“Consultor Ambiental”: maringaense retrata o setor com humor

“O Guardião do Tempo”, obra que mistura humor ácido e sátira para discutir a gestão ambiental no Brasil
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A área ambiental é conhecida por sua rigidez técnica, pareceres intermináveis e uma burocracia que muitas vezes desafia a lógica cotidiana. No entanto, por trás dos volumes de processos administrativos e das leis construídas na década de 1980, existem histórias inusitadas, conflitos e contradições que raramente chegam às teses acadêmicas. É esse universo invisível que o geógrafo José Roberto F. Behrend decidiu traduzir no livro “Consultor Ambiental – O Guardião do Tempo”.

O lançamento será na próxima terça-feira (3),  às 19h, na Galeria Cidade Aruna, em Maringá. A  obra utiliza crônicas, humor ácido e sátiras para provocar risadas e, sobretudo, discussões sobre a necessidade urgente de modernização da gestão ambiental.

Em entrevista ao Maringá Post, Behrend compartilhou o que motivou a publicação, relembrou os bastidores de sua trajetória e explicou como o humor pode ser a chave para desatar os nós da burocracia.

A “vida como ela é” no setor ambiental

A ideia de registrar a rotina do setor não nasceu em uma sala de aula ou em um escritório de consultoria, mas em um momento de pausa informal. “A ideia do livro começou em 2017, durante as comemorações dos 25 anos do IAP (Instituto Ambiental do Paraná). Em meio às formalidades oficiais, começaram aquelas conversas de mesa, os acontecimentos e os casos vividos ao longo dos anos. Foi ali que pensei: ‘tem muita história aqui’”, revela o geógrafo.

Ao longo de sua carreira, Behrend percebeu que o público em geral — e até mesmo novos profissionais — não tem a exata dimensão do dia a dia de quem atua na fiscalização e no licenciamento. “Existe todo um universo da gestão ambiental que não aparece nos livros técnicos ou nas teses de doutorado. São situações envolvendo pessoas, empresas, servidores, consultores, interpretações e decisões difíceis. O livro nasceu dessa vontade de reconhecer o que funciona, expor o que não funciona e buscar novas formas de trabalhar.”

Da formiga à usina nuclear

Ao ser questionado sobre as situações mais desafiadoras registradas nas páginas da obra, José Roberto resume o cotidiano da profissão com uma frase emblemática: “Eu costumo dizer que começo o dia discutindo o atropelamento de uma formiga e termino falando sobre a instalação de uma usina nuclear. Em um mesmo dia, discutimos arborização urbana, fauna, resíduos, água, esgoto e grandes obras de infraestrutura. Cada situação exige respostas com diversas variáveis tecnicamente possíveis.”

O autor enfatiza que o livro resgata a dimensão humana e a responsabilidade social que acompanham cada parecer técnico. “Às vezes estamos analisando uma condicionante ou um documento simples, mas aquela decisão interfere diretamente na implantação de uma infraestrutura, no desenvolvimento de uma cidade e na vida das pessoas. O livro mostra o que não aparece nos autos: as dúvidas, os conflitos e as pessoas por trás de cada papel.”

O humor como ferramenta 

Tratar de normas, multas e processos contrasta com a proposta bem-humorada da obra. No entanto, para Behrend, o humor ácido e a sátira cumprem a mesma função do RIMA (Relatório de Impacto Ambiental) em relação ao EIA (Estudo de Impacto Ambiental): a de traduzir o conhecimento complexo para a sociedade. “A área ambiental é uma sopa de letrinhas e carrega o estigma de ser excessivamente técnica. O humor permite retirar determinados assuntos de uma linguagem burocrática e colocá-los onde as pessoas conseguem reconhecer. A sátira mostra uma contradição sem precisar apontar o dedo para ninguém. Rir não diminui a importância da questão; é uma ferramenta para aproximar as pessoas e discutir problemas reais abertamente.”

Olhando para a frente, o geógrafo ressalta que o setor vive o dilema de integrar tecnologias como Inteligência Artificial e automação a uma legislação com bases na década de 1980. Para ele, a principal mensagem para veteranos e novatos é a de que há muito trabalho pela frente.

“Para quem está entrando na área, o livro ajuda a entender onde está se metendo. Para quem já está há anos, espero que provoque identificação e reflexões. É uma profissão cheia de desafios, às vezes frustrante, imprevisível, mas extremamente apaixonante”, conclui.

Serviço – Lançamento do livro “Consultor Ambiental – O Guardião do Tempo”, de José Roberto F. Behrend – Terça (3),  19h  – Galeria Cidade Aruna – Maringá