Maringá — A conta da mobilidade urbana em Maringá atingiu um ponto de pressão crítica. Enquanto a frota local saltou para mais de 384 mil veículos — resultando na expressiva média de 8,4 carros para cada 10 habitantes —, a estrutura de fiscalização humana do município encolheu ao longo dos últimos 14 anos. A cidade, que no passado (em 2012) contava com 240 servidores dedicados à segurança viária, hoje dispõe de apenas 84 agentes, dos quais cerca de 20 atuam exclusivamente de processamento e monitoramento eletrônico – ou seja, não estão nas ruas.
Para explicar como a administração municipal pretende equilibrar esse descompasso, mitigar o risco de acidentes e redesenhar os eixos de transporte, o secretário municipal de Mobilidade Urbana, Luciano Brito, foi o convidado do programa Ponto a Ponto, do jornal Maringá Post. Em uma conversa com o jornalista Ronaldo Nezo gravada no VMark Estúdio, Brito apresentou os dados que orientam as decisões da pasta, detalhou investimentos em inteligência artificial e traçou um panorama das ações para os modais cicloviários e coletivos.
“A tecnologia compensa, mas não substitui a presença”
O titular da Semob expôs os números da defasagem no quadro de fiscalização. Em 2012, o município combinava 80 agentes de trânsito com 160 policiais militares alocados no antigo pelotão de trânsito, totalizando 240 profissionais nas ruas. Atualmente, com a descontinuação do pelotão estadual nas grandes cidades e a ausência de reposição sistemática de servidores, o efetivo total caiu para 84 — sendo 78 agentes municipais e menos de uma dezena de PMs.
“Nós temos um déficit de recursos humanos entre 70% e 80%. Saímos de 240 agentes em 2012 para 84 em 2026. Nesse mesmo intervalo, a frota de Maringá aumentou em mais de 160 mil veículos, sem contar o fluxo regional diário que recebe até 7 mil veículos por hora em entroncamentos como a ligação com Sarandi. Estamos investindo maciçamente em tecnologia e procedimentos inteligentes, mas não há como fazer segurança viária sem a presença do servidor nas ruas”, destacou o secretário.
Para contornar a escassez de pessoal nos horários de pico, a pasta lançou a plataforma “Mais Vida”, que cruza registros de infrações, denúncias pelo 156 e estatísticas de sinistros para criar um mapa de calor. As viaturas são direcionadas para o “Top 20” dos cruzamentos com maior incidência de ocorrências.
Brito, porém, explicou que enfrenta outro problema recorrente: falta de energia elétrica. Segundo ele, 90% dos semáforos inoperantes que geram caos no tráfego urbano não sofrem de panes estruturais, mas sim de constantes oscilações e quedas de energia na rede elétrica, o que sobrecarrega a equipe de agentes para o controle manual das vias.
Imprudência, excesso de velocidade e celular ao volante
De acordo com o secretário, 95% das mortes e ferimentos graves no trânsito de Maringá poderiam ser evitados com a mudança de postura dos condutores. Ele citou registros da fiscalização eletrônica que flagraram automóveis transitando a 130 km/h e até 143 km/h dentro do perímetro urbano, em vias como as avenidas Colombo, Sincler Sambatti e Sophia Rasgulaeff.
Outro ponto de alerta máximo é a distração provocada por smartphones, hábito classificado por Brito como uma verdadeira epidemia entre motoristas, motociclistas e pedestres.
“O comportamento de dirigir olhando para o celular é fisiologicamente e psicologicamente idêntico ao de dirigir embriagado. A pessoa perde completamente a dirigibilidade. Se você estiver a uma velocidade de 50 a 60 km/h e desviar o olhar para a tela, você percorre entre 150 e 166 metros completamente às cegas. É nesses 160 metros que acontecem os capotamentos, os choques contra veículos estacionados e os atropelamentos graves.”
Fim das “pegadinhas”: vias a 50 km/h e faixas elevadas em áreas hospitalares
Buscando garantir previsibilidade e transparência aos motoristas, a Semob está concluindo a padronização das velocidades na malha viária urbana. Com exceção das vias de contorno (como a Colombo e a Sincler Sambatti, que permanecem em 60 km/h), as demais avenidas municipais estão sendo fixadas em 50 km/h.
A medida visa extinguir variações de velocidade na mesma via. Além disso, a pasta iniciou a substituição de antigos radares e redutores eletrônicos de 40 km/h por faixas elevadas para pedestres em cinco locais estratégicos próximos a complexos de saúde e escolas, como no Hospital Universitário (HU), na UPA Zona Sul, no Hospital do Câncer e nos colégios Unidade Polo e Campos Salles.
Reconstrução das ciclovias, semáforos na Tuiuti e regras para patinetes
Ao abordar a mobilidade ativa, Luciano Brito frisou que a prioridade inicial da administração foi a recuperação estrutural das pistas existentes, muitas delas com pavimento irregular. Trechos da Avenida Brasil e da Avenida Pedro Taques foram reconstruídos para garantir a segurança dos ciclistas.
Entre os novos projetos, o secretário destacou a conclusão da ciclovia da Avenida Tuiuti — executada em convênio com a Itaipu Binacional —, que contará com semaforização exclusiva ao longo do traçado, e o projeto executivo que vai interligar as ciclovias das avenidas Serra Azul e Brasil pelas vias Tiradentes e Getúlio Vargas.
A Semob também finaliza um decreto municipal para regulamentar a circulação de equipamentos autopropelidos, patinetes elétricos e ciclomotores:
Nas ciclovias: A velocidade máxima permitida para patinetes e veículos autopropelidos será de até 20 km/h (com proibição expressa de ciclomotores pesados e bicicletas de ciclismo esportivo em alta velocidade);
Nas calçadas: Quando a passagem for autorizada, o condutor deverá obrigatoriamente acompanhar o ritmo da marcha humana, limitado a 6 km/h, assegurando a prioridade absoluta dos pedestres;
Nas vias expressas: Fica terminantemente proibida a circulação de patinetes e similares nas avenidas de tráfego pesado, como Colombo e Contorno Sul.
Transporte coletivo: “Na Hora Maringá”, GPS em tempo real e estudos para VLT
Na gestão do transporte de massa, a secretaria colocou em operação a plataforma Na Hora Maringá, ferramenta que realizou o georreferenciamento de 100% dos 2.400 pontos de parada, terminais e veículos da frota. O sistema permite auditar a bilhetagem digital e fiscalizar os horários das linhas em tempo real por meio de um centro de supervisão com painel de videowall.
Brito revelou que uma consultoria técnica especializada está sendo contratada para redesenhar o sistema de transporte, otimizar itinerários em bairros afastados — avaliando a substituição de ônibus convencionais por vans ou micro-ônibus em trechos de baixa demanda — e analisar o modelo tarifário após a aprovação do marco legal do setor em Brasília.
A consultoria também estudará a viabilidade de implantação de novos modais de média capacidade, como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ou o bonde urbano digital, integrando Maringá aos municípios conurbados da região metropolitana.
Serviço
Assista ao episódio completo e confira a entrevista na íntegra no canal do YouTube do Maringá Post.
Apresentação: Ronaldo Nezo
Produção de áudio e vídeo: VMark Estúdio













