Eles também fazem isso: a China sobretaxa o Brasil

hina impõe 55% sobre carne que exceder a cota, enquanto EUA também elevam tarifas sobre produtos brasileiros
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A China, parceira estratégica do Brasil e um dos principais destinos das exportações brasileiras, também utiliza tarifas para proteger seu mercado. A partir de outubro, a carne bovina brasileira que ultrapassar a cota estabelecida por Pequim estará sujeita a uma sobretaxa adicional de 55%.

A regra não surgiu agora. A China criou uma salvaguarda para as importações de carne bovina, estabelecendo cotas para os principais países fornecedores. Para o Brasil, a cota anual foi fixada em 1,106 milhão de toneladas. Dentro desse limite, permanece a tarifa normal de 12%. Acima dele, entra a sobretaxa de 55%.

O Brasil atingiu 100% da cota em 29 de setembro. Com isso, a cobrança adicional começa a valer para os embarques que excederem o limite estabelecido.

É aqui que a comparação com os Estados Unidos ganha força.

O governo Donald Trump também utiliza tarifas para restringir ou encarecer a entrada de produtos brasileiros. Em julho, os Estados Unidos estabeleceram uma sobretaxa de 25% para determinados produtos brasileiros, após uma investigação comercial conduzida pela USTR.

No caso americano, as medidas podem chegar a 37,5% para determinados produtos alcançados simultaneamente por duas sobretaxas. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estavam alcançadas pelas novas sobretaxas decorrentes das investigações da Seção 301.

Na China, a justificativa é a proteção do mercado doméstico de carne. Nos Estados Unidos, Washington aponta práticas comerciais brasileiras que considera prejudiciais ou restritivas ao comércio americano. São justificativas diferentes, mas o instrumento econômico é semelhante: aumentar o custo do produto estrangeiro.

E há uma questão que merece debate.

Se a tarifa americana contra produtos brasileiros é apresentada como uma barreira comercial quando parte de Washington, o que dizer quando uma medida semelhante vem de Pequim?

A China pode ser uma parceira estratégica do Brasil. É também um dos maiores compradores de produtos brasileiros. Mas parceria comercial não significa ausência de conflito de interesses.

Na prática, cada país defende seus produtores, sua indústria e seus interesses comerciais.

É justamente por isso que a sobretaxa chinesa merece ser observada com a mesma atenção dada às tarifas americanas.

A discussão não deveria ser sobre qual país é “amigo” ou “inimigo” do Brasil.

Deveria ser sobre uma questão mais simples: quando grandes economias utilizam tarifas para proteger seus próprios mercados, quem acaba pagando parte dessa conta?

No caso da carne bovina, a resposta inicial é o exportador brasileiro. Se a sobretaxa reduzir a margem ou tornar o produto menos competitivo, frigoríficos terão de buscar compradores em outros mercados, negociar preços ou reduzir o ritmo dos embarques para a China.

A China continua sendo um mercado fundamental para o Brasil. Mas o episódio da carne mostra que dependência comercial também cria riscos.

E talvez essa seja a parte mais importante do debate: na política internacional, não existem parceiros comerciais que deixem de defender os próprios interesses.

Nem mesmo os mais próximos.