Maringá — A educação básica enfrenta um cenário de transformações geracionais que redesenha as relações entre a escola, os estudantes e as famílias. O avanço das tecnologias digitais, as políticas públicas e a mudança no comportamento dos pais impõem novos desafios ao amadurecimento dos jovens, com reflexos diretos no mercado de trabalho.
O diagnóstico é do professor Antonio Leonel, o Toninho, diretor-geral e proprietário do Colégio Platão de Maringá. Em entrevista ao jornalista Ronaldo Nezo no podcast Ponto a Ponto, do jornal Maringá Post, o educador analisou suas quatro décadas de experiência no chão da escola e defendeu a necessidade de a vanguarda pedagógica guiar as práticas escolares.
O tripé escolar e a interferência familiar
Uma das principais mudanças observadas pelo diretor ao longo de 40 anos de carreira — iniciada em 1987 no Colégio Canadá, em Apucarana, antes de migrar para o Platão em 1988 — reside na postura das famílias. Segundo Leonel, a dinâmica na relação entre pais, professores e alunos mudou de eixo. Se no passado a gestão de funcionários e docentes demandava mais atenção, hoje a insegurança familiar é o fator mais complexo no ambiente escolar.
O educador aponta que o medo de errar faz com que muitos pais adotem uma postura superprotetora. Esse comportamento se manifesta em cobranças à instituição por punições ou avaliações aplicadas aos filhos, enquanto a presença física em reuniões pedagógicas formais diminuiu drasticamente. Ele exemplifica: em um universo de 400 pais no Ensino Médio, o diretor aponta que a presença nas reuniões de entrega de boletins mal atinge 8% do total.
“Muitos pais ligam cobrando a escola por que o filho foi punido, qual é a razão. Há uma intervenção nociva em alguns momentos que não é papel [da família]”, afirma Leonel. Para ele, essa atitude fragiliza a formação dos jovens e enfraquece a autoridade docente. “De alguma maneira, desautoriza também o trabalho do professor e da escola”. Mas ele ressalta que, na prática do Colégio Platão, a relação entre a escola e os pais é estabelecida previamente, já na matrícula do aluno. “Dá porta para dentro, nós sabemos o que nós estamos fazendo” e os pais precisam confiar no que está sendo feito pela instituição escolar. “Você não chega para o médico e diz como quer ser operado.”
Essa superproteção dos pais, de acordo com o diretor, atrasa o desenvolvimento da maturidade. Ele cita o relato de uma gestora de Recursos Humanos de uma grande empresa de Maringá que elevou a régua cronológica de contratação, evitando entrevistar candidatos abaixo dos 24 anos devido à falta de tato e autonomia.
“Ela me disse que recebe jovens de 19, 20, 21, 22 anos que vão para a entrevista de emprego acompanhados pelos pais. A entrevista não é com os pais, é com o candidato”, cita Leonel, comparando a perda de vivências práticas da atual geração — como andar de transporte público ou ir à farmácia sozinho — com a infância ativa de décadas passadas.
Celular, convivência e a ciência do sono
O controle do uso de tecnologias dentro da escola é outra linha de frente defendida por Leonel. O Colégio Platão adotou o bloqueio ao porte e uso de celulares ainda em 2009, muito antes das recentes discussões de leis que tratam sobre o tema. O objetivo, segundo o diretor, foi preservar o espaço de convivência real no intervalo das aulas, mesmo sob o risco de perder matrículas de famílias que não aceitavam a regra.
“A questão não é proibir a comunicação, a questão é fazer com que o aluno, enquanto está na escola, possa interagir com outras pessoas. No intervalo, virava um call center e a gente não queria isso. A gente queria a conversa, até a paquerinha…”, explica.
Além da gestão tecnológica, a instituição implementou em 2008 uma mudança na sua estrutura horária. Historicamente atrelada ao modelo paulista do Sistema Anglo, que iniciava as aulas às 7h15, a escola adiou o início para as 7h45 para os estudantes mais velhos e 8h para os mais novos. A decisão foi baseada em dois anos de pesquisas e assessoria do professor doutor Marcílio Hubner, da Universidade Estadual de Maringá, sobre cronobiologia.
