Maringá — A erosão da autoridade do professor em sala de aula, os prejuízos cognitivos causados pelo uso desmedido de telas e a complexidade prática da inclusão escolar estão no centro de um debate inadiável sobre os rumos da sociedade brasileira. No podcast Ponto a Ponto, projeto do portal Maringá Post gravado no VMark Estúdio, o jornalista Ronaldo Nezo recebeu o professor e engenheiro Djalma da Rocha Martins, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino no Noroeste do Paraná (Sinepe/NOPR) e diretor do Colégio Magnus Domini.
Durante a conversa, Martins traçou um panorama rigoroso das transformações que desafiam as instituições de ensino e provocou: “Todo mundo diz que educação é importante, concorda que é importante. Mas o que você está fazendo para que ela seja exaltada e esteja em primeiro plano na sociedade?”
Djalma construiu sua visão pedagógica a partir de um percurso incomum. Com formação e carreira consolidadas na engenharia em São Paulo e passagem por multinacionais, ele ingressou definitivamente na gestão escolar no início dos anos 2000 ao associar-se às irmãs na expansão do Colégio Magnus Domini em Maringá.
A transição o fez encarar a singularidade estrutural e patrimonial do segmento: “A educação exige um imobilizado muito grande. Você tem que ter um prédio específico para uma escola. Costumo dizer que é um investimento alto e que só serve para escola — é como escola e açougue: a câmara fria não serve para outra coisa. Você tem que acreditar muito no que está fazendo”.
Essa vivência no chão da escola logo o aproximou da militância associativa. No Sinepe/NOPR desde 2003, entidade que lidera representando escolas particulares em 115 municípios do Noroeste paranaense, Martins defende que a missão sindical transcende a negociação de convenções coletivas de trabalho. Envolve ações contínuas de conscientização social — como campanhas de trânsito em que alunos multam simbolicamente os próprios pais — e, sobretudo, a qualificação docente por meio de congressos e seminários anuais. “A escola particular é um empreendimento, mas o nosso produto, quem entrega, é o professor. Então a gente tem que cuidar deles”, pontuou.
O descompasso legislativo e a urgência de uma política de Estado
Ao confrontar as diretrizes educacionais do país com modelos internacionais consolidados, Djalma lamentou a ausência de um planejamento suprapartidário de longo prazo. Citando exemplos de nações como Coreia do Sul, Finlândia e Estônia, ele observou que o salto de desenvolvimento desses países decorreu de planos com vigência de três décadas, imunes a oscilações partidárias.
“Aquilo era uma política de Estado, não uma política de governo. Nós não. O Brasil não”, criticou o dirigente, apontando que as sucessivas alterações nas Leis de Diretrizes e Bases (LDB) frequentemente cedem a pressões ideológicas e deixam em segundo plano o rigor acadêmico essencial.
“Ninguém estava preocupado se a criança ia chegar no final do ensino fundamental lendo, interpretando texto, escrevendo e fazendo conta. Queria militar, queria impor uma política ideológica. E o Congresso é omisso, aceita porque não quer ser cancelado. Mas o legislador muitas vezes não conhece uma sala de aula, não sabe como se alfabetiza uma criança, nem o caminho que tem que ser feito para que ela atinja a maturidade cognitiva”.
Esse distanciamento, segundo ele, também se manifesta em projetos oportunistas que ganham tração após momentos de comoção pública, como propostas que tentaram exigir detectores de metal e seguranças armados em escolas infantis: “É um absurdo. Aí você precisa da representação sindical e da Federação Nacional em Brasília para articular com os deputados e evitar que tais propostas sequer cheguem ao plenário”.
A ilusão digital e o abismo entre informação e conhecimento
Um dos pontos mais reflexivos da entrevista recaiu sobre o impacto dos dispositivos móveis e da internet no desenvolvimento dos estudantes. Djalma manifestou apoio irrestrito às normas que restringiram os aparelhos nos colégios, relatando que a transição foi pacífica até o 9º ano, mas ainda demanda estratégias ativas de convencimento no Ensino Médio, onde a juventude resiste em abrir mão da conexão instantânea.
Para o educador, a facilidade de acesso propiciada pelos mecanismos de busca e pela inteligência artificial gera uma falsa sensação de preparo intelectual. “Informação é diferente de conhecimento. Quando você digita no Google, a resposta aparece em segundos, mas não fica fixada. Conhecimento exige esforço intelectual para chegar à conclusão”, explicou.
Martins alertou para dados recentes que indicam um momento de inflexão inédito: a possibilidade de as novas gerações apresentarem desempenho cognitivo aquém do de seus pais pela primeira vez na história moderna. “Essa facilidade de raciocínio e a preguiça mental estão deixando a população menos informada e mais ignorante. Na nossa juventude, a brincadeira exigia criatividade e socialização; hoje, a distração é individual, fechada em uma tela”.
