dom Jaime precisou mobilizar os fiéis em busca de recursos.
“Houve dificuldade muito grande para executar porque é uma obra complexa de concreto armado e exige um investimento muito grande. A comunidade doou, doava dinheiro, doava mão de obra, doava sacos de café, de cimento e por aí vai. Só que as fontes indicam que a obra poderia ter sido executada mais rápido. O Dom Jaime, inteligente gestor que era, se oportunizou da construção da Catedral, porque todo mundo estava envolvido na construção da Catedral, para poder também construir o seminário Diocesano. Então, ele fez duas obras durante o período da execução da Catedral, esses 14 anos e, por essa razão que a obra, durante a década de 1960, praticamente ficou estagnada. Ela vai ganhar ritmo mesmo no início dos anos 70, o que coincide com a conclusão da obra do seminário Diocesano”, afirma Miguel Fernando.
Um cemitério no décimo andar
Com o avanço das obras, Dom Jaime Luiz Coelho teve a ideia de construir, no décimo andar da escadaria e a cerca de 40 metros de altura um cemitério vertical, com cerca de 1.500 gavetários. Esta parte do projeto foi inaugurada oficialmente em meados da década de 1980, depois que o templo já estava em funcionamento.
O cemitério, inclusive, foi uma das estratégias para que a construção tivesse continuidade, uma vez que produtores rurais da cidade que doavam sacas de café e os lucros da produção para a Igreja recebiam, como presente, um gavetário para o sepultamento de entes queridos. Durante muitos anos a Arquidiocese seguiu vendendo gavetários no cemitério vertical, que recebeu o nome de São José, processo que atualmente está paralisado desde que a reforma no espaço foi iniciada. A tendência é que ela seja concluída antes do feriado de Finados, celebrado em 2 de novembro.

Sinos de mais de 1,5 tonelada
A obra foi entregue em 10 de maio de 1972, no aniversário de 25 anos de Maringá. Versões oficiais confirmam, embora outras contestem que a data foi proposital.
“Quando você olha fotos de 70, 71 e 72, a Catedral começa a acelerar a execução da sua obra para que ela pudesse ser entregue para a comunidade. Mas, em maio de 1972, ela não está concluída 100%. Tanto é que nós temos ainda várias estruturas de madeira na parte externa, porque a Catedral ainda estava sendo concluída. Foi proposital aproveitar aquele momento, por conta do jubileu de prata de Maringá. Mas, internamente, ela estava bruta. Só em outubro de 1972 que a parte interna vai estar razoavelmente estruturada, mas ela ainda vai levar anos para ser concluída com os vitrais e as obras de arte”, argumenta o historiador Miguel Fernando.
Em maio de 2022, em comemoração ao jubileu de ouro – 50 anos de fundação – da Catedral, o local recebeu a instalação de sete sinos de bronze, posicionados no último andar. Dois deles faziam parte da Catedral antiga, erguida nos anos 1940 ainda em madeira, enquanto os outros cinco foram feitos sob encomenda, em um investimento de mais de R$ 500 mil.
















