De panfleteiro a uma multinacional de tecnologia: Clemilson Correia relata superação, aposta na legalidade e avanço da IA no Ponto a Ponto

Foto: VMark Estúdio / Maringá Post
Foto: VMark Estúdio / Maringá Post
Tempo de leitura: 6 min

Maringá — A trajetória de quem transformou a escassez material da juventude em combustível para liderar uma multinacional de inteligência tecnológica é o tema do novo episódio do podcast Ponto a Ponto, veiculado pelo portal Maringá Post em parceria com o VMark Estúdio. Em entrevista ao jornalista Ronaldo Nezo, o empresário, mentor e palestrante Clemilson Correia reconstitui os 30 anos de uma jornada que começou nas calçadas de Maringá como panfleteiro e monitor de estacionamento rotativo, até consolidar a Buysoft entre as companhias de crescimento mais veloz das Américas, com presença destacada em rankings do Financial Times.

Logo no início da conversa, Correia fez questão de desmistificar a narrativa de sucesso instantâneo amplamente difundida no ambiente digital: “A gente vive uma época em que nas redes sociais se conta uma inverdade de que você pode dormir pobre e amanhã acordar rico, com pequenas ações. Isso não é fato. A vida comum, qualquer transformação séria, acontece com o tempo”. O empresário sintetizou sua visão de negócios em uma fórmula própria: “Para mim, o sucesso tem a variável do tempo, a variável da fé — que é a convicção humana de continuar acreditando no seu projeto mesmo em meio à turbulência — e o amor. Amor é decisão e compromisso racional, não apenas sentimento. Se você une fé, amor e tempo, não tem outro caminho senão alcançar o objetivo”.

A disciplina do Seu Arlindo e o primeiro contato com a tela verde

A infância em uma residência modesta foi marcada pela cobrança austera do pai, o mestre de obras Arlindo Correia, que via na educação a única rota de emancipação para a família. “O Seu Arlindo dizia para a minha mãe: ‘às três da tarde, coloque cada filho em um cômodo com a tabuada’. A nossa casa era pequena, e restava para mim o banheiro. Eu ia para o banheiro, trancava a porta e ficava estudando a tabuada”, relatou Clemilson.

Ao retornar do trabalho braçal, o pai tomava a tabuada de forma aleatória e punia os erros com rigor: “Ele estava me dando uma das maiores lições que hoje conto para todo mundo: quem tem informação manda no mundo. Ele estava preparando os filhos para isso. Eu nunca passei fome, mas nunca tive nada além do básico. E aprendi que a condição na qual você está é sempre transitória; a essência é o que permanece”.

Aos 15 anos, após atuar na distribuição de folhetos, Correia conquistou a primeira vaga formal como atendente da Zona Verde. A virada vocacional ocorreu por acaso, ao aceitar um minicurso gratuito de informática: “Era um computador XT na época, tela verde, não existia mouse, os teclados eram duros. Eu me apaixonei de tal forma que desenhei uma tela com a minha própria imagem saindo dela. Enquanto meus amigos estavam nas baladas, eu estava vidrado no computador. Eu não sabia, mas estava conhecendo o instrumento que transformaria a minha vida”.

Para prosseguir nos estudos técnicos, o jovem tomou uma decisão financeira drástica: “Na Zona Verde eu ganhava 50 reais, e o curso custava 27 reais por mês. Era mais da metade do meu salário. Se nós não investirmos em nós mesmos, ninguém vai fazer isso”. Dedicado, tornou-se monitor da escola, substituiu professores de última hora e passou a lecionar, abandonando a função nas ruas para dominar editoração eletrônica, design gráfico e montagem de computadores.

Da humilhação nos classificados a uma carreira de 12 anos

Antes de ingressar definitivamente na área técnica, Clemilson viveu uma das experiências mais marcantes de rejeição no mercado de trabalho. Orientado pelo pai a buscar uma vaga de office boy pelos classificados do jornal impresso, enfrentou uma fila que contornava três quarteirões: “Cheguei até a mesa de pré-seleção e a recrutadora folheou toda a minha carteira de trabalho em branco. Ela olhou para mim e disse: ‘Você nunca trabalhou? Então aqui você nunca vai trabalhar’. Eu segurei o choro na hora, sem entender por que ela havia sido tão dura”.

Anos depois, o destino colocou o empresário diante da mesma organização. Enquanto dava aulas em uma escola de tecnologia, recebeu um telefonema: “Um homem disse: ‘Clemilson, chegou às minhas mãos um jornal que você editorou. Gostei da sua pegada e queria que você trabalhasse para mim’. Era exatamente o proprietário daquela empresa. Voltei pela porta da frente e construí ali uma trajetória de 12 anos, atendendo gigantes como Microsoft, Intel e Samsung”.

