Maringá — O transporte rodoviário de cargas é o elo indispensável que movimenta a economia brasileira. Conectar a colheita no interior aos portos de exportação, levar insumos à indústria e abastecer o varejo exige um esforço logístico contínuo em um país de dimensões continentais. Poucos empresários compreendem essa engrenagem com tanta profundidade quanto Claudio Adamuccio.
Diretor-presidente do G10 e diretor administrativo da Transpanorama, Adamuccio foi o convidado do podcast Ponto a Ponto, do portal Maringá Post. Em entrevista conduzida pelo jornalista Ronaldo Nezo no VMark Estúdio, o executivo — recentemente eleito Empresário do Ano 2026 pela Associação Comercial e Empresarial de Maringá (ACIM) — analisou as lições de quatro décadas de estrada, os desafios de infraestrutura e a urgente escassez de mão de obra qualificada no setor.
O início improvável: do hortifrúti aos negócios de grande porte
A história de Adamuccio no transporte começou de forma inesperada na década de 1980. Nascido em Osvaldo Cruz (SP), ele aceitou assumir temporariamente o caminhão de hortifrúti do pai, que desejava tirar um ano sabático para se dedicar aos estudos bíblicos. O empresário trancou a faculdade para cumprir o acordo. “Aquele um ano virou 40”, resumiu.
Após enfrentar atoleiros, quebras de caminhão e perdas de produtos perecíveis entre o Paraná e o Mato Grosso do Sul, Adamuccio decidiu mudar de rumo. Passou a atuar no setor madeireiro e carvoeiro, aproveitando resíduos industriais para atender siderúrgicas. Foi nessa época que vivenciou um episódio decisivo para sua postura corporativa: a recusa de uma instituição financeira global em manter a conta de empresas do segmento florestal por critérios de governança internacional.
“Eu era muito jovem e me perguntei: como alguém recusa cliente? Analisei aquilo e decidi aplicar o mesmo princípio na minha vida. Passei a validar clientes e fornecedores, subindo a régua para escolher os segmentos e parceiros com os quais queria me relacionar”, explicou o executivo. “Não basta ser correto; para quem está de fora, você precisa ser e parecer. Os valores e propósitos precisam ser inegociáveis”.
Inovação global: lições do Vale do Silício e de Israel
A busca contínua por conhecimento levou o empresário a liderar missões corporativas pelos principais pólos de tecnologia e governança do mundo. Em 2022, Adamuccio esteve no Vale do Silício com uma comitiva de 25 gerentes e diretores das empresas, e no mesmo ano realizou um curso executivo na Universidade de Tel Aviv, em Israel.
“Inovação e tecnologia costumam andar juntas, mas não são a mesma coisa; é possível inovar em processos sem depender exclusivamente de tecnologia”, pontuou. “No Vale do Silício, você observa a força do ecossistema que une universidades de ponta, cérebros de várias partes do mundo e capital de risco. Em Israel, mesmo sem recursos naturais abundantes, o país construiu um ambiente que fomenta startups de sucesso com apoio governamental planejado e foco em alta maturidade técnica”.
As experiências internacionais, que também incluíram imersões na Suécia, Suíça, Alemanha, China e Singapura, moldaram a modernização das estruturas operacionais da Transpanorama e do G10.
Segurança como prioridade: 6,6 milhões de km rodados por acidente
A gestão de frotas das companhias é estruturada sobre duas torres de controle independentes. Uma é dedicada à logística de atendimento ao cliente; a outra atua sob o comando do departamento de Saúde, Segurança e Meio Ambiente (SSMA).
Câmeras com sensores de fadiga monitoram o fechamento de olhos e bocejos dos motoristas para intervenções preventivas imediatas. Como resultado das políticas rígidas de treinamento, testes toxicológicos e suporte psicológico, o índice de acidentes médios e graves da frota própria foi reduzido a 0,15 ocorrência por milhão de quilômetros rodados.
“Isso significa que nossos caminhões rodam cerca de 6,6 milhões de quilômetros para registrar um acidente, o que equivale a dezenas de voltas ao redor do planeta”, destacou Adamuccio. “Para sinistros graves com óbito, nossa meta é a tolerância zero absoluta”.
Entre os programas preventivos, destaca-se o incentivo financeiro mensal destinado diretamente às esposas ou familiares dos motoristas que cumprem integralmente as normas de trânsito, velocidade e paradas regulamentares. “O motorista faz a conduta correta na estrada e quem recebe a bonificação de R$ 300 é a esposa em casa. Ela se torna a principal parceira na cobrança por prudência e horários corretos de descanso”, detalhou.
