Jovens já não veem a CNH como prioridade em Maringá

Para uma geração que cresceu com aplicativos de transporte, carro deixou de ser sinônimo obrigatório de independência
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Durante décadas, completar 18 anos significava, para muitos jovens, iniciar uma nova etapa: tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), conseguir o primeiro carro e conquistar autonomia para estudar, trabalhar e circular pela cidade. Em Maringá, esse comportamento começa a mudar.

A percepção de autoescolas e de pessoas que estão na faixa etária em que tradicionalmente se buscava a primeira habilitação é de que a CNH perdeu espaço entre parte dos jovens. O fenômeno, entretanto, não significa que eles tenham deixado de dirigir ou que a carteira tenha perdido sua importância profissional.

Dados históricos do Detran-PR mostram que, em 2016, Maringá registrou 5.723 processos concluídos de primeira habilitação. A autarquia, porém, não disponibiliza atualmente, em sua base pública consultada, uma série municipal recente que permita calcular com segurança a queda percentual da procura pela primeira CNH na cidade.

No Paraná, o movimento de longo prazo também chama atenção. O número de primeiras habilitações expedidas no Estado passou por oscilações importantes nos últimos anos, enquanto o Detran-PR aponta uma redução de 24% nas CNHs definitivas emitidas entre 2010 e 2024. Entre os fatores relacionados às mudanças no comportamento dos motoristas estão os aplicativos de mobilidade, outros meios de transporte e os custos associados à manutenção de um veículo.

Em Maringá, o custo e a praticidade aparecem nas decisões dos jovens.

O autônomo Luiz Gustavo, 23 anos embora tenha CNH, resume uma das razões para não considerar o carro uma prioridade.

“É muito mais ágil e econômico circular de aplicativo do que manter um carro, com várias de suas despesas, incluindo a dificuldade de estacionar no centro de Maringá.”

A mudança também está relacionada às prioridades financeiras.

O universitário Leopoldo Gonçalves,  que cursa psicologia e está em fase de estágio afirma que a decisão não está ligada apenas à possibilidade de comprar um automóvel.

“Não é só uma questão de ter ou não recursos para comprar um carro. Hoje priorizo poupar para montar um consultório.”

A escolha mostra que a CNH passou a ser avaliada de acordo com a necessidade individual. Para alguns jovens, ter a carteira continua sendo importante. Para outros, ela pode esperar enquanto outros objetivos são considerados mais urgentes.

É o caso de Maria Rita, graduanda de turismo. Ela considera a habilitação um diferencial profissional porque trabalha com carteira assinada e a empresa disponibiliza um carro para o atendimento de clientes externos.

“A busca pela CNH me torna mais competitiva no mercado de trabalho”, afirma.

Mesmo assim, Maria Rita diz que, se a decisão dependesse exclusivamente dela, provavelmente não teria tirado a carteira neste momento.

“Se dependesse exclusivamente de mim, não teria a CNH porque não posso ter um bom carro. Os de menor preço dão muita manutenção.”

A diferença em relação às gerações anteriores está justamente nessa relação entre carteira e automóvel. No passado, tirar a CNH frequentemente vinha acompanhado da expectativa de comprar um carro. Para parte dos jovens atuais, as duas decisões podem ser completamente separadas.

A expansão dos aplicativos de transporte também mudou essa equação. O usuário paga pelo deslocamento quando precisa, sem assumir despesas permanentes como seguro, combustível, manutenção, impostos, estacionamento e depreciação.

Isso não significa que a CNH tenha perdido valor. Em determinadas profissões, ela continua sendo requisito ou vantagem para conseguir emprego. A própria experiência de Maria Rita mostra que a habilitação pode representar uma vantagem concreta no mercado de trabalho.

O que parece estar mudando é o significado da carteira. Para uma parcela dos jovens, ela deixou de ser um símbolo obrigatório de entrada na vida adulta e passou a ser uma ferramenta utilizada quando existe uma necessidade específica.

Em vez de perguntar apenas “quando vou tirar minha carteira?”, uma nova geração parece estar fazendo outra pergunta: “eu realmente preciso dela agora?”.