A partir dessa vivência, Correia formulou uma dura crítica à passividade profissional: “A primeira ação é sair da condição de escravo da segunda-feira. Muita gente acorda reclamando do trabalho. Mude a perspectiva: você pode não gostar de todas as tarefas, mas pode amar sua carreira como uma decisão consciente. Deixe de ser escravo do lugar onde você está e passe a ser o senhor da sua evolução”.

O “deserto pessoal” e a fundação da Buysoft na sala de casa

Em 2010, após divergências estratégicas, Clemilson deixou a diretoria da empresa de informática. A saída expôs uma situação financeira crítica: “Cometi o grave erro de não fazer reserva financeira. Não tinha ativos, a não ser um carro financiado que pertencia mais ao banco do que a mim. Minha esposa estudava, tínhamos uma filha de seis anos e as contas de aluguel e alimentação batiam à porta. Ao buscar emprego, percebi que meu currículo fechava portas: as empresas menores achavam que eu era experiente demais e sequer me chamavam para entrevista”.

No limite dos recursos, entregou o veículo para quitar dívidas e estabeleceu uma meta de sobrevivência de quatro meses. Decidiu estruturar a Buysoft dentro da própria residência, apostando em um nicho que parecia fadado ao fracasso no Brasil: o comércio formal de licenças de software corporativo.

“Naquela época, a regra geral era a pirataria. O discurso comum era de que software você baixava de graça na internet e ninguém pagaria por isso. Resolvi ir na contramão: foquei exclusivamente em quem queria comprar produtos originais e legais. Eu não gastei energia tentando convencer quem preferia piratear ou sonegar; criei um canal para quem desejava atuar na conformidade”, explicou.

Trabalhando sozinho na programação do código e no atendimento comercial, o primeiro pedido entrou em 8 de setembro de 2010: “Foi uma venda de 350 reais. Quando entrou a confirmação, eu chorei muito. Lembrei da passagem bíblica da pequena nuvem do tamanho da mão de um homem, que anunciava uma grande chuva. Onze meses depois, a Buysoft superava o primeiro milhão de faturamento e eu recebia em São Paulo o prêmio nacional de revelação de vendas da Adobe”.

Escala continental e governança sem atalhos

Com sede mantida em Maringá e escritórios em São Paulo, Bogotá (Colômbia) e Cidade do México, a Buysoft atende hoje mais de 5.500 corporações ativas e cerca de 200 mil usuários em 800 cidades da América Latina. O grupo engloba ainda a fábrica de softwares Beard Rocket e iniciativas educacionais sob a marca Liga dos Empreendedores.

Ao dissecar as falhas estruturais que destroem empresas brasileiras, Correia elencou a busca por “atalhos” como a principal armadilha: “O empresário tenta ser mais esperto que as regras do jogo: abre empresa em nome de laranja para burlar enquadramento fiscal, emite meia nota ou sonega. Atalhos só geram dor de cabeça. Nenhuma companhia constrói um legado duradouro apoiada em ilegalidade ou caixa dois”.

O executivo também condenou o nepotismo amador e o descaso com métricas operacionais: “Empresa não é família. Contratação tem que ser por competência técnica e descrição clara de cargo, nunca por laço de sangue. Além disso, a maioria dos negócios fecha por colapso no fluxo de caixa. O gestor confunde dinheiro da empresa com patrimônio pessoal, faz uma venda expressiva e vai comprar carro de luxo. É obrigatório acompanhar Demonstrativo de Resultado (DRE), margens reais e manter controle rígido sobre os recebíveis”.

“A inteligência artificial é a próxima energia elétrica”

Parceiro global de corporações como Microsoft, Google, Adobe e Autodesk, Correia encerrou o programa projetando os impactos da inteligência artificial sobre a sociedade produtiva. Ele rejeitou previsões catastróficas de desemprego generalizado, contextualizando as transições históricas: “O medo de perder o posto de trabalho sempre acompanhou a evolução humana: ocorreu na pedra polida, na Revolução Industrial, na máquina a vapor e no surgimento da internet. A única diferença da IA é a velocidade com que se desenvolve”.

Para o empresário, a tecnologia deve ser compreendida como uma utilidade básica invisível: “Assim como a energia elétrica move as máquinas sem que fiquemos pensando nela, a IA estará integrada a todos os processos, ferramentas e objetos cotidianos. A IA não veio para destruir o mundo; ela funciona como os personagens dos X-Men, concedendo superpoderes analíticos para pessoas comuns realizarem tarefas complexas em segundos”.

Correia recomendou que os profissionais abandonem o preconceito e aprendam a operar as plataformas digitais como assistentes de produtividade: “Empregos repetitivos vão desaparecer, mas inúmeras outras ocupações surgirão. A recomendação prática é: estude, entenda como aplicar a inteligência artificial na sua rotina e evolua junto com a ferramenta. O futuro não pertence a quem tem medo da inovação, mas a quem a domina com ética e estratégia”, concluiu.

Serviço

Assista o novo episódio do Ponto a Ponto no canal do Youtube do Maringá Post. 

Apresentação: Ronaldo Nezo

Produção de áudio e vídeo: VMark Estúdio