Durante décadas, o rádio AM esteve entre os principais companheiros dos motoristas brasileiros. Notícias, esportes, prestação de serviço e programas populares eram acompanhados diariamente dentro dos carros.
Esse cenário está mudando. E o próprio automóvel passou a fazer parte dessa transformação.
Alguns veículos novos já não oferecem receptor para a faixa AM. A mudança não ocorre em todos os modelos, mas é uma tendência observada no mercado. Há veículos que mantêm AM/FM, enquanto outros passaram a oferecer apenas FM, Bluetooth, USB e integração com smartphones.
Um dos exemplos é o Volkswagen Polo Track, lançado no Brasil sem receptor AM. A retirada do AM também já ocorreu em modelos de fabricantes internacionais, especialmente em veículos elétricos e híbridos.
Existe uma razão técnica para parte dessa mudança. O sinal AM é mais suscetível a determinados tipos de interferência eletromagnética. Em veículos eletrificados, motores e outros sistemas podem gerar interferências que dificultam a recepção do sinal.
Mas seria incorreto atribuir o declínio do rádio AM somente aos automóveis.
No Brasil, existe há anos um processo oficial de migração das emissoras AM para a faixa FM. O Ministério das Comunicações explica que a mudança permite que emissoras que atendam aos requisitos regulamentares deixem a faixa AM e passem a transmitir em FM. A programação da rádio não precisa ser alterada por causa da mudança de frequência.
A diferença entre as duas tecnologias também ajuda a explicar o movimento. O AM pode alcançar distâncias maiores em determinadas condições, mas é mais suscetível a interferências. O FM, por sua vez, normalmente oferece melhor qualidade de áudio e menor suscetibilidade a determinados tipos de interferência.
O mercado automobilístico acompanha essa transformação.
As centrais multimídia dos veículos passaram a concentrar diferentes formas de consumo de áudio. Além do rádio tradicional, o motorista pode ouvir emissoras pela internet, aplicativos de música, podcasts e plataformas digitais.
Isso muda a relação do motorista com o rádio. Antes, bastava girar um botão ou apertar uma tecla para escolher uma emissora AM. Hoje, parte dos consumidores utiliza o telefone celular conectado ao sistema multimídia do veículo.
A retirada do receptor AM, portanto, pode acelerar uma mudança que já estava acontecendo.
Para as emissoras que permanecem no AM, entretanto, existe um problema adicional: o carro sempre foi um dos ambientes mais importantes para o consumo de rádio. Se uma parcela dos veículos novos deixa de receber AM, parte da audiência potencial deixa de ter acesso ao sinal pelo aparelho tradicional.
O fenômeno também pode atingir emissoras que possuem forte ligação histórica com informação local, jornalismo, esportes e prestação de serviços.
Por outro lado, a tecnologia não significa necessariamente o desaparecimento da emissora. Uma rádio que migra para FM pode continuar transmitindo a mesma programação. Também pode ampliar sua presença por aplicativos, sites e plataformas digitais.
A própria regulamentação brasileira vem acompanhando essa transformação. Em 2026, a Anatel manteve a faixa de FM entre as frequências destinadas à radiodifusão sonora e estabeleceu regras para a utilização do espectro.
O que está desaparecendo, portanto, não é necessariamente o conteúdo produzido pelas rádios AM. O que está mudando é o caminho utilizado pelo ouvinte para chegar até esse conteúdo.
Para quem nasceu ouvindo rádio no carro, a mudança pode parecer pequena. Para o setor de radiodifusão, porém, ela representa uma transformação importante: o automóvel, que durante décadas ajudou a sustentar o rádio AM, pode estar se tornando um dos lugares onde a tecnologia deixa de existir.
A pergunta agora é quanto tempo levará para que o receptor AM se torne exceção nos veículos novos e quais emissoras conseguirão preservar sua audiência por meio da migração para FM e das plataformas digitais.




















