O Néias – Observatório de Feminicídios de Londrina, coletivo e organização sem fins lucrativos dedicado ao monitoramento da violência de gênero no Paraná, divulgou uma nota pública oficial em resposta à condenação de Ricardo Seidi Shigematsu. O réu foi sentenciado pelo Tribunal do Júri de Maringá a 23 anos, 6 meses e 22 dias de prisão pelo feminicídio, ocultação de cadáver e falsidade ideológica no caso da filha, Eduarda Shigematsu, de 11 anos, morta em 2019.
No documento, o observatório faz um duro posicionamento sobre dois eixos centrais: a intersecção entre gênero, infância e relações de poder familiar, e o impacto devastador da morosidade do Judiciário sobre os familiares das vítimas.
Gênero, vulnerabilidade e autoridade paterna
O Néias enfatizou que a condição de ser menina expõe a criança a uma dupla camada de vulnerabilidade, que combina as desigualdades de gênero à dependência própria da infância, agravada quando o agressor é o próprio pai.
“A condenação reconhece a gravidade da violência cometida por quem deveria proteger a filha, valendo-se da proximidade, da confiança e da autoridade que a relação paterna lhe conferia. (…) Ser menina constitui uma situação social marcada pela combinação entre gênero e idade. Meninas estão submetidas às desigualdades que atingem as mulheres e, simultaneamente, às relações de dependência e autoridade próprias da infância”, pontua a nota.
A entidade reforça que o feminicídio já previa aumento de pena para menores de 14 anos desde a aprovação da Lei nº 13.104/2015, exatamente por reconhecer essa agravada condição de vulnerabilidade. “A infância não elimina a desigualdade de gênero. Ao contrário, pode ampliar a vulnerabilidade diante de adultos que controlam os espaços de moradia, cuidado, circulação e proteção”, aponta o texto.
Critica severa aos 8 adiamentos e 7 anos de espera
Um dos pontos mais contundentes do posicionamento do Néias trata do tempo que o sistema de justiça levou para concluir o caso de Eduarda, que foi morta em abril de 2019 e teve o desfecho do júri apenas em setembro de 2026.
“A condenação representa uma resposta necessária, mas não apaga, tampouco compensa, os mais de sete anos de espera nem os efeitos produzidos pelos sucessivos adiamentos sobre a mãe, os familiares e as pessoas que preservaram a memória de Eduarda. Oito adiamentos em um único processo não são um detalhe procedimental: são expressão de uma morosidade estrutural que atinge, de forma recorrente, os julgamentos de feminicídio acompanhados por este observatório”, manifesta a organização.
O coletivo argumenta que atrasos dessa magnitude corroem a confiança da sociedade nas instituições e prolongam o sofrimento das famílias. Ao prestar solidariedade à mãe de Eduarda e reconhecer sua persistência ao longo dos anos, o Néias conclui reafirmando que “justiça para Eduarda também significa compromisso público com a vida e com a proteção integral de todas as meninas”.























