Sicario filme de Denis Villeneuve é frequentemente citado em análises de cinema não apenas pelo roteiro e pelas performances mas pelos seus elementos técnicos, em especial a fotografia de Roger Deakins e a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson, que foram recebidos pela crítica especializada como dois dos trabalhos mais completos que cada um dos artistas havia produzido até aquele ponto da carreira. A colaboração entre Villeneuve, Deakins e Jóhannsson neste filme e em Prisioneiros antes dele criou uma assinatura estética que é imediatamente reconhecível e que elevou o thriller político a um nível formal raramente atingido no cinema de entretenimento americano.
A fotografia de Roger Deakins e a aridez como mensagem
Roger Deakins usou o deserto do sudoeste americano e as cidades de fronteira de Sicário para criar uma fotografia onde a luz não está a serviço do belo mas do significado. Os tons quentes do sol poente sobre a caatinga do Arizona criam uma beleza que contradizia visceralmente os eventos violentos que aconteciam sob ela, criando um desconforto específico, o espectador precisa reconhecer a beleza visual enquanto absorve o horror narrativo, e essa coexistência é o comentário implícito de Deakins sobre como o tráfico e a guerra às drogas existem num ambiente de beleza natural indiferente à violência humana que o percorre.
A escolha de usar câmera de visão infravermelha e de visão noturna nas cenas da sequência de infiltração no México criou uma estética de vigilância que é ao mesmo tempo tecnicamente impressionante e moralmente perturbadora, transformando o espectador num observador privilegiado de algo que deveria ser secreto.
Jóhann Jóhannsson, que morreu em 2018, criou para Sicário uma trilha sonora que funciona como instrumento de opressão psicológica em vez de como acompanhamento emocional convencional. A música de Sicário usa frequências graves e percussão de baixa frequência para criar uma tensão física que o espectador sente no peito, criando ansiedade visceral em cenas que talvez não gerassem a mesma resposta fisiológica com uma música mais convencional.
A colaboração entre Villeneuve e Deakins
Denis Villeneuve e Roger Deakins trabalharam juntos em três filmes, Prisioneiros, Sicário e Blade Runner 2049, e a parceria produziu alguns dos trabalhos mais celebrados de ambos. Deakins ganhou seu primeiro Oscar depois de treze indicações justamente por Blade Runner 2049, o terceiro filme da colaboração.
O que caracteriza o trabalho conjunto dos dois é uma preferência por planos longos e estáticos onde a composição faz o trabalho narrativo, recusando a montagem acelerada que domina o cinema de ação contemporâneo. Em Sicário, essa abordagem produz sequências onde a tensão vem da duração do plano em vez do ritmo do corte.
Jóhann Jóhannsson morreu em 2018 aos quarenta e oito anos, deixando uma obra que incluía as trilhas de Prisioneiros, Sicário, A Teoria de Tudo e A Chegada. O compositor islandês havia desenvolvido uma linguagem musical que combinava minimalismo, eletrônica e orquestração tradicional de formas que redefiniram o que a trilha de cinema podia ser.
A trilha de Sicário rendeu a Jóhannsson uma indicação ao Oscar, e a faixa The Beast, que acompanha a travessia da ponte, é frequentemente citada como um dos trabalhos mais eficazes de criação de tensão musical do cinema contemporâneo.
O uso da percussão como ameaça
A estrutura musical de Sicário depende de percussão grave que funciona como batimento cardíaco acelerado, uma técnica que Jóhannsson usou para criar resposta fisiológica no espectador antes que a narrativa justificasse a ansiedade. Em várias cenas, a música começa a construir tensão antes que qualquer coisa ameaçadora apareça em cena, condicionando o público a esperar violência que às vezes não chega.
Esse jogo com a expectativa é parte do que torna a experiência de assistir Sicário fisicamente desconfortável de uma forma que poucos thrillers conseguem.
O sucesso crítico e comercial de Sicário teve impacto mensurável no tipo de thriller político que Hollywood produziu nos anos seguintes, com mais filmes do gênero tentando usar câmera de observação, protagonistas sem agência completa e antagonistas sem rosto, em vez das estruturas convencionais de herói contra vilão identificável. A influência de Denis Villeneuve como realizador de gênero com ambições autorais tornou-se parte da linguagem de produção de thrillers americanos de prestígio, e Sicário é frequentemente o ponto de partida identificado por realizadores que citam sua influência.
A faixa The Beast, que acompanha a travessia da ponte, é frequentemente citada como um dos trabalhos mais eficazes de criação de tensão musical do cinema contemporâneo, usando percussão grave que funciona como batimento cardíaco acelerado. Jóhannsson começa a construir a tensão antes que qualquer coisa ameaçadora apareça em cena, condicionando o público a esperar uma violência que às vezes nem chega, e esse jogo com a expectativa é parte do que torna a experiência fisicamente desconfortável.
A combinação entre a direção de Villeneuve, a fotografia de Deakins e a música de Jóhannsson produziu em Sicário um objeto raro no cinema comercial americano, um filme de gênero que opera com o rigor formal de cinema de arte sem sacrificar a tensão que o thriller exige. Essa convergência de três artistas no auge de suas capacidades técnicas é o que explica por que o filme continua sendo estudado em escolas de cinema quase dez anos depois do lançamento, com sequências específicas usadas como material didático sobre montagem, composição e design sonoro.




















