Neste domingo (04) acontecem as eleições de 2026 em todo o país. Diante deste contexto, o portal reuniu especialistas para conscientizar leitores e população geral da importância do voto consciente.
De segunda a sexta, o Maringá Post vai publicar vídeos e reportagens especiais sobre o assunto. Já no dia da votação, o portal fará uma cobertura especial.
A operação no dia 04 de outubro contará com reportagens em tempo real no site, bastidores nas redes sociais e uma live especial em vídeo no YouTube, cobrindo a escolha para os cargos de governador, senador, deputados federais e estaduais, além da disputa para a Presidência da República.
O primeiro participante desta série é o sociólogo Joel Cavalcante. Cavalcante é Doutor em Educação pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (2021). Graduado e mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (2008/2013).
Riscos do voto afetivo
Para além das propostas e do histórico dos candidatos, a escolha do eleitor brasileiro ainda passa, em muitos casos, pela identificação pessoal e emocional. É o que avalia Joel Cavalcante, ao analisar a relação entre cultura política, comportamento eleitoral e amadurecimento democrático no país.
Segundo ele, a identificação com a personalidade de um candidato pode pesar mais na decisão do eleitor do que o conhecimento sobre suas propostas ou sobre sua atuação em áreas como educação, saúde e cultura.
“Se a gente for parar para pensar, a maioria das pessoas não sabem dizer a proposta dos seus candidatos, o que os seus candidatos fizeram”, afirma.
Para Cavalcante, uma forma de avaliar o nível de conhecimento do eleitor sobre sua própria escolha é questionar o que determinado candidato fez em diferentes áreas da administração pública e qual é o histórico político dele. Quando o eleitor não consegue responder a essas questões, segundo o cientista político, pode haver uma escolha baseada principalmente na identificação com a figura do candidato.
“É muito provável que ela esteja ali votando por uma identificação personalística”, diz.
O peso do personalismo
A análise está relacionada a uma característica histórica da cultura política brasileira: o personalismo. Na avaliação de Cavalcante, parte dos eleitores não escolhe seus representantes a partir de um projeto de sociedade, de um programa ou de uma orientação ideológica, mas pela identificação com a pessoa que disputa a eleição.
“Eles não votam ali por um projeto de sociedade, por um programa, por uma raiz programática, por uma base ideológica, e sim por uma identificação, como eu disse, afetuosa, muitas vezes”, afirma.
O cientista político também relaciona esse comportamento ao conceito de “homem cordial”, formulado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. A expressão, explica, não deve ser entendida simplesmente como sinônimo de gentileza.
A palavra “cordial” vem de cordis, do latim, relacionada ao coração. Nesse sentido, a ideia está associada à ação guiada pelos sentimentos e pela esfera pessoal, e não necessariamente à racionalidade ou à formalidade das relações.
Cavalcante ressalta que essa característica não pode ser aplicada indistintamente a todos os eleitores. Para ele, trata-se de uma questão relacionada à própria formação da cultura política brasileira.
Democracia para além do voto
Na avaliação do entrevistado, o amadurecimento democrático depende também de uma maior formação política dos cidadãos. Isso envolve conhecer as pautas dos candidatos, seu histórico de atuação e suas posições ideológicas e programáticas antes de tomar uma decisão eleitoral.
“Aí sim a gente vai amadurecer para uma sociedade verdadeiramente democrática”, afirma.
Para Cavalcante, a democracia não depende apenas da existência de instituições e de uma Constituição que estabeleça direitos e garantias. Ela também exige uma cultura democrática entre os cidadãos.
Isso inclui, segundo ele, a capacidade de aceitar o resultado das eleições mesmo quando o candidato escolhido pelo eleitor não vence. O respeito ao voto, ao contraditório e às regras do processo democrático faria parte desse processo de amadurecimento.
“É saber respeitar a democracia, respeitar o voto, respeitar o contraditório, respeitar as regras do jogo e legitimar o seu adversário como legítimo”, afirma.
A construção dessa cultura, avalia Cavalcante, ainda ocorre de forma gradual no Brasil. Para ele, por isso, o debate sobre comportamento eleitoral e formação cidadã precisa continuar presente na sociedade.




















