Quem conta a história de Maringá? Miguel Fernando fala sobre mitos, arquivos esquecidos e a identidade da cidade no Ponto a Ponto

Idealizador do Maringá Histórica desmistifica o passado pioneiro, detalha a gênese da Companhia Melhoramentos e explica como transformou a pesquisa histórica em uma rede que alcança 1,5 milhão de pessoas por dia.
Foto: VMark Vídeo
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Maringá — A reconstituição do passado de uma cidade exige afastar o verniz da narrativa oficial para compreender as forças econômicas, as tensões sociais e os personagens anônimos que moldaram o território. Essa foi a tônica da entrevista concedida pelo historiador, pesquisador e documentarista Miguel Fernando ao podcast Ponto a Ponto, veiculado pelo portal Maringá Post e gravado no VMark Estúdio sob a condução do jornalista Ronaldo Nezo.

Com duas décadas dedicadas à pesquisa documental e iconográfica, Fernando é o criador do Maringá Histórica e fundador da empresa Cidades Históricas, plataforma que expandiu o modelo para centros como Londrina, Curitiba, Ponta Grossa, Cascavel, São Paulo e Rio de Janeiro. Ao todo, a rede interage diariamente com cerca de 1,5 milhão de pessoas nas mídias digitais.

Durante o bate-papo, o pesquisador detalhou a transição do antigo blog criado em 2006 — motivado pela falta de dados locais nos primórdios da internet — para uma estrutura profissional com mais de 7 mil artigos publicados sobre Maringá, além de livros e documentários de circulação nacional e internacional.

A gênese corporativa: uma cidade que nasceu como produto

Ao analisar a identidade urbana e os debates contemporâneos sobre o custo do metro quadrado na cidade, Miguel Fernando sustentou que a compreensão do presente depende de reconhecer o modelo fundacional do município.

“Quando você olha para o passado, Maringá foi um projeto imobiliário, não foi uma cidade. Ela nasce como um projeto imobiliário, não foi uma cidade que foi se constituindo por comunidades se conectando. E por essa razão a gente tem o ônus e o bônus. O ônus tem um preço por isso, que é a qualidade de vida”, afirmou o historiador.

O pesquisador explicou que o traçado concebido pelo urbanista Jorge de Macedo Vieira, influenciado por preceitos modernistas e pelo conceito de cidade-jardim, integrava uma estratégia de valorização desenhada pela Companhia Melhoramentos Norte do Paraná — a antiga Companhia de Terras Norte do Paraná.

“A Companhia lançou e constituiu 63 cidades no norte e noroeste do Paraná. É bem provável que tenha sido a maior ou uma das maiores empresas agro-imobiliárias da América do Sul. Maringá foi a grande cereja do bolo, porque representava a fase paulista da empresa, quando ela foi adquirida dos britânicos em 1944. Eles queriam uma cidade que funcionasse como cartão de visitas, com ruas curvas que respeitavam a topografia, avenidas largas, grandes praças e parques integrados”, pontuou.

A desmistificação do Eldorado e a vida rural esquecida

Questionado sobre as figuras anônimas que ergueram a comunidade, Fernando rebateu a visão idealizada que retrata os primeiros tempos do município como uma era pacata e de ascensão financeira imediata para todos os recém-chegados.

“Eu acho fantásticas as histórias das pessoas que não deram certo, porque elas representam, na verdade, a maioria da população. Havia favelas em Maringá, ocupações irregulares e a criminalidade era muito alta, com assassinatos e o que hoje chamaríamos de crimes hediondos. Como era uma cidade divulgada no Brasil e no mundo, naturalmente atraía pessoas boas e pessoas más. Seria estranho se Maringá fosse diferente”, destacou.

O documentarista ressaltou ainda o silêncio documental que cerca a zona rural, onde vivia a maior parcela da população até a década de 1970. Entre os relatos recolhidos, citou a trajetória de dona Kazuko, moradora que chegou à região em 1939, antes mesmo do surgimento do núcleo urbano do Maringá Velho.

“Ela me contou como era cruzar a pé ou de charrete o que hoje é o Jardim Alvorada, saindo da Gleba Guaiapó até chegar à estrada reta, que hoje é a Avenida Morangueira, para alcançar o centro. Quando converso com pessoas dessa época, percebo que a gente perdeu um pouco a noção do que de fato é dificuldade. O mundo de hoje tem problemas, mas é infinitamente melhor do que era no passado”, comparou.

Museologia social e a lógica da cauda longa

Na comunicação digital, Miguel Fernando defendeu a aplicação da “museologia social”, conceito que rompe as barreiras físicas dos museus para entregar acervo e contexto histórico diretamente nas telas dos usuários. O retorno do público, segundo ele, abastece a pesquisa com 50 a 70 mensagens diárias contendo fotografias raras e correções colaborativas.

O pesquisador também explicou por que rejeita estratégias baseadas em tendências superficiais para inflar números:

“Nós poderíamos ter muito mais visualizações entrando em ondas de conteúdos curtíssimos. Mas 99,9% das vezes o nosso foco é entregar a história com seriedade. Marcas consolidadas enxergam muito mais valor nisso. A entrega informal tem cauda curta: tem milhares de curtidas hoje e nunca mais é vista. Um conteúdo histórico com 500 visualizações hoje continua sendo assistido daqui a dez anos. No YouTube, nós mantemos uma retenção média de 12 minutos falando sobre história local para mais de 100 mil pessoas por dia em Maringá”, explicou.

Essa postura técnica reflete-se na relação com anunciantes. “Quando uma empresa nos procura, a primeira pergunta que faço é se ela quer um material comercial. Se quiser, indico uma agência de publicidade. Conosco, a marca se ancora em um produto de relevância histórica, sem interferir no roteiro nem na abordagem documental”, frisou.

Gestão pública, burocracia e a educação de base

Ex-secretário municipal de Cultura de Maringá, Fernando avaliou as amarras estruturais que travam a gestão pública e encarecem compras governamentais sob a justificativa de mecanismos formais de controle: “O Brasil é um país extremamente burocratizado que busca uma transparência por um mecanismo que inviabiliza a sustentabilidade financeira. Um copo que custa 10 reais no mercado comum acaba saindo por 40 em uma licitação devido ao custo dos processos incorporados”.

Para o encerramento, o historiador defendeu uma reformulação profunda no sistema educacional, priorizando o ensino da história local para despertar a cidadania nas novas gerações.

“O ponto de partida é aproximar o jovem do lugar onde ele vive. Como dizia Victor Hugo, as pessoas moram nas cidades, não em uma nação ou em um estado abstrato. A gente precisa conhecer a história da nossa rua, do nosso bairro e do município antes de ir para o geral. Se o jovem entende o esforço que custou erguer a praça ou o monumento da esquina dele, ele não depreda o patrimônio público e aprende a valorizar os próprios avós”, concluiu.

Serviço

O episódio completo do podcast com Miguel Fernando está disponível no canal do Youtube do jornal Maringá Post.