Diante desse isolamento, a escola tem assumido um papel terapêutico e formativo que antes pertencia ao convívio comunitário. O diretor destacou a adoção da educação socioemocional e da filosofia para resgatar o espírito de equipe: “No mundo corporativo, nenhuma profissão é exercida sozinho. Os próprios CEOs das maiores companhias do mundo hoje vêm das ciências humanas, porque liderar pessoas e unir times tornou-se mais complexo do que simplesmente gerenciar processos”.
Terceirização da paternidade e o apagão de professores
A sobrecarga que recai sobre o ambiente escolar decorre também de um recuo das próprias famílias em relação aos seus deveres basilares. “Educar dá trabalho. Fazer uma criança sair da televisão e tomar banho, ensinar que o dedo na tomada dá choque, isso é educação”, desabafou. Ele criticou a postura de pais que, respaldados pelo pagamento de mensalidades, delegam integralmente a formação moral dos filhos à instituição. “Existe a ideia de: ‘eu pago caro, vocês que se virem’. Questões como respeito ao próximo, ética, espiritualidade e limites não são da escola; são do pai e da mãe. A primeira infância exige disciplina e contorno. Essa transferência para a escola é uma luta desgastante”.
O gestor também identificou as redes sociais — com ênfase nos grupos de mensagens instantâneas de mães — como amplificadores de crises desnecessárias. “Hoje, o inferno da escola é grupo de WhatsApp de mãe. Vira um telefone sem fio. Um incidente corriqueiro entre crianças de sete anos vira um problema imenso, exigindo que a direção gaste energia desmedida para solucionar fatos que fazem parte do convívio infantil natural”.
Esse ambiente conflagrado, somado à desvalorização cultural, explica o que Djalma classifica como um “apagão de professores” no país, evidenciado pela sobra de vagas em cursos de licenciatura em instituições de ponta, como a Universidade Estadual de Maringá (UEM). A escassez, adverte ele, não é solucionada apenas por reajustes salariais:
“O Brasil é um dos países onde as famílias menos incentivam os filhos a seguir a carreira docente. Se um jovem diz em casa que quer ser professor, a resposta é: ‘pelo amor de Deus, isso não’. O problema central é a perda de status. No Japão, o único profissional para quem o imperador se curva é o professor. Aqui, o professor é agredido em sala de aula, exposto e filmado em redes sociais. Antigamente, os pais olhavam a nota ruim e cobravam o filho; hoje, apontam o dedo e cobram o professor. Enquanto não resgatarmos o respeito e a autoridade máxima do educador em sala de aula, não conseguiremos atrair novos talentos para a educação básica”.
Os desafios estruturais da inclusão escolar
Ao abordar a inclusão de estudantes neurodivergentes e com deficiências, Djalma relembrou que a decisão do Supremo Tribunal Federal de 2013, que estendeu essa obrigatoriedade às escolas privadas, transformou profundamente a rotina das instituições. O presidente do Sinepe defendeu que acolher não pode significar mera custódia física:
“A escola particular não se recusa a atender, mas acolher com qualidade exige estrutura, plano pedagógico individualizado e equipe de apoio. Colocar o aluno num canto da sala quietinho, sem incomodar, não é inclusão; é hipocrisia, porque ele não evolui. Para que haja avanço, a família precisa estar presente com seus terapeutas ocupacionais, neuropediatras e psicopedagogos”.
O dirigente apontou ainda a necessidade imperiosa de laudos médicos emitidos por especialistas habilitados para evitar distorções de diagnósticos, além de denunciar a escassez severa de tutores qualificados no mercado. “A Justiça e o Ministério Público determinam a presença de tutores, mas não há profissionais capacitados suficientes nem para a rede pública, nem para a privada. Se já falta professor para o ensino regular, imagine para o atendimento especializado”.
Djalma sustentou, inclusive, que o poder público deveria subsidiar parte desse custo extraordinário nas escolas privadas, a exemplo do que o Sistema Único de Saúde (SUS) faz no atendimento hospitalar em casos de urgência.
Ele enfatizou também o cuidado com a proporção de alunos por classe: “O Ministério da Saúde e a Educação orientam limites. Em uma sala de 25 alunos, você precisa calcular quantos estudantes com necessidades específicas pode acolher para que a dinâmica pedagógica não seja comprometida e os outros 23 não tenham sua régua rebaixada. A gestão precisa ser realista, responsável e justa com todas as crianças”.
Serviço
O episódio completo com o professor Djalma da Rocha Martins, presidente do Sinepe, está disponível no canal do Youtube do jornal Maringá Post.
Apresentação: Ronaldo Nezo
Produção de áudio e vídeo: VMark Estúdio