O modelo G10: união de concorrentes para alavancar o negócio
Fundado no ano 2000 como uma associação pioneira de 10 empresas concorrentes, o G10 transformou a dinâmica de contratação de fretes no agronegócio nacional. Inspirado no sistema de alavancagem bancária, Adamuccio estruturou um modelo que permitiu atender grandes tradings e indústrias durante os picos de safra sem a necessidade de imobilizar capital excessivo em frota própria.
“Um banco capta no mercado para emprestar várias vezes o valor do seu patrimônio. Nós aplicamos essa lógica na logística. Com uma frota própria estruturada, conseguimos agregar milhares de transportadores parceiros e terceiros”, explicou o executivo. “Transformamos concorrentes em parceiros de negócios e nos consolidamos como o maior operador de transporte de grãos do país”.
Atualmente, o ecossistema movimenta mais de 16 milhões de toneladas anuais entre grãos, fertilizantes, defensivos agrícolas, combustíveis, produtos industriais e aço. A estrutura conta com 90 pontos de embarque distribuídos pelo território nacional e uma rede de serviços que inclui postos de combustíveis com suporte aos motoristas, concessionárias para renovação da frota de caminhões e seminovos, além de iniciativas sustentáveis, como a reciclagem de 95% da água utilizada na lavagem dos veículos.
O apagão de motoristas: descompasso entre frota e mão de obra
Ao analisar os entraves da logística brasileira, Adamuccio foi enfático ao apontar a falta de profissionais como o gargalo mais crítico da atualidade, superando até mesmo as deficiências viárias.
“O apagão de motoristas não é uma ameaça futura; ele já está acontecendo agora”, alertou o empresário. “Em 2020, a média de idade dos nossos motoristas era de 34 anos e 8 meses. Em 2026, essa média ultrapassou os 41 anos. Ou seja, a base está envelhecendo e os jovens não estão ingressando na profissão”.
Dados do setor indicam a formação anual de aproximadamente 60 mil novos motoristas habilitados, enquanto a indústria nacional produz cerca de 120 mil novos caminhões por ano. “Cria-se um efeito de boca de jacaré: a produção de veículos e as safras agrícolas crescem continuamente, mas o número de condutores diminui. Já existem pátios no Brasil com centenas de carretas paradas por falta de profissionais”, afirmou.
O executivo também criticou os impactos práticos das recentes alterações na legislação trabalhista de descanso obrigatório (como a exigência de 35 horas semanais paradas), apontando a escassez de pontos de apoio seguros nas rodovias. “O motorista muitas vezes é obrigado a ficar parado em rodovias sem banheiros, sem segurança e sem estrutura básica nos postos. A lei deveria permitir o acúmulo desse descanso para que o profissional pudesse usufruí-lo em sua residência, ao lado da família”, defendeu.
“Qual é a sua obra?”: legado e valorização humana
Para reter talentos e humanizar a rotina nas estradas, as empresas mantêm o programa anual “Rei e Rainha da Boleia”, que premia os melhores condutores de cada categoria operacional após avaliações de segurança e desempenho.
A premiação foca na concretização de projetos de vida dos finalistas e seus familiares. “Já entregamos carros zero quilômetro, quitamos financiamentos imobiliários de mais de uma década e construímos áreas de lazer para famílias de motoristas”, relatou Adamuccio.
Ao final da entrevista, o empresário refletiu sobre o papel da liderança e a responsabilidade social do setor privado. Inspirado por uma reflexão do filósofo Mário Sérgio Cortella sobre o legado individual, Adamuccio ressaltou que o sucesso empresarial só faz sentido quando acompanhado de contribuição social duradoura.
“Quando chegarmos ao fim da vida, a pergunta que faremos a nós mesmos é: ‘qual foi a sua obra?’. Quero olhar para trás e ter a certeza de que construí um legado ético, alinhado aos meus valores e sem arrependimentos”, concluiu.
Serviço
O episódio do podcast com Cláudio Adamuccio estreou neste domingo, 6 de setembro, às 7h, no canal do YouTube do jornal Maringá Post.
Apresentação: Ronaldo Nezo
Produção de áudio e vídeo: VMark Estúdio























