Levantamento mostra nova queda no apoio à proposta de proibição da escala 6×1 aprovada na Câmara e revela que cresce a percepção de que trabalhadores precisam poder escolher como organizar sua jornada
Uma nova pesquisa nacional do Instituto Vox Brasil, divulgada em 5 de junho, indica uma queda ainda mais acentuada no apoio à proibição da escala 6×1 aprovada pela Câmara dos Deputados e traz um dado central para o debate: ganha força na sociedade a visão de que é necessário haver opção, e não uma imposição única por lei.
Segundo o levantamento, apenas 33,8% dos brasileiros se declaram favoráveis à medida, enquanto 27,6% são contrários. Outro dado expressivo, no entanto, é o percentual de 38,6% que afirmam não saber ou não ter opinião formada, evidenciando um cenário de dúvida e reflexão, e não de consenso social.
A forma como a pergunta foi apresentada torna o resultado ainda mais relevante. A pesquisa deixa claro que a proposta já foi aprovada pela Câmara e prevê redução da jornada semanal sem redução de salário, o que reforça que a perda de apoio ocorre mesmo quando a iniciativa é descrita nos termos defendidos por seus propositores.
Para o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, os números indicam que o debate está mudando de patamar. “O que a pesquisa mostra é que a população começa a rejeitar soluções únicas. As pessoas não estão dizendo ‘não’ à discussão sobre qualidade de vida, mas sinalizando que querem escolha, flexibilidade e clareza sobre os impactos reais na rotina e na renda”, afirma.
Do total de entrevistados, apenas 21,5% se dizem totalmente favoráveis à proibição, enquanto 12,3% apoiam a medida apenas em parte. Do outro lado, 18,5% se declaram totalmente contrários e 9,1% em parte contrários, o que reforça um ambiente de divisão e amadurecimento do debate.
Na avaliação da Abrasel, o alto índice de indecisão está diretamente ligado à percepção de que a proposta aprovada na Câmara não entrega, na prática, a promessa de trabalhar menos e ganhar o mesmo. Em muitos setores, a redução semanal tende a se converter em jornadas mais longas nos dias úteis, como a necessidade de trabalhar uma hora a mais de segunda a sexta-feira.
Esse modelo, segundo a entidade, pode gerar efeitos concretos sobre a vida das pessoas. Para quem enfrenta longos deslocamentos, uma hora a mais por dia significa mais tempo no trânsito em horários de pico. Para mães e pais, especialmente aqueles que levam e buscam filhos na escola, a rigidez de horários pode dificultar a conciliação entre trabalho e cuidado. Para estudantes, pode inviabilizar aulas, cursos técnicos ou a própria permanência no ensino.
Nesse contexto, a Abrasel destaca as vantagens de modelos baseados em trabalho por hora, que permitem ajustar a jornada à realidade individual, com remuneração proporcional e manutenção de direitos. Esse formato é especialmente relevante para mães, estudantes e trabalhadores que precisam de flexibilidade para organizar a rotina, sem perder vínculo formal nem proteção trabalhista.
“O dado central não é só a queda do apoio, mas o crescimento da dúvida. Quando quase 40% dizem que não sabem, isso revela que a sociedade percebe que o tema é mais complexo do que parece e que impor uma regra rígida pode gerar efeitos indesejados. Não à toa, a proibição de escala de trabalho em lei não existe em nenhum país do mundo”, analisa Solmucci.
A entidade ressalta que esse movimento dialoga diretamente com a proposta de PEC apresentada pelo senador Rogério Marinho, em discussão no Senado, que prevê jornadas organizadas por horas trabalhadas, com remuneração proporcional e preservação dos direitos trabalhistas, oferecendo ao trabalhador o poder de escolha entre modelos distintos. “Essa é uma mudança que mexe profundamente com a vida de todos e não pode ser conduzida de maneira açodada, olhando apenas o calendário eleitoral. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já demonstrou serenidade e disposição para o diálogo, indicando que a tramitação na casa irá respeitar o debate”, explica Paulo Solmucci.
Para a Abrasel, a pesquisa Vox reforça que o caminho mais consistente passa por opções negociadas, segurança jurídica e respeito às diferentes realidades do mercado de trabalho. “Quando o debate avança, cresce a percepção de que proteger o trabalhador não significa engessar o mercado. Significa garantir direitos, mas oferecer alternativas reais, com flexibilidade e responsabilidade”, conclui Solmucci.






