A vereadora Professora Ana Lúcia (PDT) falou, pela primeira vez, após a abertura da Comissão Processante (CP) na Câmara de Maringá que julga uma denúncia de suposto assédio moral cometido pela parlamentar contra um ex-assessor, exonerado em maio deste ano. Os vereadores seguem na fase de oitivas de testemunhas indicadas por ela e por Vinicius Felice de Oliveira França, que atuava como assessor parlamentar de Ana.
Durante a Comissão, o agora ex-assessor relatou supostos episódios de assédio moral vivenciados na rotina do gabinete, obrigações de cumprir agendas que, no entendimento dele, não teriam relação com a atividade parlamentar e apresentou um áudio que descrevia uma suposta tentativa da vereadora em mantê-lo afastado dos trabalhos, por 30 dias, apenas batendo ponto.
Em entrevista ao Maringá Post, Ana Lúcia falou sobre o episódio. Segundo ela, o momento da exoneração foi difícil por ter se sentido “emocionalmente pressionada” pelo fato de precisar deixar um ex-companheiro de trabalho sem emprego.
“Eu sou uma pessoa extremamente emocional, eu me preocupo com os outros, especialmente um jovem, sabe, que ia ficar desempregado. Então, quando ele começa a chorar, eu me senti pressionada mesmo e assim, eu quase que na pressão, disse a ele ‘não, então, você não vai sair hoje, fica até o final do mês para você se organizar e para você poder tocar a sua vida’. Mas na pressão, sabe, eu me senti emocionalmente pressionada, eu choro nesses momentos, sabe, quando eu tenho que dizer para alguém que não vai mais continuar trabalhando comigo. Ali eu estava tão pressionada que eu resolvi fazer isso”, relatou.
Ainda conforme a vereadora, a convivência do ex-assessor com os demais colaboradores do gabinete estaria insustentável.
“Na maior parte das vezes ele não ia, não aparecia (nas agendas). Marcava de estar lá em tal lugar, mas se alguém não pegasse ele para levar no horário certo, ele não comparecia. A desculpa era ‘o Uber não veio, o Uber atrasou’, ou então ‘não tenho rede para poder conectar o meu celular’. Então, assim, era alguém que, de fato, foi ficando impossível de trabalhar junto, a questão foi essa. […] Ele tinha um roteiro (sobre a gravação da conversa), então ele cumpriu o roteirinho dele para se vitimizar, ficar de pobre coitado”, conta.
“Eu adoeci muito nesse processo”
Em ritmo de campanha para deputada federal, Ana Lúcia classificou o episódio como “o maior sofrimento da vida”. Conforme a parlamentar, a denúncia e o âmbito da Comissão a tem prejudicado no sentido de precisar justificar aos eleitores que é inocente.
“Certamente essa experiência é o maior sofrimento que eu já tive na minha vida. E olha que eu já tive perda familiar muito próxima, já perdi minha mãe, mas isso que eu estou vivendo agora, esse sofrimento, ele não é natural. Ele não faz parte da vida da gente. Em algum momento a gente vai se deparar com ele. É um sofrimento que me consome hoje 24 horas por dia porque é o meu nome. Meu nome que está questionado, que está jogado na lama, tudo porque eu exonerei um servidor, um assessor que não dava conta de fazer o trabalho que ele tinha que fazer. Toda vez que vejo alguém na rua, em vez de pedir voto eu preciso justificar ‘gente, vocês me conhecem, sabem que eu não fiz isso”.
A parlamentar também questionou o teor das denúncias. “Eu exonero o sujeito, aí ele escreve uma página de calúnias, porque não são denúncias que ele fez, ele fez um conjunto de calúnias e essas calúnias, inclusive, eu peguei no segundo dia, porque no primeiro dia eu não tive nem acesso. No segundo dia, quando eu olhei, eu já fui à delegacia e registrei um boletim de ocorrência. Então as pessoas me dizem ‘são denúncias que ele fez’, mas não, ele fez calúnias contra mim que até hoje ele não provou”, ponderou.
Elogios a Comissão Processante
Apesar de questionar a abertura do processo, Professora Ana Lúcia elogiou o trabalho dos membros da Comissão Processante. “A própria comissão está fazendo um trabalho de desmontar aquela página caluniosa contra mim. A Comissão está seguindo todo o rito, até porque tem um rito, cada passo é determinado pela lei e, se houver uma pisada fora das regras, eu posso pedir o cancelamento da Comissão. Então, é claro que a Comissão está seguindo à risca todo o caminho, o processo, bem certinho. Eu diria que está conduzindo muito bem, inclusive. A própria Comissão está conduzindo tão bem que ela mesma está mostrando que não há nada contra mim. Nada, zero. Todo mundo que vai e assiste vê que não tem nada contra a vereadora”, disse.
A reportagem procurou o ex-assessor, Vinicius França, para comentar as declarações. Em resposta, ele classificou as alegações da parlamentar como “drama emocional”. “As declarações são inverídicas. O áudio é claro: meu tom de voz é de revolta e indignação. Não há choro. Não há qualquer manifestação emocional como ela afirma. É mais uma contradição entre tantas. A vereadora se perde nas próprias versões. Chegou ao ponto de falar publicamente, em um podcast, sobre uma agenda que aconteceu quando eu já estava exonerado havia quase um mês. As datas não mentem”, afirmou.
Ainda conforme Vinicius, o ex-assessor não aceitará a sustentação de uma suposta “narrativa política”. “Meu pai me ensinou a ser honesto. A não ser leviano. A não mentir. É por isso que não vou aceitar que usem a memória dele para sustentar uma narrativa política. Meu trabalho foi feito com extremo zelo e com fartos resultados. Os números não mentem. A própria vereadora rasga elogios exagerados e assume que a comunicação dela melhorou tanto a ponto de outras pessoas copiaram. A narrativa de dizer que meu trabalho era ruim ou de que eu não ia em agendas ou qualquer coisa do tipo é total desespero e típico de descredibilizar a vítima. Até aqui, Maringá tem assistido a uma sucessão de contradições, ataques e apelações. Quanto mais tentam explicar, mais se contradizem”, disse.
“Eu confio na Justiça. Quero que todos os fatos sejam apurados e que, comprovadas as responsabilidades, haja a devida punição dentro da lei. Como homem de esquerda, paranaense, e adpeto as religiões de matriz africana, torço com muito otimismo que a justiça seja exemplar. Maringá precisa ser representada por pessoas que tratem a política com seriedade, responsabilidade e respeito ao próximo, especialmente às minorias e não por quem coloca interesses pessoais, ego e poder acima de tudo”, finalizou Vinicius.












