A próxima quinta-feira (15) é o Dia da Conscientização sobre a Perda Gestacional e Neonatal. A data tem como objetivo lançar luz sobre uma vivência dolorosa que atinge milhares de famílias, mas que muitas vezes permanece à margem das discussões públicas e da rede social de apoio. Quando o processo da maternidade e da paternidade é interrompido de forma inesperada, o acolhimento adequado e a validação emocional tornam-se essenciais para evitar prejuízos graves à saúde mental dos pais.
Para abordar os aspectos psicológicos e os caminhos de suporte no enfrentamento dessa dor, a psicóloga perinatal Kesia Portela, pós-graduada em Saúde Mental Perinatal pela UNICIV, detalha os desdobramentos desse luto na vida da mulher e do casal.
Luto invisível
De acordo com Kesia Portela, a perda gestacional e neonatal costuma ser tratada socialmente como um “luto invisível” pelo fato de a sociedade ter dificuldade em dimensionar o vínculo estabelecido durante a gestação.
“A perda é considerada um luto invisível porque a sociedade muitas vezes reconhece pouco a existência do bebê e a dimensão do sofrimento. Quanto menor o tempo de gestação, maior a tendência de minimizarem a dor, como se a mulher tivesse perdido apenas um evento biológico e não um filho. Para aquela mãe e para a família, contudo, já existiam expectativas, planos, um nome e uma história em construção. Quando a dor é silenciada, aumentam a solidão, a culpa e o isolamento. Dar espaço para esse luto significa reconhecer a importância do que aconteceu”.
A psicóloga reforça que o luto por um bebê guarda especificidades em relação a outras perdas afetivas devido à interrupção de um futuro idealizado.
“Não se perde apenas uma pessoa, mas também o futuro planejado ao lado dela. A perda ocorre em meio a intensas transformações físicas e hormonais. No caso do luto neonatal, por exemplo, a mulher vivencia o pós-parto e as alterações corporais na ausência do filho. Não há uma forma única ou prazo determinado para elaborar essa dor”.
A desconstrução da culpa
Sentimentos de autoflagelo e busca por respostas são frequentes entre as mulheres que enfrentam o rompimento da gestação. Conforme explica a especialista, a culpa surge muitas vezes como uma tentativa inconsciente de reter controle diante de um evento imprevisível.
“Na psicoterapia, o trabalho não consiste em dizer secamente ‘você não tem culpa’. Investigamos os pensamentos que sustentam esse sentimento e diferenciamos a responsabilidade real da imaginada, incentivando a auto-compaixão. A mulher fez o melhor que podia com as informações e recursos que tinha. O objetivo é evitar que a dor se transforme em uma condenação pessoal”.
O processo também impacta a relação entre os parceiros, uma vez que a expressão do sofrimento pode ocorrer em ritmos distintos para o pai e para a mãe.
“A mulher vive um processo emocional atrelado a transformações físicas diretas. Já o pai, frequentemente, assume demandas práticas e tenta ‘ser forte’ para apoiar a companheira. O problema surge quando essa diferença é interpretada como falta de amor ou indiferença. O casal se fortalece quando entende que não precisa expressar a dor da mesma maneira, evitando transformar o sofrimento em uma disputa”.
Como acolher e buscar ajuda
Familiares e amigos desempenham papel crucial na rede de apoio, contudo, tentativas de consolação por meio de frases prontas podem intensificar o sofrimento.
“Frases como ‘você é jovem, pode tentar de novo’ ou ‘Deus quis assim’ acabam minimizando a dor. É preferível demonstrar presença de forma simples, dizendo ‘sinto muito, estou aqui’ ou ‘você pode falar sobre seu bebê comigo’. Não se deve ter medo de mencionar o bebê. Mostrar que ele não foi esquecido é uma forma valiosa de acolhimento.”
Por fim, a profissional destaca que a tristeza intensa faz parte do processo de adaptação, mas determinados sinais exigem atenção especializada.
“Sinais de alerta surgem quando o sofrimento paralisa a vida da pessoa, apresentando isolamento profundo, desesperança contínua, insônia severa, crises frequentes de ansiedade ou ausência de perspectiva de futuro. Se houver pensamentos de morte ou desaparecimento, a avaliação psiquiátrica e a psicoterapia são fundamentais. Pedir ajuda não diminui o amor pelo bebê; significa apenas que a família não precisa carregar essa travessia sozinha”.











