“Agora eu posso falar que eu ‘tô’ rica.” A frase é de Cícera Oliveira, 74 anos, ao contar como se sente depois de começar a aprender a ler e escrever. Moradora de Maringá, ela passou a maior parte da vida sem conseguir decifrar palavras em livros, placas ou letreiros de ônibus.
Na infância, Cícera não frequentou a escola. Ela cresceu em uma família de sete filhos e conta que o pai não considerava os estudos necessários. Décadas depois, a oportunidade de aprender apareceu por meio do incentivo de uma professora que conheceu na igreja.
No começo, Cícera duvidou que conseguiria. “Eu falei ‘mas eu já tô velha’. Aí ela falou: ‘Não, para aprender não tem idade’.”
Hoje, situações que antes exigiam ajuda de outras pessoas começam a fazer parte da rotina. Ela consegue reconhecer informações escritas em livros e identificar ônibus. Para Cícera, aprender a ler também significa deixar para trás uma dependência que a acompanhou por anos.
“Não sou mais aquela pessoa que via um livro, via ônibus e não sabia”, conta.
A história de Rosa Pereira, também de 74 anos, é parecida. Na infância, ela queria estudar, mas conta que o pai não permitia que frequentasse a escola. Ela lembra que chorava por não poder aprender a ler e escrever.
Com a ajuda de outras pessoas, Rosa conseguiu aprender a escrever o próprio nome e o sobrenome para se casar. A leitura, porém, continuou sendo um sonho.
“Agora eu tenho toda oportunidade de estudar, porque o sonho da minha vida é aprender a ler e escrever”, afirma.
Aos 74 anos, ela passou a praticar a leitura também em casa. O contato com as primeiras palavras trouxe uma sensação que ela compara ao aprendizado de uma criança.
“Fiquei tão feliz! Eu me sinto assim, que nem aquelas crianças quando começam a dar o primeiro passinho.”
Alfabetização na vida adulta
Para quem passou décadas sem dominar a leitura, atividades comuns podem representar obstáculos. Ler um documento, identificar uma informação, compreender uma bula de remédio ou simplesmente saber qual ônibus pegar são situações que podem depender da ajuda de outra pessoa.
A alfabetização muda essa relação com o cotidiano ao ampliar a autonomia para lidar com informações escritas e tomar decisões sem depender constantemente de terceiros.
Segundo Janaína Mourão, especialista em neurociência e diretora pedagógica do IntraAct Brasil, esse aspecto precisa ser considerado ao tratar da alfabetização de adultos e idosos.
“Quando ouço as histórias dessas senhoras e tudo o que elas vivenciaram, penso que chegou o momento delas poderem olhar para si e alcançar algo que é básico para a dignidade humana: saber ler e escrever”, afirma.
EJA em Maringá
Maringá conta atualmente com 43 turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), distribuídas em 12 unidades de ensino.
Desde junho de 2026, cerca de 272 jovens, adultos e idosos foram atendidos pela modalidade no município. Desse total, 146 têm 60 anos ou mais.
O analfabetismo ainda atinge milhões de brasileiros, principalmente entre as pessoas mais velhas. Segundo o IBGE, 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever um bilhete simples em 2025.
Entre eles, 4,9 milhões tinham 60 anos ou mais, o equivalente a 58% da população analfabeta.


















