A concorrida noite de autógrafos no lançamento do livro “Costuras da Democracia – Brasil dividido, suas emendas políticas e a esperança no voto”, de autoria do cientista político Tiago Valenciano, rendeu comentários sobre a atual polarização política diante das eleições deste ano.
A sala do Piano Bar do Hotel Metrópole recebeu, entre os convidados, o ex-deputado constituinte Tadeu França, ao lado do historiador Reginaldo Dias e do sociólogo Joel Cavalcante.Todos entendem que a polarização política não é um fenômeno novo nem exclusivo do Brasil, mas sim um componente estrutural das democracias consolidadas. “O verdadeiro risco para a estabilidade nacional, portanto, não reside na existência de polos opostos, mas na emergência de grupos dispostos a violar os limites da legalidade”, destacou o professor Dias.
A experiência recente do Brasil revela um tensionamento sem precedentes decorrente da ascensão de forças antidemocráticas que visam afrontar as instituições. “O problema central da política atual não é o embate ideológico em si, mas a tentativa de eliminar o adversário em vez de enfrentá-lo no debate de ideias e no processo eleitoral”, completou Reginaldo.
A erosão não veio agora. As emendas à Constituição de 1988 provocaram um desvirtuamento profundo no sistema político brasileiro. Para o ex-deputado constituinte Tadeu França, a aprovação da reeleição para cargos do Executivo e a proliferação das emendas parlamentares representam agressões diretas ao projeto original do país. O texto de 1988 previa mandatos de cinco anos sem recondução imediata justamente para evitar o uso da máquina pública nas disputas eleitorais. A mudança, segundo ele, gerou uma falta de ética e de coerência, permitindo que quem está no poder utilize a estrutura estatal em vantagem própria contra concorrentes comuns.
Esse cenário de desvalorização das regras institucionais resultou em um perigoso desencanto popular com a política. Com o sistema dominado por partidos voltados exclusivamente à barganha de poder, a população tornou-se indiferente e os jovens se afastaram da militância e das filiações partidárias. “A percepção generalizada de que a política se transformou em um espaço de corrupção afasta pessoas com qualificação moral e intelectual dos quadros dirigentes, deixando o país refém do fisiologismo e sem perspectiva de renovação liderada por novas gerações”, analisou.
“A polarização é natural da democracia, mas quando não se legitima o adversário, as regras do jogo e há ataques às instituições, estamos num terreno perigoso”, observa o sociólogo Joel Cavalcante. Porém, ele observa que podemos estar vivendo o fim da polarização atual com o desgaste e o colapso dos discursos antidemocráticos.
Tais reflexões sobre a democracia no país foi o que motivou a existência do livro “Costuras da Democracia – Brasil dividido, suas remendas políticas e a esperança no voto”. Em 11 capítulos, Tiago Valenciano explica fenômenos complexos como a polarização entre lulismo e bolsonarismo, a crise de representatividade dos partidos e a influência direta dos algoritmos na formação da opinião pública.São apontamentos gerais sobre a política nos últimos quatro anos. “Nenhum dos lados está cedendo nessa polarização, mas não sabemos se neste ano teremos um término de ciclo.Porém, também discutoas tendências que podem ocorrer em breve. Que nas eleições deste ano as pessoas retome a crença na democracia”, refletiu.


