“O sono é extremamente importante por duas razões básicas: há um desenvolvimento motor e há um desenvolvimento intelectual”, esclarece o professor. Com o repouso adequado, os estudantes garantem o ciclo do sono REM, crucial para a atividade cognitiva. Leonel lembra que muitos alunos vinham de cidades da região, como Astorga, Mandaguaçu e Mandaguari, e acordavam às 5h da manhã, perdendo múltiplos ciclos de sono. “Um sono com mais qualidade, mais disposição, mais vínculo melhora o desenvolvimento acadêmico. É científico, não é achismo.”
O poder da palavra e a resistência aos livros
Professor de Literatura, Leonel rebate a ideia de que os jovens de hoje rejeitam a leitura por natureza, mas reforça que ler depende de hábito e estímulo. Para o diretor, o professor precisa focar na força da obra.
Ele exemplifica com a dinâmica que tempos atrás adotou em sala de aula ao apresentar Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. “Coloquei as memórias diante dos meus alunos e fiz uma pergunta simples: daqui a 100 anos, quem aqui continuará fazendo sucesso? Eles apontaram para o livro. Daqui a 100 anos, além de eu não estar aqui, talvez um bisneto vá saber quem eu fui. Mas Memórias Póstumas, milhões de pessoas continuarão sabendo. O livro não tem prazo de validade.”
O diretor detalha que o rigor acadêmico não foi flexibilizado. No Terceirão, os alunos leem dez clássicos por ano, com cobrança bimestral em provas. Entre as obras do ano letivo corrente, cita Contos Novos, de Mário de Andrade, Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e a poesia de Manuel Bandeira. “A leitura amplia a visão de mundo, dá poder, faz entender as pessoas e compreender a nossa própria natureza”, defende.
Novo Ensino Médio, arte e políticas públicas
Ao analisar as políticas públicas de educação, o diretor aponta um descompasso entre o que o governo dita de cima para baixo e a cobrança pragmática do mercado e dos pais, focados no “funil” do vestibular. Ele critica a forma como muitas instituições aplicaram as diretrizes do Novo Ensino Médio, apenas transferindo conteúdos de disciplinas tradicionais (como física e química) para o período da tarde em formato de “específicas”.
“O Novo Ensino Médio não propôs nada disso. Ele quer entrar no emocional do aluno, quer a sociedade representada ali dentro. O modelo permite trazer profissionais da psicologia, da geopolítica, da oratória para tornar esse indivíduo realmente um ser falante, com mais habilidade de comunicação”, diz.
Para contrapor o esvaziamento do protagonismo juvenil, o educador defende o investimento em projetos extracurriculares de contraturno, como o projeto de teatro da escola e festivais de música bilingue. O objetivo principal não é a formação artística, mas o aprendizado e desenvolvimento de habilidades fundamentais para a vida adulta.
Nos projetos, os estudantes precisam buscar patrocinadores no mercado, lidar com dinheiro fora do “paitrocínio”, cumprir horários rígidos e gerenciar conflitos coletivos. “O que me interessa é o bastidor. Quem vai ser o contra-regra, o figurinista, quem vai controlar os horários. Isso gera maturação e questionamentos de identidade.”
Leonel conclui cobrando pressa do Estado na revisão da educação básica e equilíbrio democrático, sem partidarismos. “A vanguarda incomoda porque envolve riscos. Mas o cientista vive no limiar do risco o tempo inteiro. Na educação, a vanguarda é o caminho; é ela que mobiliza o ser”, finaliza.
Serviço
O episódio completo da entrevista com o professor Toninho Leonel está disponível no canal do Maringá Post no YouTube e os principais desdobramentos da conversa em novas reportagens podem ser acompanhados no portal durante a semana.




















