Nesta sexta-feira (14), às 19h30, a Casa Luanda recebe o lançamento do curta-metragem documental “Iyabassé e a Comida de Santo”, com entrada gratuita e classificação livre. O filme propõe um mergulho na trajetória de Mãe Carminha da Oxum, uma das mais antigas lideranças femininas da comunidade do Pina, no Recife.
Para a diretora e pesquisadora do projeto, Laís Fialho, registrar essa história foi uma escolha ética e espiritual:”Mãe Carminha é um exemplo de força, continuidade e compromisso com a comunidade. Nas culturas de terreiro, partimos da experiência e do axé vivido para construir as narrativas. Encontramos uma história que merecia ser contada, e foi ela que deu origem ao filme”, destaca a cineasta.
A figura central do documentário é a Iyabassé — a sacerdotisa responsável por preparar as comidas sagradas que alimentam os orixás e sustentam o axé da casa. Diferente do ato doméstico tradicional, a cozinha do terreiro é entendida como um território de fundamento, onde o alimento se transforma em reza, força e comunicação com o divino.
Cinema e memória
Concebido com argumento e roteiro de Leo Falcão, coordenação de produção audiovisual de Max Miranda (Fenda) e coordenação de projeto de Douglas Kodi, o curta faz da linguagem audiovisual um instrumento de preservação da memória e combate ao racismo religioso.
Segundo Laís Fialho, a câmera funcionou como uma ferramenta de sensibilidade para registrar gestos, ritmos e saberes ancestrais. “O audiovisual revela sensibilidades que, durante muito tempo, foram apagadas pelo racismo e pelo epistemicídio. Ele registra os gestos, os tempos, o cuidado e a relação de Mãe Carminha com os alimentos. Além de preservar essa memória, cria uma narrativa estética que enaltece a beleza, a delicadeza e a profundidade da cultura do candomblé”, analisa.
Ética, respeito e o segredo na vivência
Um dos desafios da produção foi definir os limites do que poderia ser exibido na tela, já que a cultura de terreiro envolve saberes reservados. A diretora explica que o processo foi totalmente coletivo, contando com consultoria narrativa da escritora Mayara Blasi e de Igor Vicente (batuqueiro e pesquisador), além do diálogo constante com a própria protagonista.
“Nossa principal preocupação não era esconder segredos. Para nós, o segredo está na experiência e na vivência iniciática. O desafio foi construir uma narrativa respeitosa, poética e verossímil, capaz de dar notícias da riqueza da cozinha e de seus fazeres no universo do candomblé”, pontua Laís.
Com gravações espontâneas e discretas, a equipe acompanhou a rotina de Mãe Carminha desde a feira até a preparação e a entrega das oferendas. O resultado, segundo a pesquisadora, reflete um processo leve e acolhedor, onde a própria ancestralidade guiou as filmagens: “Ali Oxum reinou, ela tirou de letra. Quem tiver os sentidos disponíveis para perceber vai aprender algo com o recado”.
Ampliação de visões de mundo
Ao colocar em circulação conhecimentos historicamente marginalizados, o documentário convida o espectador a repensar a relação com o alimento, a natureza e a espiritualidade. “Espero que esse documentário amplie as cosmopercepções das pessoas e mostre que nenhuma lógica de mundo é a única possível. Desejo que o público reconheça a contribuição das culturas negras e reflita sobre a alimentação e o cuidado como dimensões também espirituais. Acima de tudo, espero que o filme afirme que o candomblé produz beleza, poesia e conhecimento”, conclui a diretora.
Programação e Lançamento
A noite de exibição na Casa Luanda contará com a presença de Mãe Carminha da Oxum, do autor da trilha sonora original, Ogan Dayvison Guian, da equipe de produção e do Maracatu Roda do Encanto. A programação inclui bate-papo com os realizadores, distribuição de comida de axé e apresentação cultural.
Serviço : Exibição do documentário “Iyabassé e a Comida de Santo” (com bate-papo, comida de axé e Maracatu Roda do Encanto) Sexta (14) de agosto (sexta-feira), às 19h30 na Casa Luanda (Av. Gastão Vidigal, 55) Entrada gratuita | Acessível em Libras | Classificação Livre – Projeto aprovado no Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura (PROFICE) / Secretaria de Estado da Cultura / Governo do Estado do Paraná.


















