Clubes paulistas discutem como substituir dinheiro das bets

Fim das apostas coloca patrocínios milionários e planejamento financeiro dos clubes sob pressão
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A proibição das bets no Brasil abriu uma nova frente de preocupação para os clubes de futebol. Nesta segunda-feira (28), representantes de clubes paulistas das Séries A e B se reuniram na sede da Federação Paulista de Futebol (FPF), em São Paulo, para discutir os impactos da medida e possíveis alternativas para reduzir as perdas comerciais.

A reunião acontece poucos dias depois de o governo federal publicar a Medida Provisória nº 1.394, que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país. A medida tem efeito imediato, mas ainda depende de análise do Congresso Nacional para continuar valendo.

Entre os clubes diretamente afetados estão Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos. Os quatro grandes paulistas possuem ou possuíam contratos com empresas do setor de apostas.

O problema não está apenas no espaço ocupado pelas marcas nas camisas. As bets passaram a investir também em placas, propriedades comerciais dos estádios, ações digitais, transmissões e outras formas de exposição associadas aos clubes.

Antes da proibição nacional, Corinthians, Palmeiras e São Paulo tinham contratos que, somados, representavam cerca de R$ 350 milhões por ano em patrocínios de empresas de apostas, segundo levantamento divulgado durante as discussões sobre restrições à publicidade em São Paulo.

No Palmeiras, por exemplo, o contrato com a Sportingbet prevê R$ 100 milhões fixos por temporada, podendo chegar a R$ 170 milhões com bônus vinculados a metas. O clube, neste momento, aguarda a evolução da discussão da medida provisória antes de definir os próximos passos.

A questão jurídica também preocupa. Especialistas ouvidos sobre o assunto avaliam que contratos podem conter cláusulas específicas para situações em que mudanças na legislação impeçam a atividade das empresas patrocinadoras. Há também casos em que clubes receberam antecipadamente valores previstos em contratos, o que pode gerar discussões sobre eventuais devoluções.

O impacto, porém, não se limita aos quatro grandes.

A reunião desta segunda-feira envolve clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro. São Paulo possui seis equipes na elite nacional — Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Mirassol e Red Bull Bragantino — e quatro na Série B: Botafogo-SP, Novorizontino, Ponte Preta e São Bernardo.

Antes mesmo da proibição nacional, os clubes paulistas já haviam se organizado para discutir o assunto. Em 11 de setembro, Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo e Juventus participaram de uma reunião na FPF com representantes de empresas de apostas. Na ocasião, a preocupação estava concentrada em projetos que pretendiam restringir a publicidade das bets na cidade de São Paulo.

Agora, a discussão é mais ampla: como substituir uma fonte de receita que cresceu rapidamente nos últimos anos.

Uma das dificuldades está justamente no tamanho dos contratos. O mercado de apostas passou a ocupar um espaço importante no futebol brasileiro em pouco tempo, elevando o valor das propriedades comerciais dos clubes.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Em 2025, os patrocínios de empresas de apostas aos clubes da Série A somaram aproximadamente R$ 1,03 bilhão, segundo levantamento citado em estudo sobre o mercado. O valor representava 7,2% das receitas totais dos clubes da primeira divisão naquele ano.

Isso não significa que os clubes perderão 7,2% de suas receitas imediatamente. O impacto varia de acordo com cada contrato e com o peso das apostas na estrutura comercial de cada equipe.

O desafio agora será encontrar empresas de outros setores dispostas a ocupar os espaços deixados pelas bets e, principalmente, manter valores próximos aos contratos que estão sendo encerrados ou ameaçados pela nova legislação.

A FPF e os clubes também discutem uma possível interlocução com o governo federal. Uma reunião com representantes do governo chegou a ser cogitada para esta terça-feira (29), mas ainda não havia confirmação.

Enquanto isso, a MP estabelece um período de transição. As empresas têm até 5 de outubro para retirar materiais publicitários e de patrocínio em meios físicos e publicidade exterior. A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos de apostas deverão sair do ar.

Para o futebol paulista, portanto, a questão deixou de ser apenas encontrar um novo patrocinador para a camisa. Os clubes terão de reorganizar contratos, propriedades comerciais e planejamento financeiro em um mercado que, até poucos dias atrás, tinha as empresas de apostas entre seus principais investidores.